Logo

Ideia vs realidade

20.06.2025 - 12:15:04
WhatsAppFacebookLinkedInX
Vivemos num sistema eleitoral deformado, no qual prosperam os discursos rasos, extremistas e segregadores. O populismo virou regra, a demagogia é estratégia, e a lógica eleitoral raramente privilegia quem propõe soluções baseadas em evidências, dados, pesquisas e competência. A consequência direta é o esvaziamento da política séria, técnica, focada em resultados. O mérito foi substituído pela performance; a substância, pela aparência.
 
A decadência política se revela, também, na deterioração das burocracias, na captura do poder legislativo por grupos de interesses especiais e em processos judiciais inevitáveis, mas complicados, que desafiam toda e qualquer tentativa de ação governamental estruturada. O Estado é cada vez menos capaz de formular e executar políticas de longo prazo, sufocado entre decisões judiciais, pressões corporativas e uma burocracia sem direção.
 
Nossos líderes, com raras exceções, não formam pessoas, pois são moldados por algoritmos, pelo calor das redes sociais e pela urgência de agradar bolhas digitais. A mensagem é cada vez mais curta, mais superficial, mais voltada ao efeito imediato. A população, por sua vez, parece querer se afastar das instituições, desejando ser representada por figuras que compartilhem suas dores, indignações e frustrações. Querem alguém que mude tudo, mesmo que, no fundo, nada mude.
 
Há uma desconexão profunda entre os partidos e a realidade vivida pelo povo. A maioria das legendas envelheceu no discurso, fossilizou-se nas estruturas internas e perdeu a capacidade de ler o país. Para atrair novos quadros, um partido político precisa, hoje, romper com as hierarquias arcaicas, abrir-se à renovação, promover formação programática séria e permitir que novos nomes tenham protagonismo real. A velha prática de importar lideranças prontas, com seus vícios e conveniências, serve apenas para perpetuar o status quo.
 
O momento exige líderes que falem com clareza, que saibam ouvir, que tenham propósito. Agentes políticos que não se conformem com as estruturas, mas que compreendam a complexidade dos desafios e saibam construir soluções inovadoras — ancoradas em dados, e não em slogans. É urgente superar o patrimonialismo de feições quase feudais que ainda domina o poder brasileiro. Precisamos de representantes que desafiem o establishment, enfrentem a corrupção e se levantem contra os monopólios políticos e econômicos travestidos de democracia.
 
Atualmente, a divisão política no Brasil centra-se mais em disputas culturais e identitárias do que em projetos reais de país. Falta conteúdo programático, falta visão de futuro, falta coragem para defender liberdades individuais, liberdade econômica, equilíbrio fiscal, desenvolvimento sustentável e democracia como projeto nacional, e não como retórica de ocasião.
O Brasil precisa de partidos que se vistam de povo, e não de burocratas do poder; que saibam usar as redes sociais não como vitrines de vaidade, mas como ferramentas de escuta, diálogo e mobilização; que estejam nas ruas, nos debates, nas escolas, nas comunidades, dispostos a construir políticas públicas modernas, conectadas à vida concreta das pessoas, baseadas na inovação, na empatia e na realidade.
 
Nossa nação carece de um novo pacto político, em que os cidadãos sejam efetivamente incluídos na tomada de decisão, e que a política não seja ocupação de castas, e sim instrumento coletivo de transformação. O futuro não será construído com as fórmulas do passado. É hora de reinventarmos a política, ou aceitaremos viver sob o domínio de quem a transforma em espetáculo vazio.
 
Michel Magul é secretário de Relações Internacionais da Assembleia Legislativa de Goiás, mestre em Planejamento Urbano pela PUC Goiás e advogado
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Michel Magul

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Postagens Relacionadas
Marcius Tadeu Maciel Nahur
27.01.2026
Verdade, liberdade e contemporaneidade caótica

A chamada pós-verdade existe em uma zona nebulosa, com graves riscos científicos, éticos, políticos e históricos para a vida coletiva na sociedade contemporânea. Vivemos uma era estranha e caótica, que possibilita diversas dissimulações, sem que se considere isso uma desonestidade. Ainda que se espalhem as falsidades, as mentiras, ninguém se vê ou é visto como […]

Jales Naves
25.01.2026
Colégio Pedro Gomes e a expectativa de mudanças

Surgida como povoado em 1810 e emancipada em 1907, a cidade de Campinas, em Goiás, foi incorporada à nova Capital, Goiânia, em meados da década de 1930, e se tornou um de seus principais bairros, com intensa atividade socioeconômica e política. Bairristas, os moradores de Campinas sempre trataram o bairro com deferência, tinha uma vida […]

Henrique Alckmin Prudente
24.01.2026
Educação Ambiental: a sua casa é a melhor escola

Em 26 de janeiro celebra-se o Dia Mundial da Educação Ambiental, data instituída pelas Nações Unidas na Conferência de Belgrado, Sérvia, em 1975. Esse evento estabeleceu diretrizes para que práticas voltadas à sustentabilidade global e local fossem integradas, institucionalizadas e consolidadas em todo o mundo. A Educação Ambiental envolve diferentes sistemas (culturais, econômicos, naturais, sociais) […]

Luciana Brites
24.01.2026
Gestação e alfabetização

Muitas pessoas podem achar que gestação e alfabetização são temas distintos. No entanto, há fatores na gravidez que podem influenciar diretamente no desenvolvimento do aluno. O que acontece durante essa fase pode afetar o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental da criança. Isso porque a aprendizagem começa na barriga da mãe, já que, segundo estudos, o […]

Wesley Cesa
22.01.2026
O cânhamo e o pecado da ciência

Imagine um campo onde o pôr do sol tinge de rubro as folhas de uma nova espécie de planta, uma planta que é filha da ciência e neta da desconfiança. Cada haste vermelha parece carregar uma heresia: ser planta e não ser pecado. Ela é zero THC, zero polêmica, zero prazer culposo. Só tecnologia, genética […]

Peter Panfil
22.01.2026
Potencializando a energia dos data centers na era da Inteligência Artificial

Projetos de infraestrutura flexíveis e escaláveis são cruciais para possibilitar a inovação em IA. Para que essa meta se cumpra, é fundamental que as implementações e o uso não comprometam a confiabilidade e a eficiência das operações. Plataformas de computação acelerada e serviços em nuvem estão impondo um desafio cada vez mais complexo aos sistemas […]

Lara Ferry
21.01.2026
Ser vulnerável na era da performance: por que mostramos tudo, mas revelamos pouco?

Às vezes, é desconcertante viver em um estado de superestimulação, a ponto de nada fazer mais sentido. Tantas coisas acontecem ao mesmo tempo ao nosso redor, e o mundo muitas vezes parece demais. Nessa era de superexposição social, encontro grande dificuldade em sentir intimidade com este mundo, mas vivo neste paradoxo: anseio pela minha íntima […]

Jorge Gonçalves Filho
21.01.2026
Inteligência artificial: ou entramos nesse mundo ou estaremos fora do jogo

Mais um janeiro que, em pleno inverno, Nova Iorque é invadida por brasileiros sedentos para obter conhecimento e informações sobre as tendências do varejo mundial na NRF (National Retail Federation), o maior evento do setor no mundo. De 11 a 13 de janeiro mais de 3.000 brasileiros estavam andando pelos pavilhões do Jacob Javits Convention […]