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Rituais banais do amor

28.01.2013 - 16:07:34
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Gretel e Malte Sieveking nos anos 50. (Foto: divulgação)
 
Zurique, Suíça – O  sentimento é caos, a memória é filtro. Mas não se pode viver na mentira, na expectativa de uma absolvição de si mesmo. Recentemente, ao assistir o filme “Vergiss mein nicht”  (Não me esqueça)  de David Sieveking, me emocionei  ao observar a trajetória de Gretel, uma  mulher excepcional , já revolucionária nos anos 50 e 60, como estudante, jornalista, líder de movimentos de esquerda , ativista, vigiada e temida pela polícia secreta suíça, mãe de três filhos, defensora de modelos pedagógicos e sociais novos pra época.

Uma personalidade forte que com o tempo e a demência precoce perde sua substância e vira pó. E o que fica? Me perguntei. O que fica de nós? O que sobra quando a máscara do corpo, a beleza dos gestos, e a forma dos conceitos sociais se desfaz? Quem somos nós por trás de nós mesmos? Por trás do personagem que inventamos pra viver ou acreditamos que devemos assumir? Quem somos nós além de nós mesmos?

O esquecimento é seletivo, é sentimental. Assistindo o filme, feito pelo filho sobre sua própria mãe, através da lente da doença de Alzheimer, percebe-se que quando todas as normas sociais desaparecem,  todos os conceitos e níveis racionais de comportamento se desfazem, emerge uma camada de sentimentos inspiradora, de emoções sem filtro, comoventes, engraçadas, que, se observada a olho nu, sem expectativa ou preconceito, representa uma imagem nítida, uma fotografia de rara beleza da alma, da palma da vida de uma pessoa.

Apesar de não reconhecer a casa onde mora, não se lembrar dos filhos ou do marido, Gretel é capaz de expressar sentimentos autênticos, com relação a cada pessoa ou situação, de forma imediata, pura e límpida, decifrando momentos como quem desvenda um oráculo, muitas vezes com fino humor e leveza desconcertante.
 

Gretel, jornalista, mãe e ativista política. (Foto: divulgação)
 
Outra situação, além do filme, me fez pensar na fugacidade dos gesto e das palavras, na fragilidade da memória, do tempo, impenetrável  e incontrolável. Ver meus filhos crescerem e não aceitarem mais determinados cuidados,  rituais banais de amor, como um beijo de boa noite, uma passada de mão na cabeça, uma atenção para que não se resfriem, vistam casacos, luvas, cachecol, que se comportem como crianças – que não são mais – me fez sentir órfã de mim mesma.

A vida é feita de rituais, alguns muito importantes para mim. Colocar as crianças na cama, contar uma história, ir até a porta de manhã me despedir, desejar um bom dia. Quando meu filho me diz que não quer mais que eu faça isso, entendo, afinal, ele já está grande. Mas o vazio fica, o marco de uma bandeira fincada na memória, a partir de agora, ele se afasta, foge dos meus braços, mesmo que seja apenas uma fase, uma fatia de vida. Na realidade, passamos a vida inteira nos despedindo dos filhos – mas também dos amigos, dos parceiros, dos desejos, das ilusões, da gente mesmo.

Um dia jamais será como o outro, esse momento jamais se repetirá, as águas do rio nunca serão as mesmas. Tudo isso já sabemos, mas assistindo a história de amor entre Gretel e Malte, que se encontram, se perdem e voltam a se encontrar através da demência, vendo o processo de esquecimento, de perda da personalidade e das relações cuidadosamente construídas ao longo de 40 anos de casamento, é que percebi que, o que fica, é exatamente esses rituais banais de amor, esses gestos insignificantes. Mas essenciais.


O reencontro através da perda da memória. (Foto: divulgação) 
 
Gestos constituintes da nossa essência, além da representação de nós mesmos. As emoções formam camadas mais profundas, que não se apagam, sobrevivem ao esquecimento. Podemos nos esquecer de nomes, números, datas, mas não nos esquecemos das alegrias, das decepções, das paixões. Elas ficam gravadas e emergem diante de um rosto, uma música, uma fotografia.

Sentimentos bons e ruins, medos, frustrações, assim como carinho e cumplicidade, surgem por trás das máscaras, quando é chegada a hora. Por baixo dos anos, dias e horas que passam, fluem emoções, que não serão esquecidas, e, em algum momento, podem até transbordar. Principalmente se forem ignoradas, represadas durante muito tempo. Uma existência a negar as emoções, provoca, com o tempo, inundações.

Mais do que pensamos, somos o que sentimos – instantes frágeis, imperceptíveis, nuvens e tênues raios de luz no céu, momentos fugidios, efêmeros, que não se repetem. 

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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