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Nova imortal da AGL, Maria Helena Chein: “Meu silêncio nunca é solidão”

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22.11.2021 - 17:24:06

Jales Naves
*Especial para A Redação

Goiânia – A contista e poetisa Maria Helena Chein é a mais nova imortal da Academia Goiana de Letras, ao assumir a Cadeira nº 8, que era ocupada pelo poeta Paulo Nunes Batista. Em seu discurso de posse, depois de citar a escritora Clarice Lispector, em quem se espelhou, sobre um momento especial na vida de cada um, afirmou: “Em mim sempre existe o silêncio que reverbera pelas funduras de minha pele e alma, aquietando dragões ou acordando anjos”. Para ela, “neste silêncio, continuamente, há o meu olhar para o outro, o próximo ou o longínquo, o sentir suas carências, necessidades de amor e pão”, e completou: “Meu silêncio nunca é solidão, antes, um silêncio onde cabem Deus, suas misericórdias e alentos”.
 
“Chego, com a transparência do que sou/ um pouco de menina e suas pétalas/ círculo perfeito de uma flor./ Um pouco de mulher e suas necessidades/ longo carregamento de amor e desertos. / Sou a porta dos sentimentos/ eternamente aberta”, anunciou.
 
Em seu discurso de recepção, a escritora Leda Selma concordou: “A poesia é visceral em Maria Helena Chein”. Ela “convulsiona, pulsa, incita. é enraizada, corajosa. E os poemas de ‘Pão Ázimo sob a Figueira’ são quase um ofício de resgates. De celebração. De volta ao ontem. De pouso no hoje. De vivências do agora. Poemas que contemplam a natureza. As belezas do Araguaia. A reverência a Goiânia”. “Poetisa de primeira água. Dona de uma poesia densa, bonita, forte. A linguagem, marcada por belas imagens, pela profundidade de seu conteúdo, pela consistência de seu sentido, distingue a autora pelo acuro na construção ritmada e melódica dos versos (sem qualquer ranço de pieguice), e no respeito ao trato com o idioma”, arrematou.
 
A posse foi na sessão realizada na sede da AGL, a Casa de Colemar Natal e Silva, na última quinta-feira, dia 18, em ato dirigido pelo escritor Ubirajara Galli, presidente da entidade.
 
Alceu Victor Rodrigues
Maria Helena apresentou o patrono da Cadeira nº 8, Alceu Victor Rodrigues. Filho de Francisco Victor Rodrigues e Felicidade da Silveira Rodrigues, nasceu em Catalão, GO, em 1866, e teve uma vida breve e movimentada. Ele iniciou os estudos na cidade natal; morou em Paracatu, MG, e depois na cidade de Goiás, antiga capital. Em Pouso Alto, hoje Piracanjuba, foi Delegado de Polícia. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde fez o curso de Farmácia. Voltou para Catalão, trabalhou e administrou a Farmácia Felicidade, nome de sua mãe. É a mais antiga farmácia de Goiás, data de 1858. Permanece no mesmo lugar, com o mesmo nome e sob a responsabilidade da família, segundo o escritor Geraldo Coelho Vaz, no livro “Academia Goiana de Letras – História e Antologia”.
 
Novamente na cidade de Paracatu, Alceu Victor, em parceria com o professor Júlio César de Melo Franco, fundou e dirigiu o jornal “O Paracatu”, que circulou por mais de três anos. Interessado pelas águas quentes, elaborou o trabalho “Esboço Monográfico das Águas Termais de Caldas do Estado de Goiás”, publicado, postumamente, no jornal “Folha do Sul”, da cidade de Bela Vista de Goiás, por Honestino Guimarães.
 
Poeta, preocupado com o espírito e os movimentos filosóficos da Escola do Recife, filiou-se à Escola Condoreira, a terceira geração da poesia romântica no Brasil, preocupada com os oprimidos. A ela pertenceu Castro Alves. Admirava Victor Hugo e Tobias Barreto, e deixou suas produções literárias em jornais da época. Viveu intensamente seus 36 anos.
 
Paulo Nunes Batista
Discorreu, em seguida, sobre o poeta do cordel, do soneto, poeta também na prosa, Paulo Nunes Batista. Paraibano da bela capital João Pessoa, nasceu em 2 de agosto de 1924, filho do folclorista e poeta popular Francisco das Chagas Batista e de Hugolina Nunes Batista, uma família de cantadores e intelectuais do nordeste. Viajador como Alceu Victor Rodrigues, morou em vinte localidades Brasil afora: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Goiânia e muitas outras, “mas fincou o pé e o coração em Anápolis, GO, onde batizaram uma rua com seu nome. Bem-nascido, bem-criado, trouxe no sangue e na alma os versos que avivam o amor e descortinam os valores morais e espirituais do homem”.
 
