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De braço em braço

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02.05.2013 - 17:27:35
 
Diz um ditado popular – quero significar popular entre as mulheres, que “homem é igual a macaco, só larga um cipó quando pega outro”, já bem confortável. Aceitemos o que demonstra o senso comum: homens têm uma maior dificuldade de romper relacionamentos insatisfatórios sem antes já ter plantado o pé e outros membros em outro território. 
 
Mas também seríamos injustos ao considerar que tal comportamento não é encontrado entre os exemplares femininos da espécie. O abismo é mesmo mais embaixo. Somos, independentemente dos distintos sexos, amedrontados animais gregários; trepamos, se não mais nas árvores, uns com outros e em prédios de apartamentos, ante o terror da velhice, da noite e da foice.
 
Noto – e já estive eu mesma em tal viagem sobre florestas de braços, sem por longo intervalo tocar os pés no chão de minha própria solidão – que são muitos os que vivem de migrar de colo em colo, de roubada em arroubo, sem nunca dar ao pobre coração um pouco de repouso. Mal concluem um enredo e já se enredam em outro. Pudera. É esse o brado dominante. 
 
Se a amiga termina um romance e se enfia em casa para ouvir o fino da fossa, apelamos para que saia logo dessa: não chore por quem não te merece, cante Olhos nos Olhos o mais que depressa. Encontre alguém que te valorize e te resgate do fundo do poço.
 
Se o amigo amua por uma ingrata, os outros o convocam à rua para ver quantas gatas e quão pardas. Não se afogue em mágoa. Você vai nadar de braçada. Onde o intervalo para a convalescença e luto e para os poderes curativos do tempo, que é o que ao fim e ao cabo sara tudo? Corações devem se regenerar mais rápido do que rabo de lagartixa. Mal se perde um, já se cria outro no lugar.
 
É mesmo tão grande a pressa para que a fila ande. É tão incisivo o apelo para que se formem novos pares. É tal triste e feio ser avulso. Bonito é sacudir-se e dar rapidamente a volta por cima, reencontrar novo amor no primeiro virar da primeira esquina, como se fôssemos, de maneira reducionista, metades incompletas, aquelas de que Platão falava em seu Banquete, como se necessitássemos para ser inteiros da outra banda da laranja ou de uma grande fatia de bolo. 
 
Talvez, se estivéssemos mesmo inteiros e plenos, procurássemos no outro, apenas o gomo, a cereja, não o alimento para saciar essa gula toda. Talvez, assim, poderíamos dividir não o pouco, mas o muito que somos, se o fôssemos.
 
E em que enrascadas nos metemos nesse desatino de querer tapar com a peneira o sol ardido de uma ferida ainda aberta, de querer sarar doença com doença? Por que afinal não nos assistimos? Por que não deixamos brotar e cair tranquilamente a casquinha, para que não fiquem feias cicatrizes? 
 
Criam-se assim, não quadrilhas drummondianas, mas terríveis dominós humanos de desencontros, enganos, mágoas, culpas e dívidas. João tentava esquecer Teresa com Maria, que saía com Raimundo, que amava Lili, que queria se casar com Joaquim, que comia todas e partia o coração de todo mundo, inclusive de J.Pinto Fernandes que não tinha nada a ver com toda aquela história.
 
Lembro-me do caso de uma moça que, tendo sofrido desencanto e engano amoroso, não deu sequer um tempo a si mesma a sós consigo e, crendo vingar-se do destino, esse maldoso boi de pontiagudos chifres, arrumou um noivo. 
 
Casou-se com todas as pompas e bravatas de felicidade, e  ainda na viagem de núpcias, quando o tão recente marido havia se ausentado do quarto, ligou para declarar-se aquele por quem ainda se julgava apaixonada: casei-me com ele, mas é a você que amo. Foi flagrada. Por pouco não se deu desfecho trágico. Anulou-se o contrato. Devolveram-se os presentes e na semana seguinte lá estavam ele e ela, aceitando entrevistas para novos pretendentes. Pobrezinhos, eles e principalmente os que seguiriam a fila.
 
Nem todos os caso, claro, têm assim finais tão dramáticos, ou seguem em intermináveis prolongamentos. Mas diz um outro ditado que “macaco que muito pula leva chumbo”. Levamos, quando nãos sabemos quedar um pouco solitários no galho. 
    
Em arrepios carentes de febre, em lugar de gatos, levamos para casa lebres. Procurando desesperados a tampa de nossa panela, amassamos nossa personalidade e nos moldamos a quem não nos cabe, esquecendo que podemos sim levantar fervura sem ela.
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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