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Dia dos pais sem pai

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14.08.2011 - 17:39:36


Meu pai morreu em 23 de setembro de 2010. Desde então, passei por todas as datas comemorativas. Dois dias depois, minha mãe e ele fariam 28 anos de casamento. Menos de dois meses depois, fiz aniversário de 26 anos. Menos de 30 dias depois do meu, seria o dele de 54 anos. Cinco dias depois, o natal. Mais cinco, o réveillon. Ano novo, datas novas, a começar pela Páscoa. Enfim, faltava, pela primeira vez, apenas o dia dos pais, data celebrada hoje.

Joel, meu pai, foi aquele que me ensinou a ser simples e gostar do sofisticado, a ser ingênuo e galgar a inteligência, a ser honesto e ficar esperto. Meu pai nunca me ensinou a doar meus brinquedos velhos. Foi com ele que aprendi a comprar brinquedos novos para doar. Quando lhe era pedido um quilo de alimento não perecível, lá ia Joel com uma ou mais cestas básicas, mesmo se isso comprometesse o orçamento familiar e desfalcasse a despensa.

Ele era meu segurança. Quando minha mãe, mais brava, apanhava um galho de uma árvore qualquer para aplicar a lei da palmada, era ele que, correndo o risco de ser açoitado também, pegava minha irmã, mais leve, no braço esquerdo, e me segurava com o direito e saía correndo para nos salvar. Por sorte, homem é quase sempre maior e seus passos mais largos. Minutos depois voltávamos os três, Tati e eu nos resguardando atrás de suas pernas, e minha mãe já estava mais calma e, no máximo, nos botava de castigo.

Era ele que me ligava diária e religiosamente na Hora do Angelus para saber onde e como eu estava e dizer que me amava. Na sua tradição católica, Nossa Senhora visita os lares e varre os corações pontualmente às 18 horas, ao toque da Ave-Maria.

Sempre que um avião sobrevoava a fazenda onde sempre morou, em Itapuranga, imediatamente selava um cavalo e saía de vizinho a vizinho para, orgulhoso, mentir que era seu filho, que tinha se mudado para a capital para estudar, voltando para visitar a família. Sua invenção não tinha maldade, era coberta apenas de orgulho, mas fiquei muito irritado de medo quando soube e o proibi de espalhá-la.

Lembro dele, que era quase analfabeto, todo orgulhoso quando, em uma reunião familiar, eu menti que seria como ele, agricultor familiar, quando crescesse. Lembro também, com a mesma clareza, da sua feição de satisfação e alívio quando, na formatura de Jornalismo, comprovou que de fato menti sobre minhas pretensões profissionais. No culto ecumênico, ele chamou a atenção de todo mundo ao recusar a rosa vermelha que dei para homenageá-lo. “Homem não aceita flor. Se aceitar, tem de ser branca”, disse com o nítido único objetivo de que as atenções fossem voltadas para ele e o filho formando.

Dispenso, com gratidão, a piedade de quem propuser me emprestar o pai neste dia. Isso não existe. Pai é pai. Da gente. Também não vou cumprimentar nenhum pai pelo dia, a não ser o meu, com quem mantenho para sempre sintonia espiritual inquebrantável. O abraço, neste domingo, não é material, mas é real. Em oração.

Não faço questão de segurar nenhuma lágrima. Algumas já jorraram de ontem para hoje. Foi com meu pai que aprendi que homem chora sim, até assistindo novela ou retirante voltando para casa em programa de tevê no fim de domingo.

Pê de pai tem formato de pé. Pé simboliza sustentáculo, primeiros passos. Foi este desenho, cheio de cores, que sobrevoou e caiu aos meus pés na semana que ele morreu. Desconheço a origem. Talvez seja de uma escola infantil na esquina da minha casa. Não tive coragem de pegar o papel, pois devia pertencer a alguma criança e ele, apesar de estar em coma profundo na Unidade de Terapia Intensiva do Araújo Jorge, daria um jeito de me fazer devolver. Mas fotografei e guardo eternamente como amuleto. Para mim, é sinal claro de vida, que rima com o significado da palavra pai.

João Camargo Neto é jornalista

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por João Camargo Neto

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