Ludymila Siqueira
Goiânia – Dias de muito sol se alternam com períodos de chuvas intensas que, em poucas horas, podem superar o esperado para um mês inteiro. Enchentes cada vez mais potentes e devastadoras levam vidas, destroem casas e apagam histórias e sonhos. Ao mesmo tempo, rios têm sua vazão reduzida, secas se prolongam, a cesta básica fica mais cara, doenças respiratórias se multiplicam e falta alimento na mesa. Parece cena de um filme ruim, mas essa é a realidade que o mundo tem enfrentado nos últimos anos e que deve se estender pelos próximos, impulsionada pelas mudanças climáticas. Em algum momento da vida, todos nós já ouvimos falar dos impactos que a ação humana poderia provocar no meio ambiente ao longo do tempo. E quem diria que, em 2026, os goianos presenciariam dias de chuva no mês de junho ou que o mundo estaria diante de um dos maiores fenômenos climáticos, conhecido como El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas superficiais no centro e no leste do Oceano Pacífico Equatorial? Diante desse cenário, torna-se ainda mais evidente a necessidade de produções sustentáveis, negócios voltados ao bem coletivo e iniciativas que reforcem uma governança estratégica e transparente.
Nesse sentido, o modelo de negócio cooperativista se torna exemplo não apenas pela força de seus valores, mas também por assegurar a confiança da população. Pautadas nos pilares ESG (Ambiental, Social e Governança), as cooperativas carregam em suas raízes o respeito pelas pessoas, pelo meio ambiente e também por uma produção estabelecida na construção coletiva de legados que se tornam referência no mercado global. É potente reforçar laços e, mais ainda, fazer a economia local, do estado e do país girar por meio de sua essência. Para se ter uma ideia, em 2025, o cooperativismo brasileiro foi responsável por movimentar R$ 848,4 bilhões em ingressos, o que representa aproximadamente 6,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2025, de acordo com o Anuário do Cooperativismo Brasileiro (AnuárioCoop 2026), divulgado pelo Sistema OCB.
O levantamento também mostra que o país chegou à marca de 29 milhões de cooperados, crescimento de 12,5% em relação ao ano anterior, o equivalente a 13,6% da população brasileira. Além da expansão do quadro social, o desempenho econômico do setor confirma sua capacidade de gerar riqueza e desenvolvimento. O patrimônio do setor alcançou R$ 1,6 trilhão em ativos, alta de 14,9%, enquanto as sobras distribuídas aos cooperados chegaram a R$ 61,3 bilhões, crescimento de 14,2%. O capital social integralizado atingiu R$ 122,7 bilhões, e o setor recolheu R$ 20,4 bilhões em tributos.
Em um recorte para o estado de Goiás, 289 cooperativas estão registradas no Sistema OCB/GO, entidade que celebra 70 anos de consolidação. Juntas, as cooperativas reúnem 710.307 cooperados, geram 18.859 empregos diretos, movimentam R$ 36,90 bilhões em ingressos e administram R$ 78,39 bilhões em ativos. Outro ponto de destaque é a participação feminina na gestão. Em 2026, 686 mulheres ocupam cargos de gestão em cooperativas goianas. São 47 presidentes, 34 vice-presidentes, 72 integrantes de diretorias e 466 mulheres em conselhos.
Em entrevista ao jornal A Redação, o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, afirma que o Comitê de Jovens Cooperativistas também tem atuado de forma importante na formação de novas lideranças, na integração e na preparação da próxima geração de dirigentes. O Comitê de Mulheres, por sua vez, trabalha para ampliar a representatividade feminina nos espaços de decisão e gestão. “Na dimensão social, também são observados indicadores como geração de renda, empregos, inclusão e impacto nas comunidades e no meio ambiente. O SESCOOP/GO, braço educacional do sistema, trabalha com monitoramento, formação profissional e promoção social, buscando medir e ampliar os resultados econômicos e sociais das cooperativas e de suas comunidades”, destaca.

Cooperativismo é um modelo de negócio que reúne pessoas com objetivos em comum para crescer e prosperar juntas. As decisões são construídas de forma participativa, valorizando a voz de cada associado e gerando resultados que fortalecem toda a região onde a cooperativa está instalada. Nesse aspecto, as cooperativas são pautadas em sete pilares essenciais, como democracia e transparência, que as diferenciam de empresas comuns. São eles:
Adesão voluntária e livre
Qualquer indivíduo que tenha interesse em utilizar os serviços pode se tornar membro de uma cooperativa, desde que a adesão seja realizada de maneira voluntária e espontânea e esteja disposto a assumir as responsabilidades da sociedade.
