“A partir de certo ponto, as informações já não informam —
deformam. Podem até obscurecer o mundo.”
Byung-Chul Han
Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação?
Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. O país que emergiu das urnas não é o país do consenso, mas o país do veto recíproco: uma nação em que a vitória eleitoral de 51% contra 49% não traduz uma escolha majoritária, mas a fotografia de uma fratria partida ao meio, onde o adversário não é o outro com o pensamento divergente, mas o inimigo a ser neutralizado.
A análise que se impõe aqui não é conjuntural, mas estrutural. A polarização brasileira não é um acidente de percurso democrático; é o produto de uma arquitetura institucional que há décadas premia a litigiosidade em detrimento da negociação, e de uma cultura política que confunde convicção com intolerância. Nesse cenário, a figura do estadista — aquele capaz de catalisar a pacificação sem se curvar ao pensamento único — tornou-se uma ausência sentida, mas não suprida. O que se viu, e se vê, é a proliferação de profetas evidentes: analistas que, até dotados de lucidez diagnóstica inegável, antecipam com precisão cirúrgica o desastre, mas se mostram incapazes de construir a ponte que atravessaria o abismo que denunciam.
A profundidade geopolítica desse fenômeno é reveladora. O Brasil ocupa uma posição singular no tabuleiro global: potência média com ambições de autonomia estratégica, mas cuja estabilidade interna é constantemente minada por uma inserção subalterna nas cadeias de valor globais e por uma dependência de commodities que fragiliza qualquer projeto de soberania tecnológica e industrial. A disputa política doméstica, portanto, não se trava apenas entre esquerda e direita; trava-se entre dois modelos de inserção ideológica internacional: um que privilegia a integração soberana ao Sul Global e outro que aposta na aliança irrestrita com o Ocidente desenvolvido. A beligerância interna é, em larga medida, o reflexo dessa encruzilhada não resolvida.
O diagnóstico é robusto: a literatura sobre polarização afetiva demonstra que o ódio partidário corrói a confiança interpessoal e a disposição para o compromisso democrático. No Brasil, esse fenômeno encontrou solo fértil em um sistema partidário fragmentado, um Congresso capturado por interesses corrompidos e corruptores, subservientes, fisiológicos e particularistas, e um Judiciário que, ao ser convocado a arbitrar disputas políticas, viu sua própria legitimidade ser corroída por dentro e questionada. A consequência é um Executivo que governa por decretos e medidas provisórias, um Legislativo que legisla por emendas (secretas) orçamentárias de execução obrigatória, e uma sociedade que assiste, anestesiada, ao nefasto espetáculo de uma governança que se faz apesar da política, e não por meio dela.
Ora, a questão é ainda mais grave. A ausência de estadistas não é um vácuo de competência técnica, mas um déficit de phronesis — a sabedoria prática aristotélica que distingue o governante do técnico, o líder do administrador. O estadista é aquele que, mais do que reconhecer a derrota, reconhece os limites da própria vitória e governa para além da própria base; não temos nem um nem outro.
O vidente no oráculo de plantão, por contraste, é aquele que, ao denunciar a corrupção do mundo, exime-se da responsabilidade de habitá-lo. A análise certeira, quando desacompanhada da capacidade de articulação política, converte-se em profecia autorrealizável: o diagnóstico da ingovernabilidade produz a ingovernabilidade que denuncia.
O sonhado consenso (imprescindível), portanto, não é inviável por falta de ideias, mas por excesso de certezas. A pacificação nacional não surgirá de um novo “messias”, mas da reconstrução paciente de homens e instituições que incentivem a negociação em vez da liturgia ideológica.
Com efeito, enquanto a política brasileira for um campo de batalha entre oráculos que competem pela primazia da divisão e da previsão do caos, e não um espaço de artesãos que disputam a construção do possível, a beligerância permanecerá como nosso estado natural. A nação que aprendeu a prever o desastre com precisão matemática precisa, agora, aprender a arte mais difícil: a de evitá-lo.
*Edemundo Dias de Oliveira Filho: Advogado. Especialista e Mestre em Políticas Públicas, Segurança Pública e Direito Público.
