Depois de ter lido por aí tantos textos do tipo “namore uma garota que viaja” ou “namore um homem que lê”, ou “namore um homem que escreve”, e depois de já ter eu mesma publicado aqui um texto sobre “como paquerar com livros” – listando técnicas lá não muito infalíveis –, resolvi também me aventurar na defesa da causa própria, afinal a propaganda enganosa é mesmo a alma do negócio. E a propaganda hoje está ao alcance de qualquer um. Estão cá as redes sociais que nos deixam mentir.

(Foto: reprodução/clarissalamega.blogspot.com.br)
Se eu fosse uma dentista, por exemplo, escreveria um texto intitulado “namore uma mulher que cuida do seu sorriso”. Se fosse uma contadora, “namore uma mulher calculista” – ops! – e por aí iria. Mas, vamos lá. Não estou aqui para puxar sardinha, ou melhor, salmão para o prato das outras.
Entre as vantagens de namorar uma mulher que escreve – e nessa categoria inscrevo não só as escritoras, mas também as jornalistas, portanto, duplamente me incluo – é que você sempre pode recorrer a ela quando precisar escrever ou revisar não importa o que: sua tese de mestrado ou doutorado, um bilhete desaforado para o síndico, uma carta para seção de leitores do jornal queixando-se dos políticos.
Deixando de lado o aspecto pragmático, tão caro nas relações hoje em dia, namorar uma mulher que escreve é garantia certa de que você fará sucesso, não só com ela, mas com outras mulheres. É que, se apaixonada, certamente publicará mil textos em prosa e verso, mencionando-o, direta e indiretamente, no facebook, no blog dela; relacionando suas virtudes românticas e viris; deixando as outras curiosas por saber que tão maravilhosas qualidades esse homem reúne para arpoar o exigente coração de uma mulher que escreve.
E, claro, como toda descendente de Eva, ela também adora despertar inveja no mulherio e não será nem um pouco discreta; pelo contrário, fará xixi no post todos os dias, marcará o território de fêmea possessiva com perfume em excesso e batom na cueca, o que só elevará sua cotação no competitivo mercado amoroso. Sem contar que, se você lê o que ela escreve, deduzirão que é um leitor sensível e leitores nesse país estão mais raros do que o lobo-guará. (Favor providenciar urgentemente o cruzamento da espécie, para combater o risco de extinção.)
Caso, porém, ela se desapaixone ou vocês tenham rompido, principalmente se você tiver coroado sua iluminada cabeça com um belo par de chifres, ela irá transformá-lo imediatamente no protagonista de histórias terríveis, porque uma mulher que escreve é também, antes de mais nada, uma leitora e uma escrevedora vingativa, nutrida na melhor e na pior literatura sobre amores traídos e contrariados. Uma mulher que escreve certamente já leu "Ligações Perigosas", de Chordelos de Laclos. Se não, assistiu ao menos ao filme com a peçonhenta Glenn Close.
Nesse aspecto, embora um pouco perigoso, será muito vantajoso namorar alguém da espécie, pois hoje também vale muito o tal do “se estão falando mal, estão falando bem de mim”. Eis outra das ilógicas lógicas femininas: se fulana anda cuspindo cobras e lagartos sobre a cobra do cara, é porque está despeitada e esse cara deve medir alguma coisa. Os dividendos de se namorar com uma mulher que escreve, portanto, continuam se multiplicando depois que acaba o namoro. E uma vez namorando uma, outras mulheres começarão a escrever para seduzi-lo, o que só aumentará o número de mulheres que escrevem e, portanto, a oferta desse tipo de carne no mercado. (Espero que os homens sigam também essa mesma aritmética).
Por falar em despeitada, está aí um problema de se namorar uma mulher que escreve. Lamento decepcioná-lo, mas dificilmente ela terá peitos grandes ou um volumoso derrière, pois certamente se os tivesse não teria se tornado uma mulher que escreve, não teria se preocupado em desenvolver outras qualidades, além das copulativas, para atrair os machos. A feiúra da “Mulher que escreveu a bíblia”, de Moacyr Scliar está aí pra provar. Possivelmente ela também não terá colocado próteses de silicone, não só porque a mulher que escreve gosta de ser voluntariosa, de nadar contra a corrente, como porque ela gastou todo seu dinheiro comprando livros.
Aliás, outro inconveniente de se namorar uma tal é que ela, principalmente se tirar seu sustento de escrever, será irremediavelmente pobre, uma mulher sem peito e de peito no sentido figurado; e sem dinheiro, na mais dura acepção do termo. Se bem que sempre resta uma esperança de ela se tornar um dia uma Isabel Allende, ou melhor, uma E.L. James, autora de “Cinquenta Tons de Cinza”. Só que isso pode só acontecer aos setenta. Ah, e resta ainda a possibilidade de ela se transformar em uma autora de literatura de autoajuda, mas nesse caso, Deus "lhajude", porque uma mulher que escreve esse tipo de coisa são outros quinhentos.
Por falar em quinhentos tons, conta a lenda que a mulher que escreve é quente e imaginosa, que, alimentada também pelas obscenidades abundantes na literatura, faz as praticantes do quadradinho de oito parecerem recatadas noviças. Se entre os livros preferidos dela estiverem "O amante de Lady Chatterley" de D.W. Lawrence ou "Delta de Vênus" de Anais Nin, aí, meu amigo, você pode se preparar porque ela vai te dar um chá de e fazer o pilão tremer no almofariz.
Mas deixemos esse assunto de lado, porque algo importante para quem pretende namorar uma mulher que escreve é não pensar sobre isso e não ser em hipótese alguma ciumento. Sim, porque se o cara for ciumento, não passará com ela da primeira página. Para namorar uma mulher que escreve, ele deverá acreditar piamente que todas aquelas histórias apimentadas que ela escreveu são apenas ficção; que em todos aqueles poemas está um mero eu lírico ficcional; que seu grande poema, a sua grande história de amor ainda está por ser vivida e assim escrita.
Portanto, apesar de todas as vantagens, não é mesmo muito fácil namorar uma mulher que escreve. A mulher que escreve, escreve, escreve, escreve sobre ser mulher, é repetitiiiiiiiiiiiiva e isso é um saco. A mulher que escreve vai ficar o tempo todo tentando mostrar como escreve bem, tentando seduzi-lo com suas gostosas palavras, acreditando que um discurso persuasivo pode persuadir alguém a amá-la, fingindo se esquecer do seguinte fato:
De nada adianta ter boa lábia,
porque ao fim e ao cabo,
o que conta mesmo
são uns lábios doces,
um bom par de peitos
e um bom rabo.
Se por um lado, a mulher que escreve não é nenhum protótipo de gostosa, por outro também não é pura, de corpo e de alma. É bem possível que ela já tenha adquirido muitos conhecimentos no sentido bíblico e no sentido horizontal de outros livros sutras; que ela não seja uma alma virginal; antes que seja meio maluca, um tipo que, se não faz, já fez uso de remédio controlado. Pensando bem, acho que não é muito bom namorar uma mulher que escreve. Deve ser por isso que ela está sozinha.