Gestão democrática
As pessoas associadas têm o direito de participar ativamente das decisões da sua cooperativa. Cada associado tem um voto, independentemente de sua movimentação financeira.
Participação econômica
No cooperativismo, o associado (a) faz uma contribuição para formar e fortalecer o capital da cooperativa. Quando a cooperativa tem resultado positivo, parte desse valor é dividida entre todos os associados e associadas.
Autonomia e independência
As cooperativas são organizações autônomas. Qualquer negociação que envolva órgãos externos à cooperativa não pode afetar o controle do negócio pelos associados (as).
Educação, formação e mais
No cooperativismo, promovemos a educação e a formação dos membros em todos os níveis. Investimos para que as pessoas possam aprender, inovar e crescer pessoal e profissionalmente.
Intercooperação
É a cooperação entre cooperativas. Isso acontece por meio de estruturas locais, regionais, nacionais e até mesmo internacionais, pois as cooperativas colaboram entre si.
Interesse pela comunidade
No cooperativismo, devolve-se à sociedade parte de tudo o que recebemos. Destinamos parte dos resultados para a realização de projetos que desenvolvam pessoas e comunidades onde atuamos.
Nesse sentido, Luís Alberto Pereira reforça que a principal diferença entre o cooperativismo e os demais modelos de negócio está no fato de que, na cooperativa, o cooperado é simultaneamente usuário, proprietário e participante das decisões do negócio. Isso faz com que os resultados econômicos estejam associados ao desenvolvimento dos próprios cooperados e das comunidades onde as cooperativas estão inseridas. Desse modo, o cooperativismo combina geração de riqueza, distribuição de resultados, inclusão econômica, participação democrática e desenvolvimento regional.
Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB-GO (Foto: Sistema OCB/GO)
Nesse aspecto, segundo ele, as cooperativas têm uma aderência natural aos princípios ESG, porque seu modelo de negócio já nasce baseado em participação, responsabilidade coletiva, desenvolvimento das pessoas e das comunidades e gestão democrática. “Isso não significa, porém, que toda cooperativa esteja no mesmo estágio de maturidade em relação às práticas ESG. Por isso, o Sistema OCB/GO incentiva as cooperativas a transformar essa essência em práticas mensuráveis, indicadores e estratégias de gestão”, afirma o presidente da entidade goiana.
Ele também destacou o Panorama do Cooperativismo Goiano, que passou a mapear políticas e iniciativas ambientais, sociais e de governança das cooperativas. Na edição de 2025, o estudo, realizado em parceria com a UFG, consolidou indicadores de ESG e outras dimensões da gestão. “Nossa visão é que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda de responsabilidade social ou ambiental e passou a ser também uma questão de competitividade, gestão de riscos, acesso a mercados e perenidade dos negócios. Nesse sentido, desenvolvemos projetos importantes, como o Movimento Reciclar, que estimula a destinação correta de resíduos e a reciclagem, aproximando cooperativas, cooperados e comunidades da economia circular”, diz. “Outra iniciativa importante é o Programa Lixo Zero, voltado à redução da geração de resíduos e à melhoria da gestão dos materiais descartados, com foco na separação, no reaproveitamento, na reciclagem e na destinação adequada. Além desses programas, são oferecidas consultorias de eficiência energética, crédito de carbono e diagnóstico de ESG”, ressalta.
Para o gestor, a agenda ESG não deve ser vista pelo cooperativismo apenas como uma adaptação a uma tendência de mercado. Ela deve ser entendida como uma forma de dar visibilidade, comprovar e ampliar práticas que fazem parte da própria identidade cooperativista. “O desafio agora é transformar essa vocação em indicadores cada vez mais objetivos, permitindo que a sociedade consiga enxergar e comparar os resultados produzidos pelas cooperativas em áreas como geração de renda, inclusão, participação democrática, diversidade, preservação ambiental e desenvolvimento das comunidades”, pontua.

Fundada há 51 anos por 50 produtores rurais, a Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo) se tornou a maior empresa do estado de Goiás em 2025. Além disso, está entre os nomes de destaque do agronegócio brasileiro, ocupando o 2º lugar entre as melhores empresas do setor no cenário nacional. Já no recorte regional, que contempla organizações do Centro-Oeste e do Norte, a cooperativa goiana conquistou o título de Melhor Empresa do Agronegócio da região, sendo a 2ª maior empresa dessa categoria, conforme a publicação mais recente do Anuário Valor 1000, do jornal Valor Econômico. O negócio conta, atualmente, com 12.500 cooperados e um quadro funcional de mais de 3.700 colaboradores.
