Aquele sujeito que você vê chegar todo animado à balada, copo na mão, dizendo que vai pegar geral, extasiado com o volume de mulherada e que, ao final da noite, você vê sair quase carregado pelos amigos, aos quais faz juras de amor infinito – é quase certo que se trata de um descasado. Aquela mulher deslocada e não descolada, meio desequilibrada no salto alto, com olhos ávidos por companhia, ar de quem não sabe se escolheu a roupa certa para a ocasião, que enrubesce toda vez que um cara a encara, que rápido se desvencilha quando lhe tocam o braço e que vai embora com o rímel borrado – não é muito arriscado dizer que acabou de se separar a pobre coitada.
São os recém-ingressos ou recém-regressos à louca selva da solteirice. Nos tempos em que estiveram a salvo, na segura gaiola da monogamia, desaprenderam a arte e os reveses da caça e agora, devolvidos à sua condição primitiva de bichos frágeis, precisam reaprender a se virar sozinhos, na natureza e no colchão.
Os descasados bem mereciam um programa social do governo que lhes facilitasse a inclusão. São uma espécie de ex-detentos das relações amorosas, sedentos de liberdade, mas também de carinho, que tentam a todo custo se reintegrar à sociedade, mas que só encontram à sua frente preconceito e incompreensão. Ninguém quer lhes dar a mão para uma nova oportunidade. No casamento foram reeducandos deseducados para serem livres.
São vistos com precaução em todos os meios em que tentam se inserir. Para começar, são expulsos dos antigos círculos de amizade, que em geral se constituíam de casais com os quais costumavam fazer programinhas pacatos, saídas nas noites de sábado para o novo restaurante; churrasco e pizza aos domingos; casamentos; festinhas de aniversário; almoços de família; chás de bebê, de casa nova, disso e daquilo; programas que só são possíveis aos pares ou com o adereço de uma meia dúzia de meninos teimosos e bebês chorões.
E eis que de repente, quando se anuncia a separação, após um período curtíssimo de rápidas manifestações de solidariedade, parecem ter recebido na testa a suástica do sinistro e não são mais convidados para nada, mesmo para os programas tediosos que lhes aborreciam tanto, mas que agora parecem dourados com a cor da felicidade perdida. São banidos da vida social, vivenciam com perplexidade a inopinada exclusão.
Mas a explicação para tal ostracismo é bem simples. Casados já não querem ter ao seu lado o oposto contrastante da solteirice, no que ela tem de abominável e tentador. Os homens comprometidos, mesmo que ainda prezem e secretamente invejem o amigo recém-liberto, cedem aos repuxos e muxoxos das esposas, que enxergam no desertor uma ameaça terrível, antevendo relatos sobre um oásis excitante de mulheres desesperadas e disponíveis. Em nome da paz doméstica, não se atrevem a desobedecer dona onça e andar com tal companhia.
As casadas, por sua vez, que antes mantinham com a descasada amizade de unha e cutícula, passam a olhá-la com reserva, afinal ela emagreceu uns 10 quilos e mudou o cabelo, tornando-se objeto de cobiça para seus desinteressantes maridos barrigudinhos, convertidos de repente em tanquinhos atraentes e sedutores. Resolvem não correr o risco e sutilmente – com a delicadeza que bem caracteriza a alma feminina – vão desconvidando a querida que andou mexendo ou alourando, não só os fios da cabeça, mas também o comprimento da saia, isso pra não falar da seriedade e do juízo.
Os amigos solteiros, no caso específico do universo masculino, esses, a princípio, acolhem os descasados festivamente, como à lei da abolição, mas logo se cansam daquele ser desatualizado, que não acompanhou as mudanças dos lugares da moda na balada e muito menos as gírias. Ademais, os solteiros, muitas vezes mais jovens, não têm lá muito saco para suportar no seu time aquele tio. (Ainda se usa dizer isso: saco, time, tio?) Já entre as mulheres, a devolução de outra fêmea da espécie à solteirice acaba significando mais uma concorrente no já tão competitivo e recessivo mercado do amor e do compromisso, com o agravante de que, já tendo ela tido sua chance de subir ao altar, deveria voltar era lá para o final da fila.
Mais grave a situação ainda quando os descasados e principalmente as descasadas vêm com filhos. Isso porque para eles já não existe mais a liberdade de ir e vir, e tampouco a capacidade de improviso. Seus programas precisam ser realmente programados com antecedência, dependendo da movimentada agenda de seus rebentos, das babás cada vez mais raras e caras, dos horários confusos de guarda, na maioria das vezes não compartilhada e frequentemente controvertida. E convenhamos que não há nada mais entediante para os que não têm filhos do que aquelas longas lengas-lengas sobre os preços e os dilemas da educação infantil.
Eis que então restam segregados, isolados, excluídos, solitários, deprimidos. Não lhes cabe senão conformar-se à sua condição intermediária e híbrida, pobres meninos ricos, sábados à noite sozinhos em casa, a TV ligada para que uma voz humana seja ouvida, a tela do computador exibindo o endereço daquele novo site de relacionamentos onde, felizmente, seres como eles são maioria. E eis também por que, após um primeiro divórcio – provam as estatísticas – graças às maravilhas das novas tecnologias, céleres, eles tratam de se casar novamente, sendo de novo bem recebidos nas salas de visitas.