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Aniversário, anestesia e carnaval

13.02.2013 - 12:05:47
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Zurique – Foi um aniversário especial. Como uma premonição, semanas, dias antes, me negava a planejar ou deixar-me felicitar por mais um ano de vida. Coisa chata fazer aniversário! Respondia com mau humor, colocando a culpa em um possível inferno astral, nas estrelas, na idade, no frio, enfim, em algo fora de mim, que me impedia de comemorar. 
 
No dia mesmo, acordo ainda chateada, esforçando-me em sorrisos para satisfazer as crianças, louca para ver tudo passar bem rápido. Acolho as primeiras felicitações bem cedo, ainda antes que todos saiam de casa e me deixem diante de um dia tão branco como a neve que insiste em cair lá fora, mesmo em pleno carnaval.
 
Em seguida, depois de tirar a mesa do café, dar uma geral na casa, deveres cotidianos de qualquer dona de casa de um chamado primeiro mundo, saio para resolver pendências, e na correria, esqueço de levar o celular. Na volta, cerca de duas horas depois, percebo que algo havia acontecido, no registro do telefone, vários recados e chamadas não atendidas. Percebo de imediato que alguma coisa havia acontecido com meu filho.
 
Ligo para seu número, ninguém atende. Tento o do seu pai, ele responde com um forçado “não se preocupe” que me deixa ainda mais desesperada, e afirma que nosso filho está no atendimento de emergência do hospital público, por causa de uma fratura no braço, e terá que fazer uma cirurgia.  
 
Saio correndo, chego na porta da emergência do hospital infantil, nosso velho conhecido, insisto em dizer seu nome na portaria, mas afirmam não haver nenhum paciente com esse nome. Ligo novamente, peço para alguém vir me buscar na portaria. Nesse momento, percebo que estou no lugar errado. Meu filho não é mais criança, é um rapaz e por isso não pode mais ser  atendido no hospital infantil. Lógico.
 
Pego o carro, faço curvas fechadas nas ruas cheias de neve, mordo os lábios atrás de um estacionamento e chego, finalmente, ao hospital certo. Na portaria, novamente problemas. Não me deixam entrar, só é possível um acompanhante por vez. Para eu entrar, o pai tem que sair. Engulo o grito, torço as mãos ,controlando a vontade de batê-las no balcão e dizer, mas é meu filho!
 
Calo, ligo e peço novamente para que venham me buscar. Assim que a porta automática da emergência se abre, ignoro o que dizem e entro sem pedir licença. Apesar das reclamações da atendente, conto com a compreensão dos médicos. Sim, podemos ficar juntos, já que ele é tão jovem, mas devemos ser discretos, pois há outros pacientes.
 
O hospital é moderno, foi reformado há pouco tempo, mas há realmente pouco espaço. Meu filho está deitado em uma maca no corredor, assim como outros dois pacientes mais idosos. Ele parece estar bem, já foi medicado, não sente muita dor e pode me explicar como tudo aconteceu e o motivo da operação. Todos parecem mais tranquilos do que eu. Esforço-me para ficar calma, respirar fundo, tentar ser útil.
 
A operação é feita no mesmo dia, sob anestesia geral, o que me deixa por duas horas em estado quase catatônico, feito um casulo, sentada em uma cadeira, sem falar, sem beber, sem comer, olhando através de uma janela – raios de sol, céu azul, neve – respirando levemente, apenas esperando.
 
As energias concentradas naquele momento, em que tudo parece fixado em um só ponto, entre a vida e a morte, entre o ser e o não ser. Sempre tive pavor de anestesia  geral. A pergunta, porque agora? passa displicentemente pela minha cabeça, ou simplesmente, porque? Mas não acho resposta, não sei…
 
Tudo corre bem. Aos poucos ele se recupera, acorda, o funcionamento do coração, do pulmão, volta ao normal. Mais tarde é horário de visita com toda a família presente. O momento mais duro, deixá-lo passar a noite sozinho, pois não é permitido acompanhante. O hospital é muito conceituado, mas não tem nenhum luxo desnecessário. Ele divide o quarto com outros três pacientes.
 
No dia seguinte, pela manhã, vou visitá-lo, levando roupas, livros e outros objetos necessários. Encontro-o já tomado banho, com boa aparência. Informam-me que poderá sair ainda naquele dia do hospital, antes do previsto. Fico feliz, ele também. Depois da visita do médico e das explicações necessárias, preparamo-nos para partir.
 
Deixo-o deitado, enquanto vou levar as bagagens ao carro, pego algumas sacolas e bolsas que se acumularam nessas 24 horas e me dirijo ao estacionamento. No caminho, em um dos corredores do hospital, vejo, pela porta entreaberta, um jovem deitado em uma cama, vigiado por dois policiais. Sua expressão é de criança, alguém pedindo colo. Provavelmente, um pequeno criminoso, ferido em plena ação. Lembro-me de Adriana Calcanhoto cantando – Todo mundo teve infância, Maomé já foi criança… e também eu e você. Criminoso ou não, poderia ser meu filho. Me pergunto sobre os limites entre o bem e o mal, novamente, porque? Mas também não acho resposta, não sei…
 
Quando volto do estacionamento, encontro meu filho sentado no corredor, com sua mochila e uma sacola. Tiraram ele do quarto, porque precisavam da cama para outro paciente. Fico surpresa e irritada, pois acho que o gesto não condiz. Dez minutos a mais, ou a menos, não faria tanta diferença. Quero reclamar, injuriada, mas me detenho. Acredito em um mundo sem privilégios, onde cada ser humano tenha os mesmo direitos, a mesma parcela de dignidade, mas gostaria, nesse momento, de ver meu filho usufruir de algum privilégio, mesmo mínimo que fosse. Porque reagimos assim? Novamente a mesma pergunta, porque? Mas ainda não acho resposta, não sei…
 
E na falta de respostas, lembro-me de Sérgio Sampaio – Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, pra dar e vender. Eu quero é todo mundo nesse carnaval!… 
 
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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