À época de sua criação, os jovens produtores rurais estavam dispostos a mudar o perfil da agropecuária regional, instituindo novos conceitos de produção e comercialização. Com isso, incentivaram o uso de insumos modernos e de tecnologias inovadoras, instalaram um grande sistema armazenador e partiram para a transformação de matérias-primas, tudo isso no município-sede, em Rio Verde. O tempo foi passando, a empresa foi crescendo e, atualmente, a cooperativa está instalada em mais de 17 cidades goianas, com lojas agropecuárias, produção de suplementos minerais e unidades armazenadoras.

Ainda no início, já estava integralmente pautada nos princípios do cooperativismo e na preservação ambiental. Desde 1984, é desenvolvida uma atividade florestal voltada à sustentabilidade. Atualmente, são 7 fazendas florestais, totalizando 12.213 hectares, sendo 6.300 hectares de efetivo plantio de eucalipto. As áreas contribuem para o reflorestamento e a conservação ambiental, além de fornecerem uma fonte renovável de energia às indústrias da cooperativa, reforçando o compromisso com a preservação dos recursos naturais. Essa é uma das alternativas para reduzir os impactos negativos no ecossistema, com ações próprias dentro do processo industrial, conduzindo programas de gestão, tais como reuso, redução de perdas e racionalização do uso dos recursos hídricos.
Para Matheus Azevedo Prado, coordenador de sustentabilidade da Comigo, a agenda ESG é focada no equilíbrio e na sustentabilidade do negócio no longo prazo. O Brasil lidera a produção agropecuária em diversos segmentos globais, alimentando a cadeia agroalimentar mundial, o que eleva significativamente a nossa responsabilidade operacional e institucional.
Matheus Azevedo Prado, coordenador de sustentabilidade da Comigo (Foto: arquivo pessoal)
“Existe um compromisso direto com a qualidade e a segurança do alimento que chega à mesa das famílias. Além disso, nossa atuação busca assegurar o desenvolvimento econômico e social dos nossos associados, que são a razão de existir da cooperativa. Essa pauta conecta-se naturalmente à essência do cooperativismo. Nesse sentido, o papel da Comigo é viabilizar a produção de seus cooperados por meio de assistência técnica, geração e difusão de tecnologia e industrialização de valor agregado. Tudo isso é amparado por uma governança sólida, cujo órgão soberano é a Assembleia Geral de Cooperados. Sob essa ótica, a cooperativa realizou, em 2026, a revisão de sua Matriz de Dupla Materialidade (financeira e de impactos) e a estruturação de uma matriz de Impactos, Riscos e Oportunidades (IROs), ouvindo cooperados, clientes, colaboradores, fornecedores e comunidades locais”, detalha em entrevista à reportagem do jornal A Redação.
Na prática, os pilares ESG podem ser vistos da seguinte forma na cooperativa Comigo, conforme destacado pelo coordenador de sustentabilidade da cooperativa:
A – Ambiental, que se traduz em ações com foco, principalmente, na mitigação contínua dos nossos impactos operacionais. Destaca-se o pioneirismo da cooperativa na implantação de florestas plantadas para a geração de biomassa utilizada em nossas matrizes industriais, além do investimento em parques de energia solar fotovoltaica e na recirculação e no reaproveitamento de água nos complexos industriais. Atenta às crescentes exigências dos mercados nacional e internacional, a exemplo do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) e das diretrizes de sustentabilidade de grandes compradores, a Comigo reforça continuamente o monitoramento socioambiental de sua cadeia de fornecedores de grãos. Essa gestão integra a checagem de critérios socioambientais e trabalhistas na gestão de terceiros e fornecedores, garantindo a rastreabilidade da matéria-prima, o cumprimento das legislações e a mitigação de riscos regulatórios e de mercado ao longo de toda a cadeia de valor. Além disso, oferecemos orientação técnica socioambiental contínua aos cooperados. Também oferecemos cursos, artigos técnicos e podcasts dedicados a temas como prevenção de incêndios e riscos climáticos, como o fenômeno El Niño, auxiliando o produtor na tomada de decisão. Pelo segundo ano consecutivo, conquistamos o Selo Prata no Registro Público de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do Programa Brasileiro GHG Protocol/FGV, expandindo o escopo do inventário para todas as nossas filiais. A Tecnoshow COMIGO consolida-se como um evento neutro em emissões de carbono, acompanhada da doação de mais de 25 mil mudas de árvores nativas à comunidade durante o evento.
