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Antes só do que no meio da manada

06.02.2014 - 11:29:08
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Goiânia – Descobri finalmente, se é que estava mesmo encoberto, por que desde criança detesto aglomerações humanas. Desnovelando cordas por cercas e porteiras da memória, lembrei que a primeira imagem dessas aglomerações que tive era na verdade um povoado de pernas. É que lá pelos três anos –  dizem que a gente só tem lembranças inventadas antes dos cinco de idade (não serão todas “Memórias Inventadas”, Manoel de Barros?) –  meu pai me levava para assistir aos rodeios lá em Pontalina e, eu pequenina, só enxergava, na altura dos meus olhos, um coletivo de calças, batatas, cambitos, botas, botinas e esporas. Ele esticava o pescoço e assistia. Eu ainda não tinha pescoço que esticar.
 
Nem havia muito pra ver mesmo, porque era daquelas pecuárias de currutela, uns bezerros magricelas laçados por uns peões de meia tigela, contrastando com o gado bem cuidado em exposição, porque fazendeiro à moda antiga, à moda daquela época, não judiava da criação (não?), exceto nesse tipo de apreciação de destreza e valentia. Então os peões judiavam dos bezerros e meu pai judiava de mim, porque era um verdadeiro suplício ficar ali em cima das pernas curtas de tamborete só vendo pernas de cadeira ou mesa na frente. 
 
Por mais que eu chorasse, esperneasse, implorasse, ele calmamente respondia: "papai já vai, filhinha". E não ia. Nunca ia. E eu não podia sozinha passar sebo nas canelas. Era o rabinho dele, como dizia.  Onde ele avançava, eu atrás balançava, filha caçula temporã, rapa derradeira do tacho de cobre, com direitos por isso adquiridos de comer as partes nobres, o rabinho do porco quando matavam capado ou rapar o tacho do requeijão e ir aonde o pai fosse sem que ele dissesse não, mas também pagando o correspondente preço da paciência, que nas crianças inexiste (têm um modo aumentantivo de calcular a eternidade). Deve ser daí que nasceu em mim o pavor de muita gente reunida, do povo que parece um polvo de milhares de tentáculos e milhões de vozes. 
 
O terror, se não cresceu, foi ficando diferente, menos provindo dos olhos do que dos ouvidos. Tenho agora pescoço que esticar e saltos altos que me elevam. Hoje, frequentemente, quando estou nos ajuntamentos, principalmente em eventos políticos, a recordação que me vem é do filme “Tão longe, tão perto”, de Wim Wenders. O anjo Cassiel ouve o burburinho dos pensamentos humanos, cada pessoa revolvendo seus próprios problemas, seus íntimos dramas. Tanto ruído, tanto ruído, mais ruidoso e doído do que o eco de suas altas vozes, que por elas mesmas já me dão comichão nos tímpanos, ainda mais se juntadas às sertanejas ou outras músicas estrepitosas, próprias desses amontoados, onde nunca ouvi sequer o agudo de um tenor de ópera.
 
Não que eu tenha qualidades de anjo e que assim ouça o que as pessoas dizem para dentro da boca, na solidão dos seus pensamentos. Mas não consigo mirar tanto surtimento humano sem imaginar suas histórias, suas vidas, desejos e anseios. São vozes demais pra mim –  uma querendo falar mais alto que a outra– ,  eu que já tenho as minhas tantas cá dentro, que continuam se digladiando enquanto não me converto ao budismo, para aprender a silenciar a mente.
 
Deus, como todos os santos e orixás, bem como os políticos, deve ficar perplexo diante de tantos pedidos contraditórios e diversos em tais aglomerados. Como atender um se o atendê-lo implica frustrar a outro? Dar o emprego a alguém se outrem também ambiciona o posto? É bem verdade que para os políticos é um pouco mais fácil, porque fazem milagre com a oferenda alheia ou com o pagamento de promessa também por meio do alheio. Mas  para os lá do Alto e Além, quão difícil deve ser decidir a quem dar o Bem. E coitados dos santos casamenteiros, pois nessa vida uns hão de ficar solteiros.
 
As multidões me dão desespero – eis o que me dão –, mas também me criam pena no coração, dó de ver assim reunida tanta euforia, quanta dor, ilusão, ambição. São demais para os meus olhos e ouvidos e até para meu frágil esqueleto, tanto mais que já me ocorreu de ser arrastada por elas, uma vez em que, trabalhando como repórter, estava no meio da recepção a um presidente da nação. Foi o maior dos horrores ser carregada por aquela onda humana, destituída dos pés ancorados ao chão, o temor de cair e ser pisoteada como num estouro de boiada. E assim matutando é que concluo ser melhor andar só do que no meio da manada, não frequentar lugares muito cheios, nem templos, nem shows, nem praias lotadas, nem modas, nem temporadas, nem pessoas muito frequentadas.
 
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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