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Tá olhando o quê?

16.01.2014 - 11:45:54
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Goiânia – Você chega a um restaurante, a um bar, a um shopping, a uma igreja, a uma festa e te encaram do último fio do teto solar aos sulcos do calcanhar. É como se mordessem sua jugular. Muitas vezes te olham com aquelas pupilas dilatadas de desidrata-malagueta, radar raio-X, que dá vontade de mandar “para o raio que o parta, oh, capeta”,  carregado de curiosidade a inveja ou desprezo. A sensação é incômoda. Você tem comichão de voltar para a indiferença do seu lar, onde quem tem te contempla com ainda menor indulgência é o espelho, e olha lá.

Há, é verdade, quem goste desse hábito muito comum em Goiânia, de escanear a superfície de quem chega. Mulheres às vezes são simpáticas a isso, principalmente se sua autoestima anda abalada, pelas muitas noites na balada sem fisgar porra nenhuma e terminar a noite afogada na taça de marguerita.

Digamos que seja bom ser notada. E dá-lhe shortinho curto para passar diante da obra e ouvir pelo menos o fiu-fiu do pedreiro. Há mesmo aquelas que se vistam como vagalumes fosforescentes; excesso de informação, brilhos, dourados em brincos, anéis, colares, piercings e tornozeleiras; ou ainda escassez de tecidos; decotes vertiginosos de precipício; vestidos aderentes cosidos nas curvas do corpo; uns saltos altíssimos que nos fazem recear que elas caiam de si mesmas; aquarelas nos rostos, máscaras de colombinas desesperadas por arlequins ou pierrôs.

Será talvez isso um tipo de defesa contra a sensação de invisibilidade, que se agrava à medida que avançam sobre nós os efeitos amarrotadores e descendentes da idade? Ah, nostalgia de um tempo em que as mulheres eram maravilha e os homens invisíveis!  Porém, as relações mudaram e hoje para ser notada às vezes é necessário exibir-se pelada. Não adianta mais sair à rua com o penico cheio de azeitonas na cabeça gritando “melancia”!

A exuberância feminina democratizou-se, deixou de ser exceção, para se tornar uma abundância de formas sinuosas. A mulher “siliclone” quer ser híbrida, mulher e homem. Mas deixemos essa prosa para outra hora e mais adiante falaremos também da nudez dos olhos de Lygia Fagundes Telles 

“Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo.”

O fato é que embora haja quem goste de ser analisado de cabo a rabo por desconhecidos, há quem, como eu, às vezes tenha vontade de lhes mostrar que é tomada focinho quebrado de porco. Mentalmente lhes digo coisa de muito baixo calão e peçonha: perdeu alguma coisa aqui, amigo? Por acaso deixei vazar na roupa o conteúdo dos intestinos?  É claro que não digo. Viemos ao mundo para ser polidos e dilapidados em seguida. Não quero de maneira nenhuma dizer que isso só ocorra em nossa cidade, mas, por exemplo, em outros lugares do mundo, como Londres, você pode sair à rua com o visual da maior bizarrice, com aquele seu traje de joguinhos sadomasoquistas, que ninguém vai algemar as pestanas em você ou açoitá-lo com o chicotinho da chacota. Ficamos até perplexos por ser tão ignorados ou respeitados em nossa privacidade. “Que droga! Será que não me notam?”

Em Paris também, você vai a um daqueles bistrôs minúsculos, uma mesinha aqui com um grupo de amigos, colada a outra, onde está um casal romântico num tête-a-tête –  algo tão clichê mas não lindo –  e ninguém fica prestando atenção na sua conversa, gargalhadas ou sussurros. E se presta, pondo em pé compridas orelhas, não dá bandeira.  A propósito de casais franceses, se há algo que acho encantador é ver os casais sentados, não lado a lado, mas diante um do outro, o que permite que conversem, que se vejam olho a olho.  Certa vez um francês que conheci e que visitou o Brasil perguntou a um brasileiro por eles se sentavam ao lado das mulheres em bares e restaurante. Este respondeu que era para tocá-las. Eu, porém, contrapus, tirando sarro: é para poder olhar outras mulheres, sem provocar barracos. E completei: os homens que assim agem não estão interessados no que as mulheres têm a dizer. Se é mesmo para tocar e ser tocado, há algo mais excitante do que um pezinho à frente, que, discretamente deslizante, roça provocantemente as partes ocultas sob a toalha da mesa do restaurante?

Ainda falando sobre o comportamento masculino, não há nada tão grosseiro quanto um homem sair caminhando à frente de uma mulher em qualquer situação, exceto nas escadas degraus abaixo, porque sempre podemos sair rolando e talvez precisemos ser amparadas. (Horror a elas, principalmente as rolantes!). Embora algumas feministas reajam furiosamente a isso – “não precisamos de homens que nos abram portas” – creio que certas atitudes são, não feminismo ou machismo, mas simples gestos de gentileza, amparados por razões puramente lógicas. Mulheres em geral têm pernas e passos mais curtos, usam saltos, que lhes retardam o deslocamento.

Certa vez vivi uma situação típica. Estávamos participando de um congresso profissional em outra cidade. Quando o carro chegou para nos apanhar no hotel, todos os céleres machos goianos entraram no carro, deixando para trás as únicas duas mulheres do grupo, com cara de tacho. Quando apanhamos o segundo táxi e chegamos ao local do evento, eu carregava um equipamento pesado, trepada nos meus saltos altos, e todos saíram trotando adiante. O único que deteve a marcha para me ajudar com o fardo foi um gaúcho.

Naturalidades, machezas e machismos à parte, reafirmo que não pretendo fazer generalizações, mas apenas citar ilustrativamente um episódio isolado, mas nem por isso menos simbólico. Olhemos um pouco mais para o lado. Olhemos, aliás, para todos os interlocutores quando estamos em uma mesa ou roda em que há várias pessoas. Embora estejamos conversando com uma especial, é sempre delicado olhar eventualmente para uma e para a outra, para que não se sintam excluídas. Muito ruim se sentir um peixe fora do diálogo. É bem adequado também, nos encontros de família ou amigos, ter a cortesia de pergunta algo sobre a pessoa que se encontra, demonstrar algum interesse em ouvi-la e não ficar falando apenas de si, como uma maritaca autista.

Será que nos antigos cursos de etiqueta que as moças de abastadas famílias de Goiânia frequentavam nas décadas perdidas, ensinava-se isso? Essas escolas ainda existem? Houve algum dia uma escola de delicadeza e cavalheirismo? Se não, é preciso urgentemente reabri-las e iniciar logo as matrículas. Precisamos aprender a distinguir, não a posição das taças ou talheres à mesa, mas quando fixar os olhos no próximo, quando conduzi-los ao horizonte ou quando colocá-los e tirá-los de nosso próprio umbigo. Isso sim é ser “phyno’. 

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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