Logo

Quem tem um sonho não dança

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.08.2011 - 19:25:14

O único absorvente que Beth Fernandes ganhou foi direto para o lixo. A professora, que, literalmente, quis fazer uma graça, foi a autora da surpresinha. O apetrecho feminino foi dado para sacanear com ela por causa de uma brincadeira feita em sala de aula. Toda criança já respondeu ou o fará até o fim da infância à velha pergunta: "O que você vai ser quando crescer?". "Bombeiro", disse um. "Médico", respondeu outro. "Professora".

"Eu vou ser mulher quando crescer", falou Beth, aos sete anos, à sala, em resposta ao questionamento da docente. "Você nunca vai ser mulher", fazia questão de frisar, talvez por implicância, talvez por falta de formação para lidar com alunos de diferentes orientações. Este fato fez com que Beth mudasse de escola. Junto com a irmã, foi transferida pelos pais para uma instituição de ensino católica.

"Eu nunca tive professora que desenhasse estrelinha ou pintasse patinho no meu caderno, que me desse parabéns. Minhas professoras sempre foram muito secas comigo". Na nova escola, Beth teve de passar por uma cirurgia de miopia. Apesar de não enxergar nada de longe, as professoras jamais permitiram que ela se sentasse na primeira fileira. Contra a própria vontade, sempre lhe era determinado o famoso fundão, o qual detestava, já que não era de muitos amigos.

O recreio não era sinal de diversão tampouco de entrosamento com os coleguinhas. Do intervalo, Beth só guarda boas lembranças da merenda escolar. "Eu adorava o macarrão grosso, a sardinha, a farofinha, o feijão, a mandioca com mel…". Final da aula também não era momento para ficar de papo na porta da escola. Mal encerrava o expediente e ela já saía correndo de volta para casa.

Em certa ocasião, um colega de sala da mesma idade, ainda com menos de dez anos, tentou aproximar-se de Beth. Ele sempre levava cartões e calendários de mulheres peladas. "Todo machinho", adorava chamá-la para conversar. Não teve, no entanto, sucesso no intento. Beth, avessa às diversões do amigo de escola, não lhe dava muito crédito. Como ele percebeu que não conseguiria mesmo a amizade da colega, começou a implicá-la com xingamentos e outras provocações.

Nem as situações constrangedoras que as professoras tentavam lhe pregar nem o insucesso na amizade – que ela jamais fez questão de ter – deixavam Beth frustrada. "Não lembro de ter ficado aborrecida por causa destas coisas".

Em casa, a criança não tinha seu direito à livre escolha tolhido. Ela vestia-se de mulher e, sem nenhum constrangimento ou retaliação por parte da família, juntava-se às irmãs e brincava de casinha, penteava as bonecas e as tinha como filhas, simulava cozinhadinhas… Era a liberdade no quintal de Beth – cheio de árvores frutíferas, como mangueiras, pés de mexerica e abacateiros e gatos, cachorros e periquitos – que aumentavam a vontade imensa que a aula logo acabasse para poder voltar para casa e, lá sim, ser menina perante todos.

Após um dia cansativo no hospital, a mãe de Beth, técnica em enfermagem, depara-se com o guarda-roupa revirado, como se tivesse sido vasculhado por assaltantes à procura de dinheiro escondido. Aos berros, a filha é solicitada a ir ao quarto dos pais. Chegando lá, como já previa, a bronca. Sua mãe, como o restante da família, não se importava que ela se travestisse, o problema era a bagunça que sempre aprontava com as roupas. "Com as minhas peças tudo bem, mas mexer nas meias-calças de seda que eu vendo não pode".

O acontecido serviu de lição para Beth, que sempre teve o cabelo comprido. Foi aí, na infância, que os pais explicaram que nem tudo que sentimos ou somos os outros precisam saber. Por isto, só lhe eram permitidas as vestimentas femininas do portão para trás. O aprendizado familiar preservou-a de maiores constrangimentos na rua e até mesmo de atentados contra sua integridade física. "Isto você não fala para os outros. Isto você não faz para os outros", era o ensinamento do pai militar e da mãe enfermeira à filha.

Um dia, quando tinha dez anos, Beth começou a perceber a articulação de dois irmãos mais velhos. Ela logo saberia do que se tratava. Eles estavam tramando alguma, imaginava. E estavam mesmo. O alvo? A irmã. Eles planejavam amarrar pedaços de madeira nas pernas dela para que andasse mais firme, com "postura de homem". Beth rebolava muito e, para eles, não podia andar daquele jeito.

O projeto, que não foi executado, deixou marcas psicológicas. Ainda hoje acontece de Beth se pegar andando duro, como se estivesse com ripas fixadas às pernas. "Gente, não tem mais pau me segurando", relembra, pensando em dois sentidos, e logo recompõe a postura de mulher. A dupla passou um bom tempo arquitetando uma técnica de amarrar as tábuas para mudarem o jeito dela caminhar.

Beth, hoje psicóloga com mestrado em Saúde Mental, não nasceu com este nome. Tampouco com uma vagina, que é o que tem há quase dez anos no lugar do pênis, sempre denominado por ela de "aquilo", conseguido com uma cirurgia de transgenitalização, vulgarmente conhecida como operação de mudança de sexo. O nome de registro – "o de batismo?" – ela jura morrer sem contar. "Basta o gerente do meu banco, que faz questão de gritar meu nome na frente de todo mundo e dizer que eu tenho de procurar um advogado para mudá-lo".

João Camargo Neto é jornalista
@joaocamargoneto

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por João Camargo Neto

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]