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(Nem sempre) o que é bom aparece e o que aparece é bom

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18.07.2022 - 16:04:42
Eu ainda me assusto um pouco com o ritmo e a velocidade das informações de hoje em dia. Cresci lendo manchetes de jornais sobre fatos que aconteceram há pelo menos 24 horas. Isso ainda era considerado rápido.

Um dia depois, atualmente, o assunto já está frio e remoído de inúmeras formas diferentes pela legião de comentaristas e analistas autodeclarados da Internet. Não vou ser tão pessimista: muitas discussões que vemos por aí realmente são necessárias e fizeram com que evoluíssemos como sociedade.

No entanto, nem sempre o que é bom aparece e o que aparece é bom. Esta frase foi retirada do livro “A sociedade do espetáculo”, escrito pelo francês Guy Debord nos anos 1960. 

A parte do “nem sempre” é por minha conta. Para Debord, a sociedade do espetáculo que vivemos pensa exatamente assim: “o que é bom aparece, o que aparece é bom”. Não vou me meter a analisar essa crítica sobre o consumo e a sociedade.

Quero, contudo, apontar dois casos recentes que dão razão a esta frase de Debord e que infelizmente destruíram para sempre a vida de mulheres. O primeiro é o do morador de rua Givaldo Alves. 

Em um curto espaço de tempo, o homem de 48 anos passou de pedinte no Distrito Federal para influenciador digital com quase 500 mil seguidores no Instagram. Sua façanha? Ter tido relações sexuais com uma mulher casada, ter apanhado do marido dela e contado vantagem da situação eloquentemente em uma entrevista.

A mulher, que sofre de transtorno afetivo bipolar, ficou internada durante um mês, e o marido, por conta da repercussão negativa do caso, fechou sua empresa e ficou meses desempregado.

Enquanto isso, o “mendigo do amor” – como ficou conhecido Givaldo – foi visto em apartamentos e carros que jamais poderia adquirir com dinheiro de esmola em Planaltina (DF). Até mesmo um estimulante sexual foi comercializado tendo Givaldo como garoto-propaganda.

Em 2005, Givaldo foi condenado pelos artigos 155 e 159 do Código Penal, isto é, furto qualificado e extorsão mediante sequestro, respectivamente. Passou oito anos preso. 

Como advogado criminal, acredito que ele cumpriu sua pena e, se arrependido, não deve mais ser julgado por conta desses crimes pela sociedade. Ele até voltou à mendicância depois de alegar não suportar a pressão do cancelamento. 

Aparentemente, crimes de 20 anos atrás são piores que aproveitar-se de uma mulher mentalmente enferma e colher louros financeiros disso. Qual é o parâmetro moral aqui?

O outro caso recente é o do anestesista carioca Giovanni Quintella Bezerra. No começo de julho, o médico foi preso após ser flagrado abusando sexualmente de uma mulher grávida dopada. Depois da exposição, seis outras mulheres também se pronunciaram alegando terem sofrido o mesmo tipo de violência.

Algo que chamou a atenção foi o engajamento do perfil de Bezerra no Instagram ter crescido significativamente. De dois mil seguidores, o denunciado passou a ter quase 12 mil perfis o acompanhando. Tudo em menos de dois dias.

Sabendo de seu nome de usuário, pesquisei eu mesmo por ele e, para minha surpresa, encontro outros 11 perfis falsos tentando se passar por Giovanni. Para que propósito?

Sei que muita gente prefere não depender dos noticiários tradicionais e querer procurar por conta própria a fonte dos fatos, mas vi algumas pessoas, por mais inescrupuloso que seja, elogiando e apoiando o abusador.

Um dos momentos mais mágicos da vida de uma mulher foi completamente arruinado. Arruinado, explorado e legitimado.

Não acho que dê para fugir da espetacularização que nossa sociedade se tornou, mas dá sim para escolher quem vai se apresentar neste palco. Não só tambor, mas estamos tocando uma orquestra inteira para um punhado de doidos dançarem.

*David Soares é advogado em Direito Criminal, sócio do escritório Soares e Melo Adv Assiciados; pós-graduado em Direito Público e Privado, em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, em Direito Penal e Processo Penal; ex-conselheiro seccional (2016-2018), ex-vice-presidente da Casag – Caixa de Assistência da Advocacia de Goiás (2019-2021), ex-presidente da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB/GO (2017-2021), ex-presidente da Comissão Especial de Combate a Corrupção Eleitoral da OAB/GO; atualmente é presidente da Anacrim-GO – Associação Nacional da Advocacia Criminal; conselheiro federal da OAB Nacional; secretário da comissão nacional de defesa das prerrogativas; e professor.
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por David Soares

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