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Luiz com Z

04.12.2013 - 18:29:27
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Meu avô se chamava Luiz, um Luiz especial, Luiz com Z. 
 
Luiz Zabulon, nome bíblico, tocava clarineta quando era jovem, gostava de cantar, contar histórias e fazer longos passeios a pé na fazenda. Brincalhão, acordava rindo e ia dormir rindo, pessoa do bem, da paz, não conseguia fazer mal a uma mosca. Elegante, andava de calça de linho, chapéu de feltro e uma longa bengala de madeira. Um senhor de outros tempos.
 
Foi a primeira pessoa a me mostrar as estrelas em uma de nossas caminhadas. Esse é o Cruzeiro do Sul, aquelas são as Três Marias… Sentado debaixo de sua árvore preferida, a pororoca, gostava de juntar os netos para cantar enquanto via o sol descer, esperando a hora da minha avó chamar para o jantar. Tinha mãos longas, dedos finos e delicados, o braço peludo e a ponta dos dedos amarelada pelos cigarros de fumo de rolo, que ele mesmo gostava de fazer. 
 
Picava o fumo bem fininho, cheiroso, e enrolava em palhas quase transparentes, que preparava usando um enorme casco de caramujo. « Grosar » as palhas de milho, tarefa que adorava observar e algumas vezes tinha o privilégio de poder ajudar. E quando tudo isso passa, pensamos que podíamos ter aproveitado um pouco mais, ouvido mais histórias, segurado por mais tempo a sua mão, me impregnado do seu humor que transcendia os óculos de lentes grossas e sua forte miopia que nunca o impediu de enxergar além.
 
Meu irmão, que herdou dele os gestos, o andar e a calma, também é um Luiz com Z. Tem o mesmo porte, o mesmo humor e foi o que mais tempo dedicou a ouvir suas histórias e canções. Não é um senhor de bengala e chapéu, mas poderia ser, se tivesse nascido em outros tempos. Tem a vagareza dos que sabem que não é correndo atrás do tempo que se ganha tempo. Muito pelo contrário.
 
Nenhum Luiz até hoje me decepcionou. E ainda existe um terceiro Luiz, meu sobrinho.  Foi quem me ensinou a não matar nenhum  inseto, « bichinhos de deus », do alto dos seus quatro anos de idade. Nunca me esqueci da cena, ele agachado no chão, me explicando como um pequeno professor, que eu não deveria fazer mal às formiguinhas porque elas não estavam me fazendo mal nenhum.
 
Toda vez que tenho o impulso de perseguir algum dos invertebrado que povoam minha casa ou o jardim, me lembro dele e pergunto-me se é realmente necessário. Compramos a idéia de que temos que  viver em um mundo cada vez mais asséptico, mas isso é contrário à vida, à saúde e ao estado primitivo da natureza, do qual precisamos cada vez mais.
 
Hoje, meu sobrinho é um jovem adulto, que virou antiteísta convicto e gótico, mas continua me ensinando muita coisa. Infinitas mudanças aconteceram nas nossas vidas, mas seu olhar continua intacto. Outros temas, outras histórias, mas ainda enxerga o mundo de forma cruelmente direta, inclusive com ele mesmo. Gosto de tentar entender sua forma de decifrar e desafiar o mundo.
 
Recentemente, descobri  que temos algo em comun, a poesia. Ele gosta de escrever e me surpreendeu com textos fortes, tentado desmembrar a fronteira entre a vida e a morte, o prazer e o sofrer, o amor e a solidão.  Publico aqui alguns trechos, com orgulho de mais um Luiz.
 
"Quando a fúria da minha alma petrificada passar, estarei perdido entre frutos de cinzas negras; quando o luar me clarear de amor nesta noite eterna, estarei coberto pelo véu da morte
que no meu interior caminha como um velho amoroso e sussurra doces palavras no meu coração corrompido, corrompido por angustias exiladas e amaciado por trevas.
Já há muito tento encontrar meu rosto que caiu no rio da consciência desmamada
e foi levado pela correnteza até chegar no mar inquieto e furioso,
mas às vezes um manso balanço que me faz dormir imaginando
o que há nas profundezas, vou mergulhar ate não encontrar mais o ar,
um pouco de morte no amor e um pouco de amor na morte."
 
*
"Caminhos primitivos, caminhos orgulhosos de luxo, por onde eu andar sempre vou observar, quando eu te observar você pode não estar lá, para me confortar? quando eu precisar sentirei o cheiro de uma flor sem poder tê-la dentro de mim, mas que interior é este? espaço vazio onde eu escuto ecos, as vezes ecos da morte e as vezes ecos de solidão."
 
*
 
"Você  toma minha respiração, você abre meus olhos na escuridão, você  toma minhas vísceras, você me traz de volta a época em que  eu nasci, veste minhas medalhas e escreve no meu caderno de ficções, me traz uma nova visão da realidade, como se eu pudesse ser livre nesta prisão, como se eu ainda tivesse um coração. Em frente a esse monte de fumaça eu navego sem dor nas cinzas, mas com muita amargura e indigestão nessas águas, não posso me deitar neste colchão engordurado, não posso dizer que esse desgosto me tiraria a vitalidade do meu espírito de morte e a borracha queimada deste pesadelo nunca acaba, você me ama e eu te amo sofrimento."
 
*
 
"Meu barco deságua num grande salão em mais uma noite de tormento, em mais um amanhecer nos meus sonhos, quisera eu acordar e ver tudo novamente ;  ela me trouxe a vela e o fogo, ardendo em paixão, vejo que as águas que eu megulho são vermelhas como vinho. Perguntei à sereia se ela pode mudar meu destino e o nosso, ela disse: você vai encontrar seu destino nas estrelas, se beber seu vinho, o vinho do seu coração. Mais uma noite de tormento e ela me trouxe com carinho uma refeição do sofrer, mais uma noite eu não aguentarei, mais uma noite e eu me regozijarei nesse êxtase de prazeres da memória e prazeres desconhecidos, estarei farto? Não, porque os pássaros voam com o vento."
 
Luiz Juruena Di Guimarães Faria de Aquino
 
 
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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