S – Social, que se traduz em ações fundamentadas no princípio cooperativista do interesse pela comunidade. Nesta frente, a Comigo atua diretamente em 20 municípios, com suas lojas agropecuárias, armazéns e complexos industriais, garantindo um impacto positivo estruturado na região onde está instalada. Nesse aspecto, destaca-se a Campanha de Arrecadação de Alimentos, projeto no qual a cooperativa dobra todo o volume doado pela sociedade, alcançando a marca de 144 toneladas de alimentos entregues a famílias vulneráveis. A atuação social inclui ainda doações de óleo vegetal para entidades assistenciais, o apadrinhamento de escolas municipais por meio do projeto Cooperjovem e aportes em Fundos Municipais da Criança, do Adolescente e do Esporte. Além disso, a formação de lideranças é mantida por meio dos programas de Formação de Jovens e Mulheres Cooperativistas. Para a Comigo, a responsabilidade social reflete uma cultura em que a liderança pelo exemplo impulsiona um ciclo permanente de solidariedade.
G – Governança, que traduz os princípios democráticos do cooperativismo em uma gestão corporativa profissional, amparada, na Comigo, pelo seu Manual de Boas Práticas de Governança Corporativa. Nos últimos anos, após reformulação estatutária, a estrutura executiva passou a contar com um presidente executivo e cinco diretores especializados, subordinados às diretrizes do Conselho de Administração. Os conselheiros são cooperados eleitos em Assembleia Geral Ordinária (AGO), enquanto os diretores executivos são profissionais contratados sem vínculos externos, assegurando independência decisória e isenção de conflitos de interesse. A estrutura de conformidade conta com um Departamento de Auditoria Interna dedicado, composto por auditores focados na gestão de riscos e nos controles internos, complementado pela avaliação periódica de auditoria externa independente. Em 2025, a Comigo estruturou seu Programa de Integridade e Compliance, prevendo etapas até 2027 que abrangem diagnóstico de percepção, adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), gestão de terceiros, canal de denúncias e publicação do Manual de Compliance. A transparência com o quadro social é fortalecida pelo Programa de Integração de Novos Cooperados, que recebe, em média, 88 associados por mês; pela realização de pré-assembleias anuais por filial; pelos módulos anuais do Programa de Mulheres (10ª edição) e do Jovens Lideranças (13ª edição); além de dias de campo, que reúnem mais de 2.300 produtores, e do diálogo promovido na Tecnoshow Comigo, que reúne cerca de 140 mil visitantes anualmente.
“Nesse sentido, a posição da Comigo como referência nacional no agronegócio é fruto direto da integração entre a essência cooperativista e a gestão estratégica pautada pelos pilares ESG. Ao longo de mais de cinco décadas de história, a cooperativa provou que a viabilidade econômica do produtor rural depende do respeito ao meio ambiente e da valorização das pessoas. A busca por uma produção sustentável posiciona a Comigo na vanguarda da transição sustentável do agro brasileiro”, afirma Prado. “Simultaneamente, o compromisso social genuíno fortalece o desenvolvimento regional nas cidades onde atuamos. Por fim, uma governança transparente, auditada e estruturada com participação democrática traz a segurança jurídica e a credibilidade necessárias para perpetuar o negócio. Essa tríade, com sustentabilidade ambiental, impacto social e rigor de governança, é exatamente o que consolida a confiança dos cooperados e o reconhecimento da cooperativa”, reforça.

As cooperativas têm a capacidade de transformar a vida de seus cooperados e, muitas vezes, representam uma oportunidade para pessoas em situação de vulnerabilidade social reconstruírem suas trajetórias. As cooperativas de reciclagem, por exemplo, costumam ser um ponto de transformação e de inclusão econômica e social para chefes de família que mal conseguiam garantir o próprio sustento, principalmente mulheres.
Este é o caso de Isamara Ferreira da Costa, da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis Dom Fernando (Cooprec). Há dois anos, Isamara não tinha renda nem emprego, pois havia se separado do marido e perdido seus documentos pessoais. Vivia de favor na casa de um conhecido com o filho de 7 anos. Após se mudar para uma região próxima à Cooprec, no Jardim Conquista, região Leste de Goiânia, foi recebida de braços abertos na cooperativa. O trabalho como cooperada representou um recomeço em sua vida, afirma a coletora de recicláveis. “Hoje posso pagar meu aluguel e ter uma casa decente para mim e para meu filho. Agora tenho mais oportunidades e já conquistei várias coisas que antes não tinha. Entendo que outras oportunidades surgirão graças a esse trabalho”, confia Isamara.
