Zurique – Sentada aqui no meio da tarde, enquanto o mau tempo e a chuva se juntam ao mau humor e à alergia, nariz vermelho, olhos inchados, me pergunto sobre o sentido da existência. Tentando medir as distâncias palmo a palmo, puxando o fio do telefone sem fio e encurtando as vozes pela imensidão do Atlântico.
O que seria de mim sem os meus? Os meus, que estão quase sempre tão longe, mais do que o suportável. O que seria de mim sem as lembranças e a possibilidade de revivê-las, revê-las mesmo que de binóculo? Em uma tarde de sábado que mais parece domingo, me irrito com a sensação de que a única coisa que realmente nos liberta é o querer bem e estar ao lado de quem nos faz bem. Querer o bem de quem nos quer.
Afoita pelas mudanças metereológicas, insisto em achar que é preciso ter lógica, é preciso entender os rumores e os estados d’alma. Mas nada disso é real, real é apenas o querer. E hoje eu quero. Quero estar perto de quem me quer bem. Quem me conhece, de trás pra frente, do avesso, pelo viés. E essa pessoa se chama Gio.
E Gio foi minha primeira amiga, companheira, irmã. Aliás, deve ter sido a primeira criança a me olhar com curiosidade ainda na maternidade. Se perguntando talvez, quem seria aquele pacote, ser enrolado na manta, mais brinquedo do que gente.
E Gio continuou ao meu lado, me vendo crescer, segurando na minha mão, abrindo caminhos, dividindo brinquedos, camas, quartos, cuidando para que eu não caísse nem ousasse demais. Sendo rainha, ordenando e protegendo. Ensinando e brigando. E Gio foi assim, deus e o diabo, amiga e inimiga, cúmplice e concorrente, mãe e madrasta. Me fez enxergar os dois lados da moeda e a gostar deles assim, incoerentes, mas essenciais, vitais.
E eu também fui anjo e demônio, nas brincadeiras, nas brigas, nas viagens, festas, carnavais, nosso amor foi sempre transparente, real. Ela sábia, eu aprendiz. Hoje dividimos humores e conselhos inúteis, desesperos, pequenos e grandes, existenciais. Mas o que prevalece é a proximidade, o diálogo sem palavras, as mesmas fontes, as mesmas buscas, a busca da salvação, da absolvição, do esquecimento. Mas não o esquecimento por falta de memória, mas pela resistência, pelo amor à vida e a tudo – absolutamente tudo – que dela faz parte.
Nunca acreditamos em nada e em tudo ao mesmo tempo.
Gio ainda me faz enxergar mais longe, sonhar, mas apenas sonhos de quem tem os pés fincados no chão, fortes como colunas gregas, profundamente cravados na história, olhar firme, de quem protege os animais, as mulheres e as crianças, quem cuida mas se recusa a carregar no colo ou nos ombros, que mostra os caminhos mas não desenha mapas, não rabisca destinos incertos.
A dor do outro é a nossa, sempre foi. Mas essa dor vem vestida de alegria, alegria de querer ser sobretudo forte, certeira na existência, flecha e arco em um só. Querer esquecer antigos mantras e abrir espaço para novos que não culpem, não sofram, não mintam. Que abençoem o momento presente, simplesmente, exato como ele é.
E continua sendo assim. O que importa é tudo o que é certo e bom e alegre e forte e tudo o que nos orienta, nos nutre, nos guia. O resto não existe, porque não nos acresce em nada, não nos sustenta, não nos faz crescer em milímetros ou em bem querer. E tudo há de ser bom sempre pois o melhor de nós deixamos em cada esquina, mesmo o pouco, o incompleto, nada fica a fazer ou a desejar, o possível é alcançado e saímos leves e felizes prontas para a próxima parada, a próxima aventura, assim a vida é, uma aventura sem fim, pois o fim somos nós, o início, o meio e o fim de tudo, cada instante abençoado por nós mesmos.