Logo

A gente se leva na mala

07.01.2013 - 10:02:55
WhatsAppFacebookLinkedInX
Goiânia – Sempre achei fazer e desfazer malas tarefa difícil. Deve ser mal, não mala de família, porque a minha, a propósito, nunca teve malas, aqueles conjuntos que viajam de pai a filho; possuía no máximo umas sacolas pequenas e modestas para viagens curtas. Família de agricultores e pastores, que erraram das Minas Gerais até esta terra prometida e que aqui mesmo continuam errando por gerações. Gente plantada, destinada ao plantio, os tocos de umbigo enterrados debaixo da cruz.
 
Meu pai, quando se casou, levou consigo, não uma mala, mas uma daquelas antigas caixas de peroba rosa que até hoje conserva na fazenda, guardando velhas tralhas.  Faziam elas às vezes de mala e guarda-roupa. Minha mãe também teve sua caixa. Era costume na roça as moças casadoiras, não casadeiras como as de hoje, acumularem nelas o enxoval: não os linhos das famílias abastadas, não as toalhas de renda da Ilha da Madeira, mas uns panos de prato feitos de saco de farinha alvejados e adornados com bicos de crochê, umas pesadas e grosseiras cobertas de lã, uns travesseiros recheados de paina. Quando se casavam, iam de caixa e cuia para as fazendas, dar suspiros nada românticos à luz das lamparinas.
 
Não tive malas minhas até adulta idade, nem quando casei e mudei, nem quando mudei e descasei. Não lhes ligava importância. Nas viagens que fiz – não foram nem raras nem numerosas – peguei malas emprestadas da tia, da irmã, da amiga, até que um dia, pela primeira vez em mais de 30 anos, comprei malas com destino a uma viagem decisiva: a viagem para a maternidade, uma mala vermelha para mim, outra azul para o menino que eu tecia ao mundo.
 
  Essas foram as mais bonitas malas que já preparei na vida, as mais pacientemente planejadas e não, não foram difíceis, eu sabia tão minuciosamente o que levar, gastei nove meses pensando nisso. Viagem dentro de uma mesma cidade, mas como que imigração para um novo continente. Parodiando Xavier de Maistre, que viajou, em prisão domiciliar à roda de seu quarto: fiz a viagem à roda de um umbigo. Voltei dela diferente? Voltei outra? Nunca voltei? Talvez nunca se volte. Espero não ter deixado saudades. Não as sinto.
 
Tais precisão e método, porém, jamais se repetiram. Gostaria que malas se fizessem e desfizessem sozinhas. Sou o pior tipo de procrastinadora. Não sei prepará-las com previdente antecedência, deixo-as para o momento final, para promover melhor o caos. Adoto o seguinte sistema: primeiro ponho tudo o que quero levar – e é sempre muito, sempre demasiado. E assim, constatando que não cabe, vou retirando peça a peça, coisa a coisa, indecisa sobre o que é adequado ou inadequado, sobre o que é útil ou imprestável. No adiantado da véspera, na esperança ilusória de conciliar os ternos de roupas, sapatos e bolsas com a duração da estadia, acabo deixando de fora algo essencial. Já me ocorreu de não levar um pente ou escova sequer e ter que desfazer a maçaroca do cabelo com o garfo dos dedos.
 
Mas não quero falar nem da inveja para com os bem organizados, que preparam suas bagagens de férias com diligente antecedência, nem de meus excessos ou falta de objetividade. Quero falar antes da facilidade que algumas pessoas têm de fazer as malas no seu sentido mais simbólico, de se transportar, de promover mudanças, de carregar o essencial e descartar o desnecessário. Admiro os que têm esse desapego, os que decerto têm uns genes dominantes de marinheiro, que já viveram aqui, moraram ali, que acolá habitaram. Ali nasceram, em outro lugar se criaram, em outro casaram, em outro ainda decidiram viver, até que a vida dali os separe. Gente que diz não ter ou que de fato não tem raízes, ou que facilmente as desterra e as mantém vivas na água, no ar de outras cidades e até países. Raízes, aliás, que nem sempre são aquele cordão umbilical alentador, mas muitas vezes uns nervos secos de seiva, uns nós de medos, neuroses e culpas familiares.
 
Ah, essa gente que semeia filhos, amigos, mas se o vento da oportunidade sopra a favor ou se as impele uma grande necessidade de mudança, hasteia as velas da esperança e simplesmente parte. Quem me dera ser assim. Quem me dera transportar-me com semelhante facilidade. Mas meus desejos e canhestros ensaios de partir sempre acabaram abortados por aquela verdade incômoda, mas paradoxalmente cômoda porque covarde que se revelou a mim, até nas curtas viagens: a gente sempre se leva na mala, muitas vezes pesada, muitas vezes sem alça. Se ao partir, terei que me levar comigo com todo o peso (dúvidas, culpas, medos), melhor ficar pelo aqui mesmo que já é conhecido. 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]