Logo

Eu e o gafanhoto

22.10.2013 - 14:37:24
WhatsAppFacebookLinkedInX

                                                                                                                                                        (Foto:Nicolau Lutz)

Zurique – Acordei  no meio da noite, sentindo uma presença estranha no quarto. Abri os olhos e vi algo pulando no escuro. Tomei coragem e ao acender a luz, descobri  um gafanhoto ao lado da cama. Lembrei-me de Sir Paul, mas apesar de achá-lo muito simpático, não lhe dei nenhum  nome. Resolvi  levantar-me e levá-lo ao jardim, imaginando que meu refúgio não era o habitat mais adequado a gafanhotos verdes.
 
Meu refúgio é um pequeno quarto no sótao de minha casa, onde recebo hóspedes e me recebo nas noites em que passo lendo ou escrevendo. Há apenas uma cama, cercada de livros por todos os lados, e uma pequena janela, perfeita para se observar a lua cheia de madrugada.  Foi em uma dessas noites, de pouco sono, que recebi a visita inesperada. Na realidade, não sei a diferença entre gafanhotos,  louva-a-deus, grilos ou os temidos « grasshoppers ». Mas, desde criança gosto de observá-los e surgiu daí essa simpatia gratuita e a leve desconfiança de que sempre trazem boas notícias.
 
Depois de depositar meu amigo no jardim e respirar um pouco do ar fesco da noite, voltei  ao sótão que me pareceu  um tanto mais vazio. Me perguntei se não deveria  tê-lo deixado pelo menos por uma noite, quem sabe, trazia algum recado. Dormi novamente e me esqueci da rápida visita.
 
Há alguns dias, chegando em casa, me deparei novamente com um pequeno gafanhoto verde em cima da porta. Lembrei-me então do visitante noturno, sorri e achei que deveria ser um bom sinal. Entrei e deixei-o aproveitando os últimos  raios de sol amarelados do outono. 
 
Hoje, ao chegar em casa novamente, meu amigo verde estava me esperando em cima do trinco da porta. Não tive coragem de entrar e deixá-lo para trás. Coloquei-o em cima de uma folha e pensei em deixá-lo morar no grande vaso de antúrio da sala. Mas ele não gostou da minha proposta, não desceu da folha. Não adiantou insistir. 
 
Então decidi levá-lo novamente ao sótão. Subi as escadas, sem que ele se mexesse. Chegando ao topo de três andares, pulou imediatamente ao chão e pareceu familiarizado com o ambiente. Achei graça. Não quis entender, nem me perguntei nada, resolvi apenas conviver com um gafanhoto solto no meio dos livros e papéis. 
 
Deixei a janela aberta, assim poderia sair, como talvez um dia entrou. E me distrai a pensar que as coisas, pessoas e gafanhotos vão e voltam, nem sempre os mesmos, isso não importa, mas algumas presenças ficam. E devem ficar. Entre um jardim outonal ou um sótão soterrado de livros, cada um faz a sua escolha. E não vou decidir por ninguém, nem mesmo por um inseto que, aconselhada por meu sobrinho Nino, quando tinha apenas quatro anos, deixei de perseguir, há muitos anos. 
 
Ultimamente, o único inseto que ainda sofria da minha fúria assassina era a larva de uma traça que costuma invadir o armário da cozinha. Mas também desisti de exterminá-la, depois do dia em que a observei atentamente, movendo-se de um lado ao outro da chapa elétrica do fogão, refletida no vidro escuro de indução, aquela minúscula porção de vida, esticando e encolhendo-se, vencendo mínimos milímetros com grande esforço, levantando a a cabeça, sentindo o ar, buscando o caminho, mudando o rumo, quando eu aproximava minha mão. Havia tanta vida ali, naquela pequeneza, que não me senti autorizada a matá-la, por vício ou excesso de higiene.
 
Descobri que não se pode fazer mal a quem se olha bem de perto, no fundo dos olhos. Gosto do meu gafanhoto solto no meio dos livros e a janela vai estar sempre aberta.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]