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De como pendurei as sapatilhas

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12.07.2011 - 09:40:32

 

Lembro de adorar minhas aulas de balé quando tinha por volta dos meus 8 anos. Gostava da meia cor de rosa, do cabelo preso em coque, da faixa azul no cabelo, das minhas colegas bailarinas. No fundo, eu sabia que não tinha vocação de bailarina, mas gostava das aulas na barra, da música vinda do piano, das coreografias no centro da sala, do espelho enorme e até hoje me lembro do barulho do chão de taco de madeira em contato com as sapatilhas.
 
Sempre soube que não tinha alma de bailarina e apesar de ser uma aluna medíocre, era dedicada. 
 
Tão dedicada que não me dei conta quando a professora, com seu sotaque inglês e pernas enormes, me pediu para demonstrar um exercício na barra para as demais da classe. Lembro me como se fosse hoje do quanto fiquei feliz, de como me senti o máximo.
 
 
Terminado o exercício, aquela pessoa que se intitulava professora de balé disse em alto e bom tom para todas as alunas que a minha perfomance  estava totalmente errada e que eu era um exemplo a não ser seguido.
 
Devo confessar que em toda minha vida nunca senti tanta inadequação quanto naquele momento. Meus olhos imediatamente se encheram de lágrimas e busquei nas minhas colegas um olhar de apoio. Foi a minha primeira solidão.
 
Até hoje relembrando esse episódio, sinto muita compaixão por aquela criança de 8 anos, ali na barra, humilhada por quem deveria estar ensinando, incentivando e educando.
 
 
Obviamente não me tornei bailarina e provavelmente não seria uma independente desse episódio, que juro, até hoje me machuca profundamente, passados mais de 30 anos.
 
Não sei quanto tempo depois disso abandonei as sapatilhas para sempre. Sei também que me calei sobre o episódio, nunca falei sobre o ocorrido nem para minha mãe.
 
Relembrando agora nessa catarse textual, sinto compaixão por aquela bailarina mirim que um dia fui e uma certa pena por aquela pessoa que deveria ser uma educadora, mas simplesmente não sabia sê-lo.
 
Nesses tempos digitais em que pais, professores e alunos discutem o bullying, essa história pode parecer um conto da carochinha comparado às humilhações nefastas que são cometidas todos os dias na escola ou fora dela com o simples objetivo de subjugar o outro. 
 
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por Bia Tahan

*Jornalista

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