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O caminho das pedras para a Educação

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01.07.2011 - 19:44:05

A morte do ex-ministro da educação Paulo Renato Souza, no último sábado, me fez repensar a importância de sua gestão durante os oito anos do governo FHC. Nada que remeta ao cacoete que temos de transformar os que se foram em heróis. Não é nada disso. A importância a que me refiro nem mesmo diz respeito ao programa de governo conduzido por Souza, responsável por inserir conceitos mercadológicos em um campo notadamente avesso à mensuração quantitativa, em um momento em que a América Latina ecoava os ares da política neoliberal, consolidada nos Estados Unidos e na Europa uma década antes. 

 
Sem a intenção de emitir qualquer juízo de valor, o que de fato quero ressaltar é a competência com que Souza conseguiu introduzir a educação na pauta da grande imprensa – e também das mídias regionais, viciadas na reprodução de modelos hegemônicos de comunicação. Quem não se lembra da campanha protagonizada por Pelé, que ao lado de um coral formado por crianças, divulgava por meio das emissoras de rádio e de televisão o programa O Brasil quer toda criança na escola? Ou de Tony Ramos convidando a população a aderir ao programa Amigos da escola? 
 
O fato de que tais programas tinham como objetivo incentivar parcerias da sociedade civil, da inciativa privada e de organismos internacionais com o governo, que à época aprovou emendas constitucionais e regulações normativas até então nunca vistas, que buscavam legalizar uma série de facilidades facultadas ao capital, não obscurece a visibilidade até então inédita para o campo da educação alcançada pelo então ministro. Vale lembrar que ele contou com o apoio precioso do publicitário Geraldo Walter, companheiro de Nizan Guanaes, responsável pela campanha presidencial de FHC e que, segundo o próprio Souza, atuava nos bastidores da orientação de comunicação do governo como um todo.
 
Outro episódio memorável da gestão de Souza diz respeito à polêmica criada em torno do Provão. Repudiada pelas universidades, na figura de reitores e estudantes, a avaliação ganhou o noticiário e repercutiu meses a fio, colocando a educação na boca do povo. As manobras políticas de Souza resultaram em um amplo espaço concedido pelo jornal Folha de S. Paulo para que ele rebatesse as críticas e expusesse seus argumentos em defesa do Provão e, pasmem, resultou em um extenso editorial de primeira página publicado pela Folha alguns dias depois, defendendo muito claramente o sistema de avaliação e a realização do exame. 
 
Estratégias políticas à parte – não é nenhum segredo que as grandes empresas de comunicação mantêm relações promíscuas com o poder como forma de sobrevivência – o que fica como legado é a disposição que Souza teve em tirar da invisibilidade o campo da educação, até então relegado a segundo plano nos meios de comunicação de massa. Não basta que a educação apareça nas páginas dos jornais ou nos noticiários da televisão como um amontoado de estatísticas, em números que, descontextualizados da realidade de nosso país, perdem significado e se exaurem na publicação dos dados. Ou em denúncias vazias, apresentadas sem se faça qualquer vínculo com as causas e consequências dos fatos. 
 
O que Souza nos mostrou é que é possível trazer a educação para o debate público, fazendo dos veículos de comunicação instrumentos de cidadania, em que a informação trafega em mão dupla e não apenas como uma imposição vertical que exclui o cidadão, na medida em que o transforma em um mero receptor da informação. Mais uma vez, não vou entrar no mérito dos meios nem dos motivos que levaram o então ministro a investir de forma contundente na comunicação de massa. O mais importante é reconhecer que a educação pode e deve se tornar assunto cotidiano em nossas vidas. E que sua abordagem pode ir muito além da reprodução pontual de números e de dados. Quem sabe se, através do debate público sobre o campo, a educação possa finalmente ser um tema de relevância na vida de cada um de nós. 
 
Silvana Monteiro é jornalista
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por Silvana Monteiro

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