Goiânia – Contaram-me certa vez uma história interessante. O funcionário de uma grande empresa de um país europeu havia estacionado o carro em um dos locais mais distantes da entrada da fábrica. Perguntaram a ele por que ele tinha parado tão longe se havia vagas mais próximas. Ele respondeu: "é que chego mais cedo, tenho tempo para caminhar e por isso deixo as vagas próximas para os que chegam mais tarde ou atrasados".
Sempre tenho me lembrado dessa história quando vou levar ou apanhar meu filho na escola, porque ela mostra o que é pensar no outro, o que é não se preocupar apenas com a própria comodidade. O que vejo, porém, ali e diante de outras escolas da cidade é completamente diferente. Pais e mães que param em fila dupla para que seus filhos desçam, colocando em risco sua segurança, que estacionam na contramão, sobre as calçadas. Todos os anos, no início do período letivo ou após o recesso de julho, agentes de trânsito fazem campanhas e vão para a porta das escolas orientar os pais, mas nada muda esse comportamento arraigado. Quando os agentes se ausentam, tudo volta a ser como antes.
Os pais que agem assim não pensam nos outros pais que estão igualmente apressados e atarefados, não se lembram dos transtornos que criam, portanto, para os outros motoristas e para os pedestres que transitam pelas calçadas.
As escolas vêm desenvolvendo ações de educação para o trânsito com os alunos – nesta semana mesmo o tema está sendo abordado na escola de meu filho. Talvez essas ações educativas surtam algum efeito para a sua geração e para as próximas. Talvez nossas crianças sejam, no futuro, motoristas melhores, mais educados e pacíficos. Isso não ocorrerá, contudo, por causa do exemplo de muitos pais.
Acredito que não há nessas atitudes necessariamente má-fé ou vontade de prejudicar os outros, elas parecem antes um agir natural, inerente à nossa cultura individualista: "minha pressa é maior que a sua, meus motivos são mais justos que os seus". Creio também que muitos não perceberam ainda que com o crescimento das cidades, certas comodidades antes possíveis, como estacionar bem na porta do local aonde se vai já não podem ser mantidas. Pois precisamos nos adaptar às mudanças na vida das grandes cidades, que devem beneficiar as soluções coletivas.
Vi, por exemplo, muitas queixas a respeito das alterações na avenida T-63, da implantação do corredor preferencial para ônibus. Eu que passo diariamente por ali percebi que o trânsito melhorou significativamente e não deixei de frequentar o comércio local. É verdade que se gasta mais tempo, procurando vagas nas ruas perpendiculares, mas o problema da falta de vagas não é só de Goiânia, e sim de todo o país, onde temos a prevalência do automóvel sobre as formas coletivas de transporte.