Goiânia – O bom e velho barraco consiste em promover uma discussão sobre assuntos de interesse privado em local preferencialmente público, esparramar-se e não se deixar juntar, elevando o tom de voz para desabar em palavras de baixo calão.
Convencionou-se dizer que nós, mulheres, somos as mais barraqueiras. Ciumentas e competitivas por natureza, volta e meia acabaríamos enredadas em bate-bocas de lavadeira quando o assunto “meu homem” estivesse envolvido.
Esquece-se a convenção, porém, de perceber que as brigas de homens, no trânsito, nos estádios, nos bares e boates, nada mais são do que barracos legítimos. Ou será que chegar as vias de fato goza de diferente status só porque se trata de conduta masculina? Constituem por acaso questão de honra os chiliques dos meninos?
Injustiça maior se considerarmos que nos quebra-paus femininos não se costuma quebrar nada além de algumas unhas postiças e se arrancar alguns tufos de aplique, ao passo que os masculinos acabam muitas vezes em quebradeira de narizes, queixos e costelas, quando não nas delegacias ou nos gavetões do IML.
O fato é que nos tempos de novas tecnologias pode-se descer do salto, chutar o pau da barraca, rodar a baiana, de modo seguro. Os e-mails, os blogs, as redes sociais estão aí para isso, para que se possa enfiar o dedo no olho sem tirá-lo do teclado.
Dos arranca-rabos de família aos arranca-chifres dos casais, das namoradas enciumadas que difamam as rivais com alcunhas animais aos ex-amantes vingativos que publicam as imagens de suas ex-amadas, registradas quando no exibicionismo inconsequente da paixão elas se deixaram fotografar ninfas nuas, tornando-se agora umas piranhas e vacas peladas, tudo são barracos, virtuais, mas nem por isso menos ruidosos, espalhafatosos e doloridos.
A internet, aliás, se democratizou o exibicionismo na felicidade, também o fez com as situações de raiva e sofrimento. O barraco nunca foi tão democrático. Ninguém mais quer discutir a relação reservadamente. Preciso mudar rapidamente meu status de relacionamento nas redes e promover um debate sobre o término de minha relação com B. Ninguém mais quer sofrer quietinho no seu canto. Promovo grandes eventos de desespero e convido todos os meus amigos a comparecer à minha dor. Em troca, recebo apoio e solidariedade, como presentes ofertados sob o fino embrulho das frases.
Por sorte, em tempos de escândalos diários na política, os barracos virtuais, assim como os reais, são esquecidos rapidamente. A maioria não tem conseqüências. Uns poucos desandam em processos por calúnia e difamação. O Brasil já não se escandaliza. Nada mais nos faz corar. Elegemos até musas para nossas CPIs.
Restam, portanto, passado pouquíssimo tempo do bate-boca, do diz-que-me-diz, além de algumas feridas na autoestima, um vago sentimento de vergonha rondando os envolvidos. Vago, mas ainda assim uma mancha no grande telhado de vidro do ciberespaço que um dia pode ser evocada. Diferente dos reais, que muito raramente são filmados ou fotografados, barracos virtuais deixam rastros. Por mais que, esvaída a raiva, possamos dar um delete, há sempre algum ser vigilante por aí a dar um print screen nas tolices que postamos.
Como todos em algum momento da vida estamos sujeitos a rompantes de ira e destempero, precisamos redobrar os cuidados com algumas situações. Eu por exemplo, toda vez que bebo, costumo orar: “Pai, afasta de mim esse cálice e esse celular, exatamente nessa ordem”. Outra alternativa é, não podendo a gente conter a vontade de mandar um recado àquele desafeto, em vez de partir para a ofensa direta, recorrer às indiretas, às antigas carapuças ou aos tapas com luva de pelica. E a vantagem é que as carapuças nas redes sociais principalmente são unissex e tamanho único, vestem dos minúsculos e machucados egos aos mais megalomaníacos. O risco é a gente mirar no que quer e acertar no que não quer, angariar novos desafetos, tocando-lhes a ferida, provocar a ira de um desses paranoicos que acham que tudo é com eles. Na dúvida, façamos versos, que são inofensivos: um modo de voar contra a corrente, sem topar de frente com toda gente.