A catadora entende que, graças ao cooperativismo, está um passo à frente em sua vida, tanto na questão econômica quanto na social. Isamara não teve contato com o modelo anteriormente e, hoje, se considera uma defensora do cooperativismo. Além do conhecimento adquirido sobre o funcionamento do negócio cooperativo, ela afirma que a Cooprec é um lugar de solidariedade. “A cooperativa é muito solidária, praticamente uma família. Somos unidos. Já vi muitas amigas serem ajudadas. Quando alguém precisa, nós nos juntamos e ajudamos. A cooperativa é ótima para prestar esse apoio.”
Coops Day
Neste ano, o tradicional Dia Internacional do Cooperativismo (Coops Day), celebrado no primeiro sábado de julho desde 1923 e reconhecido pela Organização das Nações Unidas, teve como tema “Cooperativas por um mundo pacífico”. O objetivo é reforçar o papel do modelo como agente de conexão social, desenvolvimento e construção de sociedades mais equilibradas. Segundo a Aliança Cooperativa Internacional, o conceito de mundo pacífico está associado à promoção da justiça social, da inclusão econômica e do fortalecimento das instituições. Nesse contexto, segundo Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, as cooperativas são construtoras de pontes capazes de aproximar comunidades, estimular o diálogo e gerar oportunidades de participação.
É possível perceber a promoção dessas oportunidades de participação na própria Cooprec. Na cooperativa, 19 dos 30 cooperados são mulheres, sendo que três delas atuam na direção. Nair Rodrigues é a presidente da cooperativa e atua na área da reciclagem há 28 anos, com o objetivo de defender os interesses das mulheres nesse meio. “Hoje, meu desejo é empoderar as mulheres e mostrar que elas podem trabalhar onde quiserem. Elas podem se desenvolver e criar os próprios filhos”, conta Nair. Para a presidente, sua própria jornada foi especialmente gratificante, apesar de cercada por desafios. Um dos principais foi convencer os homens de que as mulheres podem ganhar o mesmo que eles caso realizem o mesmo trabalho. “Ser respeitada pelos homens era difícil no início, mas consegui. Essa parte foi muito boa para meu desenvolvimento pessoal.”
Nair Rodrigues é presidente da Cooprec
Nair comenta que 80% das cooperadas da Cooprec sustentam o próprio lar, seja por não terem marido, seja por conviverem com um parceiro que não contribui. Ao testemunhar de perto tantas histórias semelhantes, a presidente da Cooprec percebeu que a sociedade brasileira costuma subestimar a independência feminina. “A ideia de que o chefe de família precisa ser um homem não condiz com a realidade. No Brasil, as mulheres são as chefes de família”, afirma.
Comunidade
As cooperativas de reciclagem também contribuem para uma melhor qualidade de vida, seja no aspecto da sustentabilidade ambiental, seja no das relações sociais. Luciene Costa Leite, presidente da Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis de Santo Antônio de Goiás (Cooper Sag), afirma que um dos principais ideais de sua cooperativa é contribuir para melhorar a vida das pessoas e da comunidade. “A partir do momento em que vamos fazer a coleta, temos que tratar bem a população, trazer o máximo de material reciclável e educar a comunidade. Não adianta ir para a rua para cuidar do meio ambiente e tratar a comunidade mal”, afirma a dirigente.
Luciene está há oito anos na cooperativa, que conta com 10 cooperados, sendo sete mulheres e três homens. A presidente conta que a maioria delas precisa desse trabalho para se sustentar e criar os filhos. Ela transformou a cooperativa após assumir a presidência, em 2017, liderando a regularização, a busca por parcerias e a reestruturação dos processos de coleta seletiva no município de Santo Antônio. Sob sua liderança, a cooperativa passou a processar cerca de 14 toneladas de recicláveis por mês e obteve suporte para a aquisição de novos equipamentos.
Luciene tem participado ativamente de programas de capacitação e liderança do Sistema OCB/GO, o que tem proporcionado avanços importantes para a Cooper Sag. A cooperativa conseguiu crédito com o Sicoob Engecred, ganhou uma cozinha equipada e um banheiro em sua sede, algo fundamental para que os cooperados tivessem um local para comer, descansar e se higienizar. “A cozinha mudou nossa qualidade de vida. As meninas iam buscar os filhos sujas, pois não tinham onde tomar banho. Agora temos esse banheiro junto à cozinha. Conseguimos um caminhão novo e um guincho de elevação do governo de Goiás, por meio de uma licitação. Agora sabemos que existem editais, pois a OCB/GO nos ensinou.”
