Quem caminha por Goiânia em uma manhã comum talvez não perceba quantas decisões ajudam a cidade a funcionar. Uma obra precisa respeitar limites. Um estabelecimento deve cumprir regras. O uso do espaço público exige critérios. Há normas que protegem o convívio, organizam a ocupação urbana e estabelecem até onde pode ir o interesse particular quando ele encontra o interesse de todos.
Por trás de boa parte dessa engrenagem está um trabalho quase invisível. O auditor fiscal municipal raramente aparece quando tudo está em ordem. Sua presença se torna mais evidente justamente quando alguma regra é descumprida, quando surge um conflito ou quando é necessário impedir que o direito de um avance sobre o de muitos. Talvez por isso seja uma profissão muitas vezes lembrada mais pela intervenção do que pelo resultado silencioso que produz todos os dias.
Fiscalizar não é apenas apontar irregularidades. É interpretar normas, tomar decisões técnicas, mediar situações complexas e agir em nome do poder público, inclusive quando a medida adotada contraria interesses imediatos. Essa responsabilidade exige preparo, independência e segurança para que o servidor possa cumprir seu dever sem pressões indevidas.
Há uma contradição nesse ofício. Quanto melhor funciona a fiscalização, menos ela chama atenção. Uma cidade ordenada não traz uma placa explicando quem ajudou a mantê-la assim. O cidadão percebe a calçada livre, a construção regular, o comércio funcionando dentro das regras e o espaço urbano preservado. Dificilmente pensa no trabalho realizado antes para que aquele cenário fosse possível.
É justamente essa discrição que não pode se transformar em invisibilidade institucional. Valorizar o auditor fiscal significa reconhecer que o ordenamento urbano depende não apenas de boas leis, mas de profissionais capazes de garantir seu cumprimento com equilíbrio e responsabilidade. Também significa assegurar condições adequadas de trabalho, respeito às atribuições da carreira e proteção à autonomia técnica.
Nesse ponto, a organização coletiva tem papel decisivo. Ao representar a categoria, acompanhar suas demandas e defender direitos e prerrogativas, o Sindiffisc contribui para que o debate sobre fiscalização não se restrinja aos momentos de conflito. Defender esses profissionais é, em última análise, fortalecer a própria capacidade do município de cuidar do que pertence a todos.
O Dia do Auditor Fiscal, celebrado em 21 de setembro, oferece a oportunidade de olhar para esse trabalho com mais atenção. Não apenas para homenagear quem o exerce, mas para compreender seu significado. Cidades não se organizam por acaso. Entre a norma escrita e a vida real há servidores que estudam, orientam, decidem e, quando necessário, dizem não.
*Horácio Mello é presidente do Sindiffisc – Sindicato dos Funcionários da Fiscalização Municipal de Goiânia
