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J&F injetou R$ 25,9 milhões em empresa que comprou parte de Toffoli em resort do Paraná. (Foto: Reprodução)

J&F injetou R$ 25,9 milhões em empresa que comprou parte de Toffoli em resort do Paraná

Informação foi mapeada em relatório do Coaf

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20.03.2026 - 19:19:37

Brasília – A J&F, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, injetou R$ 25,9 milhões na empresa que comprou as cotas do resort Tayayá, no Paraná, pertencentes ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025.

O pagamento da J&F à empresa PHB Holding foi feito por meio de uma única transferência bancária realizada dentro do intervalo de 5 de fevereiro a 6 de outubro de 2025. As informações foram mapeadas em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtido com exclusividade pelo Estadão. O relatório não dá a data exata em que a transferência bancária ocorreu.

Em 21 de fevereiro, a Maridt, empresa dos irmãos Toffoli, vendeu sua participação acionária no resort Tayayá para a PHB Holding, do advogado Paulo Humberto Barbosa, que tem histórico de serviços prestados à JBS, empresa do conglomerado dos Batista.

Apesar de o ministro já ter admitido a venda de suas cotas para a PHB, o valor dessa transação até hoje não se tornou público. A reportagem perguntou à J&F, à PHB e ao ministro se os R$ 25.965.197,00 serviram para a compra da parte de Toffoli no resort por intermédio da PHB.

Em nota, Toffoli afirmou que o negócio da Maridt foi firmado “exclusivamente com a PHB Holding”, sem relação com a J&F, e que as movimentações financeiras estão declaradas às autoridades. Paulo Barbosa disse que os valores que recebeu da J&F não têm qualquer relação com a Maridt e, segundo ele, dizem respeito a serviços advocatícios prestados ao grupo. A J&F declarou que o pagamento à holding de Barbosa foi referente a honorários de advogado e que o grupo não é sócio do resort (leia mais abaixo).

Toffoli já atuou em caso bilionário da J&F
Em dezembro de 2023, o ministro Dias Toffoli proferiu uma decisão liminar que suspendeu o pagamento de uma multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência firmado pela J&F com o Ministério Público Federal, no qual confessou a prática de diversas irregularidades.

A decisão do ministro abriu caminho para que a J&F conseguisse posteriormente, na Justiça Federal de Brasília, uma redução dessa multa. O Ministério Público recorreu dessa decisão.

Os alertas de ‘transações atípicas’ feitos pelo Coaf
De acordo com o relatório de inteligência financeira do Coaf, o pagamento da J&F à PHB Holding foi uma das maiores transferências bancárias feitas pelo grupo no período de oito meses analisado. Holding é um tipo de companhia que serve para administrar outras empresas ou bens.

O relatório classificou como atípica essa transação, mas o documento não explica para quem a PHB Holding transferiu os valores recebidos. Toffoli e a Maridt não são citados no relatório do Coaf.

O ministro formalizou a venda das participações da Maridt no Tayayá à PHB Holding em 21 de fevereiro, conforme nota divulgada por ele à imprensa no mês passado.

Os repasses à PHB partiram da J&F Participações, que tem como presidente José Antônio Batista Costa. Sobrinho dos irmãos Batista, ele também é presidente do Conselho de Administração do PicPay.

Os alertas feitos pelo Coaf foram feitos a partir da análise de R$ 1,3 bilhão pago pela J&F de fevereiro a outubro de 2025 a diferentes fornecedores. O motivo técnico apontado para relatar a transação com a PHB e as com outros beneficiários foi o enquadramento das características dessas operações em regras de reporte do Banco Central.

O relatório do Coaf cita duas delas: “operações que, por sua habitualidade, valor e forma, configurem artifício para burla da identificação da origem, do destino, dos responsáveis ou dos destinatários finais” e “pagamentos habituais a fornecedores ou beneficiários que não apresentem ligação com a atividade ou ramo de negócio da pessoa jurídica.”

Essa é a segunda transação financeira milionária envolvendo a participação acionária de Toffoli no resort.

O Estadão revelou, em fevereiro, que fundos de investimento controlados pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, também tinham comprado uma fatia de participação acionária da Maridt no empreendimento. As conversas do telefone celular dele, obtidas pela Polícia Federal, citam que o valor total investido por Vorcaro no Tayayá foi de R$ 35 milhões, como revelou o Estadão.

A Polícia Federal entregou em fevereiro um relatório com essas informações ao STF, que foi autuado como um pedido de suspeição de Toffoli no caso Master. Pouco depois, o ministro admitiu publicamente, pela primeira vez, que era sócio da Maridt e disse que as cotas da empresa no resort Tayayá foram vendidas ao fundo Arleen, controlado por Zettel, em 27 de setembro de 2021, e à empresa PHB Holding em 21 de fevereiro de 2025. Na nota, Toffoli não revelou os valores das negociações.

Maridt Participações S.A

A Maridt Participações S.A é é uma Sociedade Anônima e, no papel, só apareciam como donos os irmãos do ministro. A empresa registrou como endereço oficial o da residência de um deles, o engenheiro eletricista José Eugênio Dias Toffoli, uma casa de 130 metros quadrados em Marília, no interior de São Paulo.

Ao Estadão, a mulher do engenheiro, Cássia Pires Toffoli, disse que nunca soube que sua casa foi a sede da Maridt e que não tem conhecimento de qualquer ligação do marido com o resort.

“Essa casa é minha, financiei com o meu dinheiro, por 25 anos”, disse Cássia. “Eu falei para as minhas irmãs que eu tenho vontade de sumir daqui. As pessoas ficam inventando coisas, que (José Eugênio) é dono do Tayayá”, disse Cássia ao ser questionada sobre a participação do marido na Maridt e da empresa no resort de luxo.

O que dizem os citados
Em nota, o gabinete do ministro Dias Toffoli afirmou que “tem conhecimento pelos administradores da Maridt que a empresa se relacionou exclusivamente com a PHB Holding e que suas movimentações financeiras estão todas declaradas à Receita Federal do Brasil”.

Paulo Barbosa afirmou que recebeu os quase R$ 26 milhões por meio de sua holding por causa de serviços advocatícios prestados ao grupo J&F. Ele nega que o pagamento tenha relação com seu negócio com a Maridt. Barbosa minimizou a coincidência de datas com a compra de cotas do resort porque, segundo ele, a comercialização se deu em dezembro de 2024. Oficialmente, porém, a venda ocorreu em 21 de fevereiro de 2025, data também informada por Toffoli na nota que divulgou sobre sua empresa.

A J&F afirmou que não é sócia do Tayatá “nem de qualquer empresa que nele possua participação”. Em nota, o grupo afirmou que Paulo Humberto Barbosa “prestou serviços advocatícios ao grupo, especialmente em questões agrárias e tributárias, sobretudo no estado de Goiás”.

“Essa relação comercial começou a ser descontinuada no segundo semestre de 2025, quando as atividades empresariais do advogado começaram a se tornar mais relevantes do que as jurídicas. A relação entre advogado e cliente não se mistura com nenhuma outra atividade desenvolvida por ele”, disse. (Agência Estado)

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por Michelle Rabello

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