Não é novidade para ninguém que, atualmente, o que tem rolado de interessante no mundo dos videogames tem vindo quase que exclusivamente de estúdios minúsculos e independentes. Esse também é o caso de Mouse: PI for Hire, um novo boomer shooter feito pela Fumi Games e disponível para praticamente todas as plataformas imagináveis.
Igual a quase todo jogo independente, a premissa é simples: diversão. E o jogo alcança isso e muito mais. A trama e cenário também são interessantes: em um mundo de desenho animado em preto e branco e tomado por clima noir digno de O Falcão Maltês, as pessoas são ratos antropomorfizados no estilo Mickey Mouse e seus amigos. O jogador está na pele do detetive particular Jack Pepper, que precisa desvendar o desaparecimento do mágico Steve Bandel.
O enredo então vai passar por alguns tropos do cinema noir clássico, incluindo a femme fatale, ao mesmo tempo em que também fala de política e também bota um pé no weird com uma subtrama envolvendo um culto esquisito ao redor de uma dimensão estranha chamada de O Desconhecido. É coisa de primeira, saída diretamente de um romance amassado de papel jornal comprado na banca.
O principal atrativo do game é sua estética baseada nas primeiras gerações dos cartuns americanos dos anos 1930, em particular da Disney. E foi trabalhoso fazer isso: para reproduzir esse visual, o estúdio fez mais de 54 mil frames individuais de animação e foram importados para o jogo, trazendo mais uma camada de autenticidade para o título. Esses desenhos se misturam a cenários 3D e a uma envolvente trilha sonora original de jazz, além de várias referências e easter eggs bacanas sobre o meio dos games, da literatura e do cinema.
E vale lembrar que é um jogo de tiro: ele consegue ser frenético como DOOM em alguns momentos, no modelo clássico de um personagem que carrega as mais variadas armas desde uma confiável pistola até um cérebro animado que explode as mentes alheias (sério) e uma arma de ácido que dá uma risadinha quando derrete os inimigos (sério também).
Tudo isso seria muito violento em um contexto realista, mas como animação clássica, é cômico e até meio nostálgico: os inimigos derretidos viram esqueletos que desmontam lentamente no chão com um efeito sonoro característico enquanto inimigos que são alvos de bananas de dinamite viram pó com olhinhos tristes. Impossível não lembrar de imagens semelhantes em episódios de Tom e Jerry, do Pernalonga ou do Coiote.
E nisso tudo ainda dá tempo de ser político. Central na trama, que é inspirada nos anos 1930, está a insidiosa presença e influência de um certo partido político nacionalista claramente baseado nos nazistas. E, assim como em Indiana Jones, eles também estão mexendo com algo sobrenatural e perigoso. Para isso, eles estão sequestrando e fazendo alguma maldade com os musaranhos: uma clara referência aos judeus vindos da Europa (no jogo, do Velho Mundo), com direito a pogroms nos bairros e outras atrocidades.
Quem disse que um jogo de tiro de camundongos não pode ser relevante para o volátil clima político de 2026? Enfim, Mouse: PI for Hire entrega um pacote completo de originalidade, boa narrativa e ação da época em que jogos de tiro eram divertidos. Um pacote cada vez mais raro em jogos gigantescos e esvaziados de conteúdo, feito com verdadeira paixão por criadores com uma visão e objetivo claro: diversão.
