Ler Machado de Assis é sempre se chocar com sua clarividência e vanguardismo. Harold Bloom fala que Shakespeare “inventou o humano”, no sentido de que, há 400 anos, criou, em seu teatro e literatura, uma ideia nova e uma forma de nos pensarmos que é aquilo que hoje entendemos como “humano” antes que ela existisse de fato. Machado de Assis fez o mesmo, de certa forma, com o Brasil.
Como explica o crítico literário Roberto Schwarz, Machado incorporou à sua forma de narrar a disjunção entre ideias liberais importadas da Europa e a realidade escravocrata e profundamente desigual da sociedade de que elas tentavam dar conta. Ao fazê-lo, talvez tenha inaugurado um tipo de autoironia que é hoje muito definidor da forma pela qual nós brasileiros nos explicamos. É nosso maior gênio.
Mas Machado não foi um profeta ou visionário. Sua genialidade deriva de uma posição “à margem” em várias camadas. Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, “mulato” em uma sociedade racista e onde a identificação racial ainda hoje determina as possibilidades individuais, foi alguém que conseguiu ser aceito por uma classe que não era sua de origem. Por isso mesmo, conseguia olhá-la, ao mesmo tempo, por fora e por dentro. Essa mesma posição permitiu-lhe a manobra apontada por Schwarz. Compreendia as ideias liberais, mas, não sendo europeu nem originário da elite brasileira, saltava-lhe aos olhos a disjunção entre essas ideias e a realidade de nosso país. Machado, portanto, não viu à frente ou antecipou ideias que mais tarde se tornariam óbvias. Ele enxergou diferente porque, de sua posição, a fricção, a hipocrisia e os contrastes saltavam aos olhos. Machado tinha a “vantagem epistêmica” do periférico, ou antes, daquele que ocupa uma posição limítrofe.
Essa semana, relendo O Alienista, um de seus contos mais famosos, fiquei estupefato com a maneira pela qual sua sensibilidade também o permite enxergar, ainda no século XIX, o problema e as consequências absurdas da ideia da ciência como reflexo da verdade, como um saber com autoridade para revelar as leis do mundo — um tipo de crítica que só ganharia peso muito mais tarde no século XX, ao preço de duas bombas atômicas.
No conto, como se sabe, Simão Bacamarte é um respeitado médico e cientista na pequena Itaguaí. Ele cria um asilo e passa a encarcerar, com reconhecimento e apoio das autoridades públicas, todos aqueles a quem considera loucos. À medida em que seus estudos avançam, os critérios vão se tornando cada vez mais abrangentes, a ponto de internar grande parte dos moradores de Itaguaí. Quando a situação provoca uma revolta popular, ele muda seus critérios, solta os loucos e passa a internar os anteriormente sãos. Por fim, decide internar-se a si próprio como único equilibrado em uma sociedade de desequilibrados.
Três aspectos do conto são especialmente atuais e nos ajudam a pensar o lugar da ciência e sua responsabilidade e fragilidade no mundo de hoje.
Em primeiro lugar, a arrogância de um conhecimento que se julga superior. Bacamarte é uma sátira da ciência positivista que, ao tentar ordenar o mundo em categorias rígidas, só produz violência e caos.
Segundo, antecipando-se a Michel Foucault, Machado de Assis denuncia exatamente a relação inescapável entre conhecimento e poder. Quem define categorias e separa o certo do errado detém enorme poder na sociedade, sobretudo se se protege por trás da ideia de um conhecimento neutro e desinteressado, que não se confunde com as questões do poder. Avançando sobre as estruturas rígidas sugeridas por Foucault, hoje, os Estudos de Ciência e Tecnologia mostram como, na verdade, produzir conhecimento e ordenar o mundo social são processos que emergem juntos — não são separáveis como gostaríamos.
Como explica a socióloga da ciência Sheila Jasanoff, “as maneiras pelas quais conhecemos e representamos o mundo (tanto a natureza como a sociedade), são inseparáveis das maneiras pelas quais decidimos viver nele. E nós ganhamos poder explicativo ao pensar as ordens natural e social como produzidas juntas.”
Por fim, em O Alienista há um lúcido relativismo moral, que resulta de uma mirada para os bastidores da ordem social e daquilo a que poderíamos chamar de “razão pública”, isto é, os mecanismos pelos quais uma sociedade decide entre o bom e o ruim, entre o certo e o errado. Ao mostrar a aleatoriedade do método de Simão Bacamarte para delimitar normalidade e loucura, Machado aponta para o quanto as classificações têm de arbitrárias e de construção coletiva.
Um dos desafios de nosso tempo é exatamente o de reconhecer essa inseparabilidade entre ciência e política e entendermos que isso não representa uma ameaça. Ao contrário, remover a aura de neutralidade da ciência não significa nívelá-la ao senso comum e perdermos a capacidade para reconhecer a verdade. Ela continua poderosa por sua inigualável capacidade para mobilizar e construir redes extensas que ampliam nosso conhecimento e permitem reorganizar o social de formas potencialmente melhores. Sem esse manto da neutralidade, entretanto, ela precisa assumir a responsabilidade por aquilo que produz, e devolve à política e ao debate democrático um espaço que sua suposta autoridade permitira silenciar.
Machado de Assis foi também sociólogo da ciência muito antes dessa disciplina ser inventada.
