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O cão que come flores

04.10.2013 - 17:11:49
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O cãozinho come flores. Ele come. Como mastiga qualquer coisa qualquer cão pequeno. Filhotes precisam experimentar o gosto do mundo, para aprender a afastar-se de seus venenos.

Ao vê-lo ali no canteiro da larga avenida de Curitiba, por mais poética que fosse a cena, Aline teve pena. Supôs que tivesse fome. Ela sempre se penaliza dos bichos em abandono.

Ela e o namorido Paulo, em gestos de sensibilidade e insensatez – o mar para eles não andava para peixes, talvez para cachorros-quentes e espetinhos de gato –, viviam recolhendo bichos feridos e por aí largados.

 
Em uma manhã chuvosa em Goiânia, Paulo assistiu ao atropelamento de um cão de rua. O motorista se foi e o animal ficou ali, agonizando. Ele o recolheu a uma clínica veterinária, onde pagou para que fosse sacrificado, já que não havia mais chances de recuperação, só agonia.
 
Mas a dupla incansável de protetores de animais, se não estava nadando em dinheiros, flutuava em pelos. Perdi a conta de quantos gatos eles adotaram e tentaram adotar, no pequeno apartamento térreo onde viviam, ainda aqui em Goiânia.

Havia muitos gatos abandonados por ali, no espaço comum do condomínio. Pois eles lhes davam comida, compravam remédio. Acolhiam as gatas grávidas para que parissem na área de serviço, mas deixavam a janela aberta para não tolher a liberdade felina. 
 

Quanto não foi o que gastaram tentando salvá-los da vida e da morte aventurosa de gatos vadios. Paulo e Aline levantando-se de madrugada para ir ao veterinário, tentando salvar Monalisa, a gata enigmática que em seus mistérios se foi. O trabalho que tiveram para achar dono para cada um dos filhotes dos quais cuidavam, antes da mudança para Curitiba. 
 
E na nova cidade, na nova vida, Aline quer interromper o passeio para levar o cão que come flores consigo. Liga para Paulo, denunciando o abandono, e ele, de imediato, quer sair do trabalho para empreender mais uma operação de salvamento. Meus super-heróis dos bichanos, dos cães sem dono! Meus superamigos!
 
Aquele cão tinha, porém, um dono suposto e suspeito. E para fazer espetáculo, no meio da avenida, aparece um senhor curioso e ruidoso, desses que há nas ruas de qualquer cidade, que se junta em toda roda onde há algo para ser espiado ou discutido. Começa a dar seus palpites.

O suposto dono é um morador de rua, aparentemente bêbado. Diz que o cãozinho que mastiga pétalas roxas é do amigo. O curioso senhor discursa que eles não têm condições de cuidar do bicho.
 

Assim a confusão vai se armando, os moradores de rua ao redor se juntando, em tenso conselho. Os ânimos se acirram. Para piorar, o cão corresponde aos carinhos de Aline, pressentindo decerto o amor legítimo, mas ignora solenemente os chamados do suspeito dono.

Aline chega a ligar para a sociedade protetora dos animais, sempre ao telefone com Paulo – ele acompanhando-a no drama de tentar salvar os animais das garras humanas. A sociedade diz nada poder fazer, no entanto.
 

Aline tampouco poderia propor algo, como a compra do animal. Acabaram de se mudar para Curitiba e moram ainda num flat. Diante da tensão do clima, sugiro que a gente siga em frente.

Não podemos confiscar simplesmente bichos aos seus donos, como não podemos tomar aos pais negligentes os seus filhos, ainda que os tratem sem carinho. Aline aceita seguir, em prantos. Mas leva flores consigo. Flores que nem o Cão nem o tempo comem: flores de São Francisco.

 
*Texto publicado originalmente em 2007 e relembrado hoje, que é dia de São Francisco de Assis, o protetor dos animais.
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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