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Hardware & Software

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14.07.2022 - 10:31:28

Flávio Gikovate foi um grande psiquiatra brasileiro e com sua linguagem simples ensinou muitas coisas interessantes.  Uma delas foi que todos nós, como humanos, possuímos um hardware bem similar uns dos outros: nosso corpo físico. Nosso organismo levou milênios para adquirir a forma atual através de mecanismos sofisticados de sobrevivência e comunicação. Quem já teve a curiosidade de ver como funciona nosso aparelho fonador se maravilha com a função dos lábios, dentes, língua, laringe e nariz, todos trabalhando juntos para que o ser humano fale e expresse seus pensamentos e sentimentos.
 
No entanto, Gikovate nos alerta que nosso software é único. Até gêmeos univitelinos não possuem o mesmo sistema interno. Assim, é comum observarmos que nem nosso corpo, nem nossa educação nos definem. Trazemos algo mais a que ele denominou software mas lembra bem que muitas religiões e filosofias o definem como a alma.
 
Dessa forma, embora tenhamos um corpo físico bem semelhante uns dos outros, nosso sistema interno é absolutamente único.
 
O problema é que, ao lidarmos uns com os outros, presumimos que nosso semelhante em termos de hardware possui um sistema interno parecido com o nosso. Eis o grave engano. Cada um possui um programa único de interpretação dos fatos, palavras e sentimentos. De nada adianta supormos que o outro irá entender ou fazer algo de acordo com o que pensamos ou sentimos (nosso sistema interno), pois na verdade ele somente vai processar de acordo com o seu próprio sistema interpretativo.
 
A solução, segundo Gikovate, é sermos hackers. Entrar no sistema interno do outro com respeito e delicadeza para depois contar para ele o que viu, como funciona e onde estão os entraves. Atualmente, a boa companhia não é mais aquela a respeito de quem nosso coração dispara, mas, sobretudo, aqueles que sabem desarmar os gatilhos emocionais a que nos condicionamos ao longo da vida e sequer nos damos conta, como aquele cachorro que corre atrás do próprio rabo e não tem consciência do processo repetitivo em que se inseriu.
 
Ao entrar no programa interno de alguém é preciso ir aos poucos, acendendo a luz de cada cômodo, sem esbarrar, nem detonar memórias adormecidas de quem aprendeu a anestesiar algumas delas para menos sofrer.
 
A vida do outro e  seu sistema de processamento único de vivências e lembranças são templos sagrados que, quando penetrados, precisam ser respeitados. Há dificuldades que estruturam toda uma vida. Como um jogo de varetas que deve ser praticado devagar e com atenção, pois algumas delas colocam tudo a perder.
 
Entrar no sistema do outro para contar como funciona, auxiliando-o a desarmar gatilhos e não para explorá-lo e manipulá-lo diante do conhecimento das suas fraquezas!
 
Utopia? Não, lições do século XXI para aqueles que tem olhos de ver, ouvidos de ouvir e sensibilidade para adentrar na programação do outro sem utilizar essas habilidades em proveito próprio.
 

*Melina Lobo é conselheira de administração e consultiva de empresas familiares de capital fechado

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por Melina Lobo

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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