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Guerra e paz

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03.09.2013 - 21:26:05

Zurique – Mais uma vez os canhões se preparam, mais uma vez o mundo prende a respiração e conta até três. De um lado, os justiceiros; do outro, os impiedosos. De um lado, o desejo de dominar; do outro, o de defender. De um lado, foguetes; do outro, bombas. De um lado, feridos; do outro, rebeldes. De um lado, crianças; do outro, políticos. De um lado, interesses; do outro, dores. De um lado, vidas; do outro, tanques. De um lado, muros; do outro, mares.
 
Infinitamente distantes, infinitamente próximas, duas nações se preparam para matar e morrer. E o mundo olha em silêncio, buscando respostas ou apenas ganhos, discutindo de qual lado ficar, qual direito defender, o de matar ou o de morrer? Por que as vidas humanas ainda hoje são uma moeda de troca? Negociam-se contratos, dividem-se riquezas através da contabilidade de feridos e mortos. Mas quanto vale um morto ? Quanto valem cinco mil mortos ? Quanto valem centenas de milhares de mortos? Quanto valem milhões de vidas que se apagam no clarão de cálculos de juros, dividendos, derivados e subprimes?
 
O que há de novo em uma guerra, além de suas mentiras e cores locais? De que forma Napoleão ou Bush ou a elite alemã e seus Guilhermes, Fredericos e Maximilianos teriam mudado a ordem do mundo? Quem teria preparado a Segunda Guerra, Hitler ou von Hinderburg? Existem vários responsáveis por um conflito ou apenas um, aquele que levanta a bandeira em combate, antes de cair de seu cavalo, com a cara na lama de um fétido campo de batalha? Os horrores da guerra sempre foram trocados por hinos e uniformes reluzentes, medalhas e honrarias, mas o horror dos cadáveres e do sangue tingindo a terra ou o asfalto sempre foi o mesmo, hoje e ontem.
 
E por detrás de todos os hinos e do sangue que escorre sem rumo, tilitam os caixas dos bancos em paraísos fiscais e fábricas de armamentos, armadas até os dentes de cinismo e desprezo humano. Conflitos são atividades altamente lucrativas, antes, durante e depois. É preciso vender objetos de guerra, aumentar a tensão de cada lado em um consumo eufórico de bombas, foguetes e aviões de combate, até que cada um se mostre assustador o suficiente para possibilitar um conflito digno. Durante o conflito, além  dos vendedores de armas, lucram os especuladores, os contrabandistas, as milícias, os políticos sem caráter, os mercenários, os jornais, as televisões, as bolsas de valores, os bancos, as ONGs, os bem intecionados e os mal intencionados.
 
 Raramente perde-se dinheiro em uma guerra, como se perdem vidas. E depois vem a época da reconstrução. Quando as bombas se calam, chegam os abutres. Oferecem fundos e mundos, constroem casas, fábricas, novas estradas, hospitais, a juros sempre altos, vendem água, remédios e alimentos a preço de champagne e do mais fino caviar. A inflação arrasta quarteirões e quando a poeira baixa, novos outdoors tomaram lugar dos antigos, novos produtos e marcas nos supermercados, um novo mercado se abriu para o maravilhoso mundo do consumo sem fronteiras. Somos todos globais.
 
E para que tudo isso? Para garantir mercados, petróleo, gás, combustível, minérios? Nunca existiu nenhuma guerra que não tivesse por motivo razões econômicas. E carros de luxo, viagens, jóias, mansões deveriam compensar todo esse incômodo banal de crianças mortas, velhos sem casa, pernas amputadas, fome sem fim, efeitos colaterais inevitáveis da eterna busca pelo ouro, o pote de ouro escondido no final de um arco-íris qualquer, pintado no cartaz de um anúncio de sabão em pó.
 
Um amigo sempre diz que a humanidade é inviável. Eu diria o contrário, tudo que tem vida é viável, por princípio. Basta sabermos disso.
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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