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Como o dia e a noite

06.10.2013 - 13:07:14
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                                                                                                                                                              (Foto: Francesco Zizola)

 
Zurique – Rio de Janeiro e São Paulo são mais do que duas grandes cidades, são mais do que duas metrópoles mundiais ou megalópoles, são dois universos, duas diferentes filosofias de vida. Tão diferentes, quanto complementares. Espelham da melhor forma as contradições centrais do Brasil, futuro e passado, abertura e tradição, litoral e interior.
 
Stephan Zweig já sabia disso há 70 anos atrás. Para ele, o Rio de Janeiro era a cidade que olhava pro mar em direção à Europa. São Paulo, a cidade que buscava o interior, com seus Bandeirantes tentando povoar a terra e roubar o ouro aos índios. Rio sonhava com o além mar, São Paulo buscava os tesouros. E assim permaneceu até hoje.
 
Blaise Cendrars dizia. « Eu adoro essa cidade / São Paulo é de acordo com meu coração / Aqui nenhuma tradição / Qualquer preconceito / Nem antigo nem moderno. » Para ele, o Brasil sempre seria « a terra prometida, o paraíso… »,  sempre a sua « Utopialand ». Junto com o escritor Paulo Prado, seu amigo, e outros artistas e poetas da « Semana de Arte Moderna », entre eles Mário de Andrade,  autor de « Paulicéia Desvairada, tentou em 1924 participar da criação de uma terra nova e visionária.
 
Já Claude Lévi-Straus preferiu usar São paulo como porta para o interior do país, onde a partir de 1935 organizou várias expedições em busca dos índios, construindo assim as bases de seu estruturalismo. São Paulo vivia na época uma revolução urbana, grandes avenidas eram abertas, quarteirões inteiros derrubados, altos arranhas-Céus espetavam-se no céu. Por outro lado, o citizen Orson Welles, preferiu festa ao invés de caos urbano, tentando em 1942 apreender o Rio de Janeiro através de um filme, no qual carnaval, samba e jangadeiros assumiam  o papel principal.

Isso não se tornou muito diferente. O Rio continua sentado na praia e São Paulo no trânsito. Caetano Veloso, o querido de todos da música popular brasileira, compôs uma canção para sua Sampa :

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João (…)
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
 
                                                                                                     (Foto: Carlos Cazalis)
 
São Paulo é matéria, Rio é espírito, São Paulo é arquitetura, Rio é natureza, São Paulo é morro, Rio é praia, São Paulo é economia, Rio é política, São Paulo é competência, Rio é beleza, São Paulo é técnica, Rio é talento. E assim elas brigam, disputam por toda a vida, como dois irmãos, como Rômulo e Remo, cada uma tentando exibir seu melhor ângulo, sempre maior e mais forte do que a outra. Para os paulistas, os cariocas são preguiçosos e  malandros, para os cariocas os paulistas são caxias e chatos. Dizem que na segunda-feira os paulistas contam o tanto que trabalharam no fim de semana e os cariocas contam o tanto que se divertiram. A primeira pergunta em São Paulo é, qual é sua profissão? E no Rio, qual é seu time de futebol?
 
Para os cariocas futebol é assunto muito sério, pode construir ou destruir amizades, é questão de vida ou morte,  separa o bem do mal, mesmo que seja apenas pelo curto período de dois dias, sábado e domingo. Em São Paulo o futebol é uma ocupação importante, uma distração apreciada por todos, que acende discussões em mesas de bar, mas não mais do que as cotações da Bolsa de Valores. Quando se fala em grandes eventos esportivos, a Maratona de São Silvestre ainda faz secretamente os corações baterem mais forte.
 
As relações pessoais em São Paulo desenvolvem-se durante um longo período de tempo, são regadas e cuidadas antes de transformarem-se em uma boa amizade. No Rio, tem-se  a impressão, já no primeiro encontro, de sentar-se lado a lado, desde os tempos de jardim de infância, independente de credo, raça, formação ou classe social. As amizades acontecem  na rua e são aprofundadas em mesas de butequim, regadas a bebidas e tira-gostos. A vida improvisa-se ao ritmo da música. O final da noite pode ser na quadra de uma escola de samba e todos tornam-se definitivamente irmãos, no mais tardar, quando o jogo de classificação do time do coração passar na tv. Essa amizade pode durar uma vida inteira ou apenas uma noite. 
 
Em São paulo as amizades são seladas em restaurantes chiques e eventos culturais. Os convites para jantar seguem regras claras e acontecem de forma planejada, raramente há espaço na agenda para a improvisação. Depois de alguns meses ou anos de convivência social, uma sólida amizade pode se estabelecer. Mas ela terá então uma longa duração.
 
Rio é criatividade, São Paulo é elegância, Rio é bossa nova, São paulo é rock n’roll, Rio é carnaval, São Paulo é feira de arte, Rio é samba, São Paulo é graffiti, Rio é funk, São Paulo é punk. As duas cidades não poderiam ser mais desiguais e por isso mesmo, fascinantes. Ficam a apenas 400 quilômetros de distância e menos de uma hora de vôo pela Ponte Aérea. Decola-se do pequeno Aeoporto Santos Dumond no mar da Baía de Guanabara, aterrisa-se em um enorme mar de casas e prédios. O contraste não poderia ser maior, complementar e sedutor.
 
São Paulo é urbanismo, Rio é botânica, São Paulo é eficiência, Rio é vaidade, São Paulo é virgem, Rio é peixes, São Paulo é adulto, Rio é adolescente, São Paulo é jesuíta, Rio é secular, São Paulo é Catedral da Sé, Rio é candomblé, São Paulo é neblina, Rio é sol, São Paulo é concretismo, Rio é impressionismo, São Paulo é compromisso, Rio é leveza, São Paulo é garoa, Rio é tempestade, São Paulo é noite, Rio é dia.
 
 
*Esse texto foi publicado originalmente em alemão no caderno cultural do principal jornal da Suíça Neue Zürcher Zeitung – NZZ, como parte de um dossiê sobre arte e cultura brasileira em referência à participação do Brasil como país homenageado na Feira de Livros de Frankfurt. 
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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