“Nem todo homem é obrigado a envolver-se nos assuntos do mundo. Há alguns cujo desenvolvimento interior lhes permite deixar que o mundo siga seu rumo, sem se envolverem em reformas na vida pública. Mas isso não implica no direito a uma atitude passiva ou meramente crítica. Tal recolhimento é justificado apenas quando o homem se dedica a realizar em si mesmo os ideais mais elevados da humanidade. Pois, ainda que distante, o sábio cria para o futuro valores humanos incomparáveis”*. (Nota de rodapé*: A atitude de Goethe, após as guerras napoleônicas, em 1815, é um exemplo disto na história europeia).
“O Livro das Mutações – I Ching”, descreve no Hexagrama 18, “O trabalho sobre o que deteriorou”, um comportamento do homem superior para justificar um ‘ostracismo’ voluntário sobre “os assuntos do mundo” usando como exemplo um período específico da vida do célebre escritor Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).
Personalidade estimada pelo estadista Napoleão Bonaparte (1769-1821), que chegou a apontá-lo em público como “voilà um homme”, ficou reconhecido mundialmente por sua obra, “Fausto” (1808-1832). De acordo com o texto do “I Ching”, que se refere ao trabalho de Goethe como um modelo de “valores humanos”, reforça em sua narrativa a transformação de suas angústias, seu luto e desejos carnais em poema trágico, abordando dilemas existenciais profundos e presenteando a humanidade com sua criação e legado literário.
“Realizar em si os ideais mais elevados da humanidade” é ofício para poucos, pois, ao experimentar o amargo, o sábio cria o doce sabor do conhecimento.
Da travessia árdua, tortuosa e transgressora, o escritor opta, enfim, a se desviar da vida pública para trabalhar em prol de outros ideais públicos, talvez até mais conscientes e atemporais.
“O talento molda-se na solidão; o caracter, no tumulto do mundo” (Goethe)
