Logo

De como pendurei as sapatilhas

12.07.2011 - 09:40:32
WhatsAppFacebookLinkedInX

 

Lembro de adorar minhas aulas de balé quando tinha por volta dos meus 8 anos. Gostava da meia cor de rosa, do cabelo preso em coque, da faixa azul no cabelo, das minhas colegas bailarinas. No fundo, eu sabia que não tinha vocação de bailarina, mas gostava das aulas na barra, da música vinda do piano, das coreografias no centro da sala, do espelho enorme e até hoje me lembro do barulho do chão de taco de madeira em contato com as sapatilhas.
 
Sempre soube que não tinha alma de bailarina e apesar de ser uma aluna medíocre, era dedicada. 
 
Tão dedicada que não me dei conta quando a professora, com seu sotaque inglês e pernas enormes, me pediu para demonstrar um exercício na barra para as demais da classe. Lembro me como se fosse hoje do quanto fiquei feliz, de como me senti o máximo.
 
 
Terminado o exercício, aquela pessoa que se intitulava professora de balé disse em alto e bom tom para todas as alunas que a minha perfomance  estava totalmente errada e que eu era um exemplo a não ser seguido.
 
Devo confessar que em toda minha vida nunca senti tanta inadequação quanto naquele momento. Meus olhos imediatamente se encheram de lágrimas e busquei nas minhas colegas um olhar de apoio. Foi a minha primeira solidão.
 
Até hoje relembrando esse episódio, sinto muita compaixão por aquela criança de 8 anos, ali na barra, humilhada por quem deveria estar ensinando, incentivando e educando.
 
 
Obviamente não me tornei bailarina e provavelmente não seria uma independente desse episódio, que juro, até hoje me machuca profundamente, passados mais de 30 anos.
 
Não sei quanto tempo depois disso abandonei as sapatilhas para sempre. Sei também que me calei sobre o episódio, nunca falei sobre o ocorrido nem para minha mãe.
 
Relembrando agora nessa catarse textual, sinto compaixão por aquela bailarina mirim que um dia fui e uma certa pena por aquela pessoa que deveria ser uma educadora, mas simplesmente não sabia sê-lo.
 
Nesses tempos digitais em que pais, professores e alunos discutem o bullying, essa história pode parecer um conto da carochinha comparado às humilhações nefastas que são cometidas todos os dias na escola ou fora dela com o simples objetivo de subjugar o outro. 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Bia Tahan

*Jornalista

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]

CURADORIA AFETIVA
15.02.2026
Uma crônica carioca

A geografia específica de cada região carrega suas peculiaridades e traduz ao longo de milhares de anos características particulares, em consequência do clima e bioma. É o que acontece com a paisagem singular do Rio de Janeiro. Você pode ter estado em qualquer lugar do mundo, mas é só lá que se sente a brasilidade […]