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Malhados, cuspidos e apedrejados

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08.10.2013 - 11:37:32
Goiânia – Não há que se estranhar se pessoas publicarem nas redes sociais, se que é que já não o fazem, fotos de seus próprios excrementos ou dos dejetos alheios. Já tem ocorrido mais ou menos isso: publicam-se imagens de horror e mau gosto extremo, escreve-se tudo o que acorre à boca; expõem-se percepções, pensamentos, julgamentos que não têm dignidade ou merecimento para serem ditos, menos ainda escritos.  Mas quem sou eu para apregoar o que se deve compartilhar, falar ou escrever? Nunca estivemos tão livres e isso é bom.
 
Com a tecnologia, a comunicação se tornou mais dinâmica, democrática e acessível. Haverá limites? Cada um estabelece suas próprias porteiras, eloquências, verborragias, pudores, bom senso, silêncios, com base no seu discernimento, na educação, no sentido mais amplo de formação humanística, que tem ou não. Há, claro, a lei que põe freios nos direitos e liberdades individuais, precisamente naquele que ponto o exercício deles esbarra nos direitos e liberdades do outro. Mas até mesmo a lei parece vaga nesse novo universo sem regras aparentes em que se navega, de ainda pouco divulgadas e conhecidas jurisprudências.
 
O episódio recente da goiana que teve imagens íntimas divulgadas pelo ex-namorado faz mais uma vez refletir sobre esse imenso oceano da comunicação nas suas múltiplas plataformas, nesses mares em que navegamos ainda perdidos, sem bússolas, ao sabor dos ventos, agarrando-nos ora a uma promessa de ilhas paradisíacas, ora a cantos de sereia, às vezes assustados por quimeras, outras vezes mareados com tanta beleza e merda que flutuam misturadamente. Temos, porém, que eleger algum roteiro, mapa ou guia, ou será que admitimos ser simplesmente arrastados pela irracionalidade das correntes?
 
A moça que protagonizou essa triste história de superexposição e humilhação não foi apenas a primeira, nem será a última. Possivelmente sua história vai parar nos tribunais, é possível que resulte em indenização. A mim, o que me impressionou foi, de um lado, a atitude dos que se colocaram na condição de juízes, de autoridades inquisitoriais, condenando moralmente, culpando a vítima por inconsequência, atirando pedra na Geni, tão boa de cuspir; por outro, o comportamento daqueles que, displicentes com a responsabilidade que têm, como figuras públicas, célebres, formadores de opinião, se divertiram e escracharam da dor alheia, transformando em piada, em gesto sarcástico, um elemento dessa história grotesca.
 
É fato que a internet, terra ou águas de ninguém, é o campo livre para a maledicência, para a disseminação dos preconceitos, para o extravasamento das emoções raivosas, para o escracho, o deboche, para o apedrejamento e a malhação. E nessa sociedade de vigilância, em que as câmeras digitais, os celulares, os tablets se constituem em milhões de olhos e ouvidos que nos espreitam, em que nós mesmos, assumidamente narcisistas e exibicionistas, nos expomos, qualquer um de nós, qualquer um, indiscriminadamente, está sujeito a se tornar de repente a Madalena apedrejada, o Judas malhado.

Qualquer deslize nosso, qualquer imprudência ou inconsequência, ato praticado na esperança de ser privado podem repentinamente ser publicizados, tornando-se objeto de zombaria, de julgamento. Podemos a qualquer momento ser julgados e condenados por milhares de desconhecidos, investidos de uma arbitraria autoridade.
 

Será isso o que queremos? Seremos coniventes com isso, até que chegue a nossa vez de receber um cuspe, uma pedrada no meio da testa, de sermos escarnecidos e aviltados em praça pública? O que pretendemos fazer dessa imensa liberdade de que desfrutamos? Quem está no mar é para navegar, mas não estará nas nossas mãos tornar essas águas menos sujas, ricas e diversas sim, de experiências e opiniões variadas,  turbulentas, mas ainda assim bonitas e transparentes?

Podemos começar por usufruir também do nosso direito de ficar em silêncio algumas vezes, de não gritar ao mundo todas as bobagens que tantas vezes nos acodem aos dedos e à boca, de não zombar e não julgar precipitadamente, de não compartilhar a humilhação e a violência, de não "viralizá-las". Comecemos assim, afinal, ninguém está a salvo da tempestade midiática. Num mar de merda, cada um se afoga ao seu tempo, mas, ao fim e ao cabo, afogam-se todos igualmente. 

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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