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Verdade, liberdade e contemporaneidade caótica

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27.01.2026 - 10:34:30

A chamada pós-verdade existe em uma zona nebulosa, com graves riscos científicos, éticos, políticos e históricos para a vida coletiva na sociedade contemporânea. Vivemos uma era estranha e caótica, que possibilita diversas dissimulações, sem que se considere isso uma desonestidade. Ainda que se espalhem as falsidades, as mentiras, ninguém se vê ou é visto como um falsário ou mentiroso.

Falsidade e falso, mentira e mentiroso passaram a ser palavras expurgadas na era da pós-verdade, caracterizada por seus apelos à emoção e à crença pessoal como critérios para aceitação do que se diz, não só na esfera privada, mas também na esfera pública.

No entanto, a questão que se coloca é se essa pós-verdade teria se instalado, na contemporaneidade, em decorrência de um esquecimento da verdade, tão cara a uma visão metafísica dessa mesma verdade.

Mesmo que sempre tenha havido mentirosos, geralmente, as mentiras são contadas com hesitação, uma dose de ansiedade, um pouco de culpa, vergonha, pelo menos algum acanhamento. Agora, “pessoas inteligentes” criam justificativas para adulterar a verdade e, por conseguinte, a noção mais realista de liberdade, para que possam dissimular as coisas sem culpa. É o que se chama de era da pós-verdade.

Uma era que se distancia, e muito, do próprio ensinamento bíblico bastante conhecido: “[…] conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). Mentira e mentiroso passaram a ser palavras que soam muito duras, como se fossem proferidas em tom de severo julgamento, o que parece não ter mais cabimento na era da pós-verdade.

Os homens, em particular, são extremamente cuidadosos para evitar dar a outros homens qualquer oportunidade de dizer: “Tu estás me chamando de mentiroso?” Uma vez ditas essas palavras fatais, é difícil que o diálogo tenha continuidade, sem acirramento de ânimos. Parece que não há mais mentiras. Quando muito se diz: “não fui tão feliz em minha fala” ou, ainda, “não fui bem compreendido em minha comunicação”.

O problema se agrava quando essa chamada pós-verdade, extrapolando a esfera privada, na qual já é capaz de gerar situações caóticas, se dissemina na esfera pública, assumindo os rumos da ciência, da política e da história no amplo universo da comunicação social.

Um antídoto para esse cenário caótico, instalado na contemporaneidade, pode ser a retomada da metafísica aristotélica, em uma de suas configurações principais, qual seja, a metafísica como “ciência da verdade” (Aristoteles, 1993, p. 73).

Aristóteles sublinha que conhecer o verdadeiro significa conhecer a causa e, em particular, que conhecer a verdade metafísica significa conhecer as causas que fazem ser verdadeiras as outras coisas que delas dependem. A verdade de que fala aqui Aristóteles é, portanto, identificada com o ser mesmo, dado que “[…] cada coisa possui tanto de verdade quanto possui de ser” (Aristoteles, 1993, p. 73). Vale ressaltar: essa verdade não é uma verdade particular, mas sim a verdade última das coisas (Reale, 1993, p. 13).

A verdade requer a afirmação da primazia de algo, da existência por si mesma subsistente, antes e independente desta ou daquela opinião ou consciência, quaisquer que sejam elas.

Há um contraponto forte para a pós-verdade. Trata-se do reposicionamento, na sociedade contemporânea, de uma das concepções metafísicas de Aristóteles, que já assinalava a importância de se reconhecer essa filosofia primeira como ciência da verdade última das coisas, a qual foi amplamente comentada por Tomás de Aquino, o escolástico que repisou a razão teórica como especulativa, cujo fim é o conhecimento da verdade como fim último.

Como essa filosofia primeira ou metafísica não é prática, mas especulativa, na releitura tomista, ela deve mesmo ser chamada de ciência da verdade, porque considera, em grau máximo de excelência, a verdade em suas causas primeiras. A filosofia objetivista, de linha aristotélico-tomista, insiste na verdade como o reconhecimento da realidade, o que exige reafirmação do fundamento metafísico, cujo axioma primordial consiste em admitir, sem caprichos solipsistas, que a existência existe, vale dizer, que as coisas são o que elas são, que elas possuem uma natureza específica, uma identidade própria, antes e independente de qualquer opinião ou mesmo consciência supostamente verdadeira ou falsa sobre elas.

*Marcius Tadeu Maciel Nahur é  Coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova.

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por Marcius Tadeu Maciel Nahur

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