Logo

Literatura e inclusão em concurso da Seduc de Goiás

WhatsAppFacebookLinkedInX
16.12.2021 - 16:32:48

A poesia e a música costumam dialogar de maneira surpreendente. Em 1947, o poeta modernista Manuel Bandeira publicava o poema “O Bicho”. Nele se lê estes trágicos versos: “Vi ontem um bicho/Na imundície do pátio/Catando comida entre os detritos./Quando achava alguma coisa,/Não examinava nem cheirava:/Engolia com voracidade.//O bicho não era um cão,/Não era um gato,/Não era um rato.//O bicho, meu Deus, era um homem”. Já na canção de 1986, intitulada “Revanche”, o roqueiro Lobão canta: “A favela é a nova senzala/Correntes da velha tribo/ (…) Hoje em dia somos todos escravos/E quem é que vai pagar por isso?”.

Ampliando o leque cultural, a poesia e a letra de música também dialogam com outros gêneros literários, textuais e manifestações artísticas, dos quais o diário constitui um exemplo. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi designado para fazer uma reportagem sobre a favela do Canindé, na cidade de São Paulo. Em seu primeiro contato com os moradores da região, conheceu Carolina Maria de Jesus, uma singular habitante daquele local, que tinha uma relação única com o papel, pois tirava seu parco sustento da atividade de catá-lo nas ruas, enquanto nas poucas horas de repouso colocava nele, através da escrita, toda as agruras e reflexões que a miserabilidade econômica e social é capaz de proporcionar.

Do encontro de Dantas e Carolina de Jesus nasceu o livro “Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada”, verdadeiro manifesto de dignidade humana em meio à mais absoluta indignidade a que um indivíduo pode ser forçado para sua subsistência, indicando como Lobão foi preciso em sua letra. Publicado em primeira edição no ano de 1960, “Quarto de Despejo…” resultou da compilação por parte do jornalista de diversos cadernos em rotas condições que a autora cedeu a ele para que fossem editados. Os diários de Carolina, negra e favelada, remetem em diversas de suas passagens ao poema de Bandeira e à musicalidade de Lobão.
           
Se a favela é a nova senzala, conforme consta em “Revanche”, sua população é constituída majoritariamente dos descendentes dos escravos, a população negra e parda do Brasil, além dos migrantes nordestinos que fogem da seca. “Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada” se tornou sucesso nacional e internacional. Era, como observa Audálio Dantas, a voz da própria favela, termo atualmente em desuso, substituído aos poucos por comunidade. A voz de Carolina Maria de Jesus em seu livro representou a voz de todas as comunidades brasileiras congêneres.

Um dos temas recorrentes da obra é a fome, que Carolina de Jesus descreve como sendo de cor amarela; quando a fome é intensa, tudo fica amarelo. Daí o ser humano se torna bicho, como registrou Manuel Bandeira em seu poema. Come com avidez qualquer coisa, mesmo que catada no lixo. A escritora registra, na data de 25 de dezembro de seu diário, que seus filhos passaram mal por comerem melancia “deturpada” que um caminhão despejou na favela, como se ali fosse o local adequado para isso.
           
Ainda sobre a fome, na data de 30 de junho escreveu Carolina Maria de Jesus em seu diário: “Aquele preto que cata verdura no Mercado veio vender-me umas batatas murchas e brotadas. Olhando-as, vi que ninguém ia comprar. Pensei: este pobre deve ter vagado inutilmente sem conseguir dinheiro para a refeição. Perguntei-lhe se queria comida. – Quero! Dirigiu-me um olhar tão terno como se estivesse olhando uma santa. Esquentei macarrão, bofe e torresmo para ele”.

Além da onipresença da fome nos relatos, “Quarto de Despejo…” apresenta outras temáticas comuns ao universo da favela, verdadeiro microcosmo de uma realidade social e econômica mais ampla de um Brasil sofrido e injusto. Neste contexto, as questões raciais, as migratórias, a violência e os vícios representam tematizações recorrentes ao longo da narrativa diária da autora. Na mesma “Revanche”, Lobão cantava: “O café, o cigarro, um trago/Tudo isso não é vício/São companheiros da solidão”.

