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Mensagem para a cápsula do tempo

16.10.2013 - 17:49:44
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Goiânia – Quando menina, eu costumava, juntamente com outras crianças, fazer aquela brincadeira que consistia em escrever uma carta, colocá-la em uma caixa de sapatos e sepultá-la em algum lugar do quintal, para enfim desenterrá-la e reabri-la depois assim de uns dez anos. O que escrevíamos em tais cartas? Não consigo me recordar. Suponho que fossem ingênuos segredos infantis: alguma peraltice cometida às escondidas, o enamoramento pueril pelo coleguinha da escola, o desejo por uma boneca nova.

Fixávamos um prazo pequeno para a autópsia de nossas memórias: uma década certamente, pois o tempo é relativo e se para crianças um dia é uma eternidade, o que dirão elas sobre a largura e a lonjura de dez anos? E nem esse prazo respeitávamos, claro. Passados uns três dias, lá íamos, salivantes como cachorros diante do osso enterrado, exumar os garatujados corpos de papel. Aquilo certamente não nos trazia encanto, pois nossas emoções e desejos já haviam se renovado, não ambicionávamos mais aquela boneca e sim uma outra, já tínhamos nos enamorado de um menino novo que acabara de entrar na escola. Olhávamos para aqueles escritos com o enfado e o desprezo que tem grande parte dos jovens por tudo aquilo que deixou de ser novidade, que contenha traços do ontem. Por fim, jogávamos fora caixa, papel, palavra e tudo mais. Ah, a prodigalidade das crianças!

Foram-se aqueles papéis, mas outros restaram. Pensando bem, fazemos tal brincadeira todo o tempo. Ao longo da vida todos nós vamos acumulando segredos, memórias, encerradas em uma caixa no fundo do armário: fotos desbotadas, cartas amareladas, tickets de cinema, papéis de sonho de valsa. E quando a gente se anima a abri-la, encontra mais do que coisas, defronta-se com pouco ou muito do que a gente era há eras.

Embora eu tenha minha própria caixa e esporadicamente a vasculhe, fiquei tentada a reeditar a brincadeira da infância quando vi a proposta do Parque Mutirama que, em comemoração aos 80 anos de Goiânia, irá fazer uma cápsula do tempo. Todos que quiserem poderão colocar ali suas mensagens, desenho, texto, vídeo, áudio, pois o recipiente será fechado, enterrado em 24 de outubro e só aberto em 2033. Mesmo sabendo que em tempos de armazenamento de dados nas nuvens, guardar memórias sob a terra parece algo sem sentido, fiquei animada. A não ser que uma grande catástrofe se abata sobre o planeta, daquelas que destroem tudo o que foi erguido sobre o chão, tão bem exibidas em filmes apocalípticos, não há mesmo muita lógica em enterrar nossas cartinhas. Certamente, daqui a 20 anos, poderemos recorrer, se não ao Google ou a outro buscador muito mais moderno, ou talvez a alguma nova e dinâmica ferramenta a ser inventada, para encontrar registro de fatos de nossa vida ou textos por nós escritos. Porém, por que não brincar de deixar uma mensagem para o futuro, em garrafa ou cápsula?

Mas, então, o que gostaria de lembrar a mim mesma ou a outras pessoas quando da abertura do recipiente? A propósito, estarei ainda viva? Meu Deus! Ao começar a escrever este texto, essa hipótese não tinha ainda me ocorrido, tão absorvidos estamos na nossa autoconfiança de vivos. E se estiver viva, terei 61 anos. Meu Deus de novo! Serei uma sexagenária e estarei aposentada. Como assim aposentada, se ainda me sinto no começo de minha vida profissional? Como assim se só agora, aluna atrasada da classe dos retardatários, vejo claramente o que de fato quero da vida? Antes, nos anos mais tenros da minha carne, eu queria isso e aquilo, ia por aqui e por ali, me confundia e perdia em desejos demasiados, despendia tempo ambicionando tudo e paradoxalmente fazendo nada. Ah, impressionante é a prodigalidade dos muito jovens! Como dizia Mário Quintana:

"A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…"

Depois, ingressei naquela fase de elaboração de listas de exclusões: isso não quero, aquilo não desejo. Agora que – por eliminação ou não – sei o que almejo, surpreendo-me com a revelação de que faltam apenas 20 anos, talvez menos, para eu me aposentar. E já sei pela minha própria experiência de esbanjamento, que a gente dorme com 20 e acorda com 40, que a vida passa num piscar de olhos e sextas-feiras. Calma, calma! – repito, respirando fundo – menos pânico!

Pois de que afinal eu falarei em tal mensagem? Agirei de modo egocêntrico e falarei só de mim? Não deveria discorrer sobre sonhos, expectativas, planos em relação a nossa cidade, que na data da abertura da cápsula, 24 de outubro de 2033, tornar-se-á uma centenária? Não deveria escrever sobre o mundo que, espero, seja  então mais fraterno, pacífico e justo? Mas, ora, é muito fácil a gente endereçar uma mensagem aos outros, listando o que deseja que eles sejam. Como diz um texto que circula pela internet: todos estão preocupados em fazer um mundo melhor, mas estarão igualmente preocupados em se fazer melhores para o mundo? Além do mais, quem veio do século passado e alimentou expectativas de que grandes transformações ocorreriam de um século para outro, supondo que nos anos 2000 já estaríamos circulando por aí em carros espaciais como os Jetsons, vendo-as se frustrarem, não há de crer em milagres realizados em apenas duas décadas.

Portanto, a mensagem que colocarei na cápsula não trará senão perguntas dirigidas a mim mesma. "O que você aprendeu, o que mudou e melhorou em você nesse tempo? E se houve aprendizados, mudanças e melhorias, eles de algum modo contribuíram para tornar essa cidade ou talvez o mundo um lugar mais fraterno, pacífico e justo? As inquietações que te fizeram perder noites de sono fazem hoje sentido? E os desejos em cuja satisfação você tanto se empenhou revelaram-se verdadeiramente satisfatórios ou eram apenas os caprichos de uma criança ou de um jovem pródigos? Você amadureceu ou simplesmente apodreceu como fruto?"
 
E quanto a você, você aí mesmo, leitor, que mensagem deixará ou deixaria para a cápsula do tempo?

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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