
Quando o relógio badalar a meia noite do dia dois de janeiro de 2014, vou começar a soltar fogos de artifício, para assustar as crianças, os cachorros e os passarinhos, para provocar infarto nos idosos, para apressar o passamento dos moribundos.
Vou ruidosamente anunciar ao mundo a minha euforia, porque o fim, o fim do ano finalmente chegou – louvado seja! – levando consigo toda a ansiedade dos presentes a comprar; das festas às quais comparecer; dos perus e das pessoas a embebedar; daquela necessidade desesperada e generalizada de pertencer a uma família de feliz comercial de margarina ou de produtos natalinos em geral; de possuir um amor para dar um beijo de novela; de ganhar, não importa como, dinheiro para viajar até a praia e arremessar flores e perfumes a Iemanjá, não contando qual crença seja, bastando entornar champanhe ou cerveja.
A essa altura já devem estar a pensar: tal criatura é daquelas que têm a boca e a alma amargas, que não é movida pelo espírito fraterno do Natal, um daqueles tipos solitários retratados nos filmes da sessão da tarde, exibidos nessa época de ano. No final do filme, após grande sorte de reveses e infelicidades, será tocada pela alma inocente de uma criança, que fará com que ela finalmente acredite no papai-noel e no amor entre os homens.
Não, não é nada disso. No dia dois, meu filho de cinco anos já terá encontrado o presente deixado pelo bom velhinho e nunca dado pela mamãe ruinzinha, possivelmente terá se surpreendido ao ver pegadas deixadas por ele na neve de farinha, no trajeto da janela até a árvore em que brilha a solitária estrela.
No dia dois, certamente eu já terei abraçado meus pais assim como os melhores amigos e lhes desejado sinceramente que sejam mais felizes, embora não acredite que existam mágicas ou milagres repentinos para a gente se construir feliz. Já terei confeccionado um cartãozinho de boas festas com o rosto e as brincadeiras de meu menino, fazendo votos de um feliz ano no ovo ou de um ano novinho em folha, flores e frutos.
Mas o que sentirei, a partir desse dia, será um profundo alívio. Alívio porque não mais verei nas ruas as pessoas correndo desesperadas como se carregando folhas para um gigante formigueiro, instadas por aquele burburinho, zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz dos shoppings centers, formado por vozes ansiosas e músicas estrategicamente escolhidas pelos administradores e proprietários das lojas para acelerar, acelerar, acelerar….
Estarei aliviada porque não haverá mais festas de confraternização todos os dias, festas que se constituem muitas vezes em verdadeiros momentos de “infernização” para aqueles que, por gosto ou convicção pessoal, por circunstâncias alheias a sua vontade, não estão eufóricos ou felizes, antes introspectivos e reflexivos.
Muitas dessas comemorações são organizadas como uma espécie de obrigação social. Trata-se de um tipo de tributo a pagar para viver em sociedade, um IPCS, Imposto sobre o Convívio Social. Sim, há que se desejar feliz Natal, próspero ano novo, sob pena de ser considerado mal humorado, antissocial.
Sim, há que se dizer bom dia a quem você encontra no elevador. É simples questão de cortesia. Mas será mesmo necessário dizer “bom diaaaaaaaaaaaaaa!”, açucarando bastante a voz? Será mesmo preciso abraçar calorosamente pessoas com as quais durante o ano se mantêm relacionamentos distantes, conflitantes ou mesmo hostis, dar presentes àqueles com os quais não se têm verdadeiros laços de amizade? Já não será bastante um cordial cumprimento? Qual o limite entre a boa educação e a hipocrisia?
Ora, me dirão que essa época é momento de paz, de reconciliação. Porém, os conflitos serão assim magicamente desfeitos? Não deveríamos nos deixar animar por esse espírito durante o ano inteiro?
Algo que não se tem incluído nessas confraternizações e saudações é o desejo por respeito. Sim, respeito às diferenças, à fé e às convicções dos outros. Nem todos são iguais e não se tornam iguais simplesmente porque é Natal ou réveillon. Há pessoas que apenas não gostam dessas datas festivas, porque as julgam simplesmente comerciais, ou porque são tímidas, não expansivas, por que não lhes agrada transformar suas manifestações de estima e de afeto em eventos públicos.
Há pessoas que somente não as apreciam por razões e conjunturas íntimas e pessoais. Por que então não respeitá-las em seu desejo de não participar de tais eventos? Por que estigmatizá-las de rabugentas, de más, submetê-las a constrangimentos, praticando o que se pode considerar um tipo de bullying festivo, assaltando-as em um arrastão de alegria?
Nem toda alegria é do tipo que arreganha os dentes ou se transforma em foguetório. Nem todo afeto quer ser gritado do alto dos telhados. Existem amores tímidos que se manifestam por um bilhete escrito mui reservadamente. Há quem não goste de sambar efusivamente, mas de dançar uma lenta valsa vienense. Por falar nisso, depois de comemorar o fim do fim do ano, já vou começar a me preparar para festejar “o quando o carnaval passar”.