Dizem que um livro pode ser um amigo, às vezes de forma bem concreta e real. Como sempre, o livro chegou às minhas mãos no momento certo e o li com a mesma emoção de um primeiro Rosa ou Clarice, economizando as páginas, dando um passo para frente e dois para trás, querendo prolongar o prazer das palavras precisas, das pausas, das vírgulas e pontos soltos na imprecisão de uma cidade vasta e dura como São Paulo.
Revelando uma fotografia nítida e ao mesmo tempo caleidoscópica da cidade, ele expõe em mínimos detalhes o dia-a-dia de seus habitantes, seus personagens, em sua maioria vivendo à margem da vida, esquecidos, abandonados, marginais da existência, lutando por uma sobrevivência incerta e escassa.
Apesar de publicado em 2001, leio ‘Eles eram muito cavalos’, de Luiz Ruffato, apenas agora, em função do seu lançamento em alemão. O título “não tem nenhuma relação com o conteúdo do livro, mas é inspirado em uma poesia de Cecília Meireles que fala dos cavalos que morrem na guerra, lutando dos dois lados, e que ninguém sabe seu nome ou sua origem”, explica o autor a um jornalista da rádio suíça.
Tive também uma rápida, mas agradável, conversa com Luiz Ruffato, na última Feira de livros de Frankfurt e a descrição que fez de sua obra me impressionou – um romance sem enredo, sem personagens principais, sem dramaturgia clara, sem início-meio-fim, sem fio condutor, “aliás ele poderia ser publicado como um calendário, com suas folhas soltas e cada pessoa poderia lê-lo da forma que achasse melhor”. No meio da conversa, aparece seu editor colombiano, que, entre sorrisos, confirma ter invertido a ordem dos capítulos (ou cenas) para ajudar o leitor a se orientar melhor sem perder os momentos mais poéticos. “Virou um outro livro, que legal!”, exclama Ruffato. Surpreendo-me com tamanha falta de vaidade, coisa rara entre escritores em geral.
No nosso segundo encontro, já em Zurique, continuo a surpreender-me com a simplicidade e desapego demonstrados ao apresentar ‘Es waren viele Pferde’, para o público suíço. Filho do segundo pipoqueiro de Cataguazes, como diz – “não o que ficava ao lado do cinema, mas ao lado da igreja, onde o movimento era menor”, Luiz diverte seus leitores ao inverter a ordem do jogo, buscando proximidade e troca, ao invés de aplausos.
“Eu não sou escritor, isso é uma bobagem”, diz, não sem uma leve coqueteria, sabendo provocar espanto. Mesmo assim, sua humildade comove e confunde, apesar de ser tão coerente com a obra. Recentemente publicou uma coletânea de textos de vários autores chamada “Você sabe com quem está falando?” expondo ao ridículo a arrogância de uma burguesia preconceituosa e racista brasileira.
Ao ser questionado, se seu trabalho é um projeto literário ou social, responde – “é político, na medida em que política é transformação, não um partido ou uma ideologia, mas um conceito mais amplo que gera reflexão. Se eu não acreditasse que literatura serve para alguma coisa, para mudar as pessoas, mudar a sociedade, intervir, eu não escreveria. Mesmo sendo um pensamento romântico, penso que, se ao ler um livro, o leitor descobrir uma verdade – não a verdade – e ela incomodar, por concordar ou discordar, ele já cumpriu o seu papel.” Acredito definitivamente no projeto político de Luiz, quando afirma também não ter carro, celular, facebook ou twitter.
Descrevendo impunemente a miséria das ruas de São Paulo, ele o faz de maneira tão precisa que é impossível não seguir seu olhar. Mas é um olhar sereno, que em nenhum momento se torna agressivo ou revoltado. Nem mesmo quando fala sobre o traficante de armas que planeja revelar ao filho de 12 anos, no dia do seu aniversário, a origem do dinheiro para suas roupas, jogos, viagens, carros de luxo. Ou quando descreve uma roda de amigos de classe-média, que encontra-se anualmente entre copos de cerveja, desilusões, divórcios e adormecidos idealismos de esquerda. Seu olhar reflete compreensão e , por que não dizer, compaixão – com o porteiro de prédio desempregado, o ladrãozinho que precisa de um presente pra mãe, o aposentado que mora de favor ou o índio bêbado que perde seu único amigo.

Uma cena no trágico painel que pinta sobre São Paulo me marcou especialmente – Noite , a história de uma pequena vendedora de rua. “Em minha direção, a menina, aposto nem quinze anos ainda. O cabelo espichado henê, rabo-de-cavalo amansado, elástico vermelho. Vestidinho branco, asseadíssimo, pequenas flores alto-relevo bordadas, altura do peito. Os pés, sandália de plástico transparente, oferece dropes mistos a um e outro, lindo sorriso alvo. Já almoçou?, pergunto.” Depois de levá-la para comer alguma coisa no Habib’s – “Coma, digo, O que quiser. Ela devora quibes (dois), esfirras (duas), beirute (um), pizza (três pedaços)”, o narrador despede-se , “Vai embora pra sua casa, vai, (…) Ela caminha criança pela calçada de pedras-portuguesas”, e vendo-a afastar-se na noite, oferecendo dropes aos passantes em meio a mendigos bêbados, cachorros magros, sacos de lixo, motoristas de taxi, ele pergunta-se – “não vai passar nunca esse mal-estar, nunca essa sensação de inutilidade”.
Nesse exato momento, escuto a voz do autor, o sentimento que deu origem ao livro, a angústia da impotência perante o sofrimento, a dor dos desiguais. Esse desconforto, que também é o meu e dificilmente se cala. Nem deveria.