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Eu vi Deus

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13.10.2011 - 12:29:15

Vivenciei ontem um dos momentos mais esperados de minha vida: assisti um show do Eric Clapton. Estive no Morumbi, em São Paulo, para ver aquele que um dia foi chamado de Deus. Tal qual os autores das pichações que surgiram nos muros da Londres sessentista afirmando que “Clapton is God”, também tenho fé no perfil santo dos sons produzidos por esse cara. Vi que sua slowhand divina ainda é capaz de sensibilizar o mais agnóstico dos corações. Um estádio com 90% de sua lotação reverenciou o mestre das seis cordas como fiéis à espera da comunhão.  Foi de arrepiar!

Clapton não faz concessões. É o show da turnê que ele vem fazendo, onde o mote principal são os clássicos do blues. Não interessa se a apresentação é numa casa de shows com poucos lugares ou em um estádio: o repertório é o mesmo. Contudo, não significa que o show é o mesmo. Em cima das canções já previstas, Clapton improvisa, busca diferentes fraseados de guitarra, inova nos solos. Nunca é a mesma música, apesar de ser a mesma música.

Os hits aparecem, é claro! Não todos que ele poderia tocar. Por exemplo, nada de After midnight, Tears in heaven ou Sunshine of your Love. Mas, por outro lado, estão lá Lay down Sally, Cocaine e Layla (em uma nova versão acústica, diferente daquela registrada no Unplugged). Essa última é particularmente especial para mim. Minha filha chama-se Laila. E foi justamente uma homenagem a esse cara. Foi difícil segurar a emoção.

O grau de reverência era tamanho que o estádio ficava silencioso, como quando um atacante parte para bater um pênalti na final, a cada vez que Clapton iria para o solo. Cada detalhe era observado, sentido, experimentado. Ao final, uma calorosa salva de palmas, como se tivesse sido um gol. Só esse sentimento para esquentar do gélido vento que cortava o Morumbi.

Clapton não é de muita interação, limita-se a agradecer o público com um simples “thank you” e nada mais de diálogo. Não tem pirotecnia, espetáculo, dancinhas. Nada. É “só” o som.  E, sinceramente, ele não precisar ficar ali macaqueando para sensibilizar os presentes. Basta tocar sua guitarra ou violão que está tudo feito! No bis, chamou Gary Clark Jr., que fez o show de abertura, ao palco para tocarem juntos a pedra fundamental do blues Crossroads, de Robert Johnson.

Depois de ver o show dele, é difícil não concordar que realmente Clapton é Deus.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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