Acerca da questão racial registra a escritora, na data de 16 de junho, que adora seu cabelo, mais obediente que o dos brancos; adora a sua pele negra, concluindo com uma perspectiva de religiosidade possivelmente adquirida nas ideias espíritas com que trava conhecimento, conforme a nota do dia 23 de julho: “Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta”.

Contra o panorama descrito em seu diário, que infelizmente ainda perdura nos dias de hoje, mesmo que a obra tenha sido publicada nos já distantes anos 60 do último século, a educação emerge como instrumento essencial no combate tanto à miséria quanto ao preconceito que invariavelmente a acompanha.
 
O dezembro de Carolina
Carolina de Jesus, seu diário, sua vida e suas lutas representam uma das diversas abordagens pedagógicas desenvolvidas ao longo de oito meses pela Secretaria de Educação de Goiás e pelo Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte no cronograma do Concurso Literário Vozes da Literatura Negra Brasileira. O evento é mais um esforço da educação pública goiana no sentido da inclusão racial, de que também constitui exemplo o lançamento do primeiro volume de obra em formato e-book que dá forma à série “As Contribuições da Diáspora Africana na Cultura Brasileira”, que trabalha a problemática do racismo estrutural na sociedade como um todo.

O concurso da educação pública goiana é mais uma etapa de atividades contínuas pela inclusão em todos os níveis e abrangeu todas as categorias e faixas etárias da educação básica goiana: alfabetização, infanto, infanto-juvenil e juvenil. No quesito gêneros literários, foram trabalhados e produzidos materiais em parlenda, bilhete, trova, crônica narrativa, música, cordel, crônica humorística e crônica policial. A partir desses gêneros textuais e literários, peças e produções escritas foram produzidas num cronograma que se desenvolveu de abril a dezembro de 2021 e que envolveu um número expressivo de educadores e alunos.

Além de Carolina de Jesus, ao longo dos meses do ano os alunos goianos tiveram um contato mais intenso com nomes, obras e intersemioses que apresentam e reforçam a importância que as vozes negras assumem na literatura, no teatro, no cinema, na música; enfim, na sociedade. Dentre os nomes trabalhados com os educandos goianos, sob a orientação geral da arte-educadora e mestre em Educação, professora Mara Veloso, estão obras e autores como “Guerreiros Nagô”, “A Menina que Bordava Bilhetes” (Lenice Gomes), “Trovas Burlescas” (Getulino de Luiz Gama), “Quem Tem Crespo É Rainha” (Jarid Arraes), crônicas de Machado de Assis, “Ó Abre Alas”, “Corta-Jaca” e “Atraente” (Chiquinha Gonzaga), “A Noite do Meu Bem” (Dolores Duran) e “Vida Urbana” (Lima Barreto).

Em seu diário alusivo ao mês de dezembro, Carolina Maria de Jesus anota as dificuldades e esperanças que permeiam a vida na favela no mês consagrado ao nascimento de Jesus Cristo. No dia 16, ela registra com repugnância um caso de adultério que testemunhou. No dia 18, anota a preocupação de uma moradora que não queria fazer parte de seu livro, pois fora vítima de violência contra a mulher, tendo de fugir nua pelas ruas da favela.

No dia 17, no entanto, o diário está em branco. Não há anotação. Contudo, numa instigante sincronia junguiana, o resultado final e as comemorações em torno do evento literário promovido pela Secretaria de Educação de Goiás ocorrerão exatamente no próximo dia 17 de dezembro. O local do evento será o Teatro Goiânia, onde leituras, peças e performances artísticas e educativas serão apresentadas ao público, que deve comparecer usando máscaras em atendimento aos protocolos sanitários de combate à covid-19. A entrada é franca.

Fica, pois, o singular registro, como uma espécie de homenagem póstuma a essa extraordinária representante das muitas e importantes vozes negras na literatura e na cultura brasileira. Os arte-educadores goianos, a Seduc-GO e o governo goiano demonstram, assim, com esse projeto literário, a importância da educação para que valores mais justos e democráticos sejam cada vez mais incorporados à sociedade.

*Gismair Martins Teixeira é pós-Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Douto em Letras pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gismair Martins Teixeira

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]