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Como se livrar de um velho amigo

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13.09.2012 - 11:55:38
Goiânia – Quando Isabel, já um pouco coroa, num lance de sorte, encontrou sua cara metade, percebeu ser a hora tão temida, mas inadiável, de se livrar de um velho amigo. Velho é antes força de expressão, porque ele estava ainda em excelente estado, apto a dar no couro, a fornecer bom caldo. Na força do homem, poderia bem se dizer a respeito dele, não fosse essa também uma expressão inexata, visto que ele constituía não um ser em sua totalidade, mas apenas uma parte, uma espécie de metonímia anatômica. 
 
Fazia já muitos anos que ela o comprara, para consolar-se de sua solidão, cansada do “amor sem companheiro” (termo tão bem empregado pela escritora, sua xará, Isabel Allende), entediada pela rotina de amar a si mesma e ao travesseiro. No entanto, acabara por usá-lo pouco, tão cuidadosamente era preciso resguardá-lo da indiscrição da mãe e das irmãs, da cobiça das empregadas, cães farejadores que lhe reviravam os armários em busca de roupas a serem emprestadas, de segredos e dinheiros. 
 
Teve que fabricar um fundo falso em uma gaveta para abrigá-lo, e toda vez que precisava amá-lo, nas urgências do desejo, tinha certo trabalho em remover a proteção da tábua. Terminou por desistir de recorrer à rigidez de seus carinhos. Vibrava sozinha mesmo.
 
Embora inerte e inútil, ele se tornou o objeto de alguns dos seus piores pesadelos. Por muitas noites, Isabel sonhara que tinha partido para a terra dos pés juntos, em consequência de doença ou acidente fulminantes, e que sua mãe e irmãs acorriam a desencavar os seus pertences, exumando ali o pobre amigo oculto, o testemunho terrível não tanto da miséria cinzenta de sua solidão, que ninguém desconhecia, mas da lava borbulhante de um vulcão insuspeito. Uma vez morta, não deveria inquietar-se com os julgamentos alheios. No entanto, criada sob a vigília de uma moral rigorosa, não queria ser vista como uma defunta indecorosa.
 
E agora que ela e Gabriel iam finalmente juntar as escovas elétricas, temia que também ele descobrisse esse pedaço de seu passado, que se enciumasse, que quisesse compará-lo – oh, intrigante vaidade masculina – à sua própria anatomia. Comparação em que certamente sairia humilhado, uma vez que o amigo tinha uma plástica humanamente impossível de tão perfeita, até com a protuberância das veias, e ela, ao escolhê-lo, havia pecado por ter o olho maior que a barriga.

A primeira ideia foi descartá-lo na lixeira. Mas e se seus vizinhos de edifício, zelosos pela vida alheia e pela reciclagem do lixo, o encontrassem? Aliás, deveria colocá-lo no recipiente de recicláveis ou orgânicos? No primeiro caso, ele iria cair nas mãos dos que hoje trabalham nas cooperativas de separação do lixo. Já podia vê-lo objeto de escárnio, emprestado a vis finalidades, convertido a escultura, a enfeite na estante da sala, a equipamento de massagem para os pés.
 

Não, não desejava isso, como não desejava que ninguém usasse alguma de suas velhas calcinhas puídas ou mesmo lhes desse qualquer outra indigna serventia. Era um velho recato, já muito bem cantado até nas velhas marchinhas de carnaval: “eu mato, eu mato quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato”.
Descartado entre orgânicos e outros matérias não-recicláveis, havia sempre o risco de que, uma vez coletado pelos garis e atirado ao caminhão de lixo, o saco estourasse, caindo no meio do asfalto, cena terrível, um membro amputado assomando em meio a restos de carne e absorventes usados.
 
E se, audaciosa, ela o atirasse da janela do carro, quando estivesse a caminho do trabalho?  E o risco de que ele ricocheteasse, atingindo algum transeunte no meio da testa? E se o pintasse de amarelo e o escondesse sob uma penca de bananas no supermercado?  Em todas as situações – parecia-lhe – ele seria encontrado, a não ser, claro, que ela lhe fizesse repousar novamente no fundo, mas dessa vez não num fundo falso, antes numa sepultura digna onde deveriam se guardar todos os falecidos amores do passado. Era isso!
 
Chegou a dirigir-se a um terreno baldio, depois a um pasto, nos arredores da cidade. Mas também ali sempre parecia haver alguém por perto, a espreitá-la, como se ela desovasse um presunto. E se um cachorro revirasse a terra, acreditando tratar-se de um osso? Um cachorro! Agora sim, era essa a saída!
 
Havia já na cidade locais onde se podia, mediante pagamento, sepultar os melhores amigos. Telefonou para um desses cemitérios de animais, reservou-lhe uns poucos metros de terra. Era animal de pequeno porte. Ajeitou-o numa caixa de sapatos e foi até lá, aliviada por finalmente desocupar-se dos despojos daquele amor tão difícil. Quando se afastava, porém, já tendo o coveiro atirado a última pá de terra, deixando-a a sós para a despedida, ouviu um ruído, uma espécie de zumbido, como de uma escova ou barbeador elétricos, vindo de dentro do esquife. Droga! Tinha esquecido de retirar as pilhas. 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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