“Vi Eulina, sua mulher, sua musa, em cada página do livro cantado para ela “Eulina (A amada-amante das flores)”, festejada rainha de sua vida. Conheceram-se, quando adolescentes, em Anápolis. Ela nunca voltou à Bahia e ele não retornou ao Rio de Janeiro, onde morava. Falou poemas ao ouvido da amada, em sua pele e coração, até que um dia, muito tempo depois, recitou sonetos para a alma da mulher que partia, conduzida, então, pelo amor e pela saudade do poeta”. Citou que o acadêmico Gilberto Mendonça Teles passou, certo dia, pelo Grande Hotel, em Goiânia, e viu um varal de cordéis. Parou e foi conhecê-los. O jovem autor era Paulo Nunes Batista. Comprou alguns e, tempos depois, recebeu mais poemas e, então, prefaciou um dos seus livros. Gilberto incentivou-o a concorrer a uma vaga na Academia. Foi eleito para esta Cadeira. “Abro aspas para Gilberto: ‘Paulo Nunes Batista é um exímio sonetista e, como todo nordestino, hábil manejador da poesia popular’”.
 
Esse grande poeta, de natureza inquieta e universal, mesclado de dores existenciais, da visão cósmica que o detinha para escutar as vozes do espírito, sempre se ocupou de olhar mais de perto o homem e suas cismas. O acadêmico, cronista e poeta Brasigóis Felício, em seu discurso de recepção, disse que ele “pertence à galeria dos escritores e artistas vindos do seio torturado do povo brasileiro; por isto, seu canto não é ufanista, do tipo ‘a doce manga, a saborosa jaca’. Mesmo sabendo ser o lutar com palavras a luta mais vã, combate e luta com a arma da poesia, desde a alvorada de sua vida, quando completava doze anos”.
 
Bernardo Élis afirmou que “Paulo Nunes é, antes de tudo, o poeta. Espontâneo e honesto”.
 
Jornalista, formado em Direito, palestrante, fez do seu cordel, com mais de uma centena de obras, um canto que não morre, traduzido para as línguas espanhola, japonesa e italiana. Representou o Brasil, em 1994, nos Encontros de Improviso de Lisboa. Graças ao valor e à coragem de jogar-se por inteiro nas palavras e feitios de sua cantoria cordelística, recebeu o Prêmio Nacional de Cordel. Fez o discurso de posse, na Academia, em forma poética.
 
“Nosso poeta era também contista. Conquistou-me o livro “Chamego, o Urubu”, com os contos bem-urdidos, com os causos e personagens a me prenderem em uma curiosa e grande leitura. Do começo ao fim, mergulhei em mundos de criaturas sutis, fortes ou tenebrosas, a me envolverem nos mecanismos da criação do escritor, em seu ritmo emocional e nos segmentos da linguagem. “Chamego, o Urubu” leva o leitor para o fantástico, o alegórico, o místico, onde Naninha, Zefa, Bozinha, Dr Claro e o próprio Chamego povoam os causos de delícias ou desesperos. Paulo Nunes, com o linguajar dos goianos e seus floreios, a fala do nordestino e seus inventos, revelava os segredos, arroubos e conquistas amorosas, com maturidade e certo humor”, completou.
 
Maria Helena Chein
Ao falar de si, Maria Helena citou José Saramago, premiadíssimo escritor português, que afirmou: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E se apresenta: “Menina de Anicuns, no entanto, nasci em Goiânia, porque minha avó materna, doce vovó Nenê, aqui residia. Anicuns, terra de meus folguedos e criancices! Depois, em mente, fagulhas de escritos, graças às poucas leituras de livros escolares e jornais que chegavam a minha casa, porque meu pai era representante de vários deles. Meu pai, Jorge Chein Netto, minha mãe, Judith Batista Chein. Jorge era justo e bravo. Judith, doce e severa. Devo a ela o rumo de minha vida”.
 
Quando veio para Goiânia cursar o ginasial, Colégio Santo Agostinho, “um tormento foi instalado. Aqui, eu chorava de saudades de minha casa, do meu tudo. Em Anicuns, chorava, porque tinha que retornar a Goiânia. Sabiamente, mamãe chamou-me para conversar, ali mesmo na cozinha, sentadas, uma em frente à outra. Ela me disse para escolher entre ficar em Anicuns, quando, então, me ensinaria a cozinhar, costurar, bordar, fazer flores, ou continuar os estudos aqui, sem choro e coisas de saudades. Resoluta, firme, respondi-lhe que iria continuar os estudos em Goiânia. E, assim, foi. Nunca mais chorei, quero dizer, ainda chorei, mas ela nunca soube. Mamãe sempre foi alguma coisa mágica, um pé de flor, um pé de fruta, um mi suave em clave de sol. Foi sempre uma bênção, como são as mães”, afirmou.
 
“Vivi o tempo real das salas de aula, como aluna e professora, tempo dos livros, dos poetas, escritores, dos personagens, das tramas e das escolhas. Tempo do GEN – Grupo de Escritores Novos, do qual fiz parte e do qual me recordo com grande saudade. De 1963 a 1969, reuníamos às quintas-feiras, no Conservatório de Música, esse, um dos últimos locais de reuniões, para estudos, palestras e apresentação de nossas produções. Novamente, lembro-me de Saramago, porque o que ele disse, aplicava-se a nós. ‘Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo’”.
 
À provocação do poeta goiano Ítalo Campos, no livro “Por que escrevo”, respondi: “Escrevo para sintonizar-me com o mundo e dizer a mim mesma que estou aqui para colocar em seus lugares os personagens que moram comigo, pôr do lado de fora esta vida interior tão grande e complexa, poesia e prosa de meus desassossegos, segredos do agora e do antigamente. Para ver o que sinto, como e quando sinto, ver a Terra, as criaturas, suas dores, fatos e delitos, porque amo, perdoo, questiono, acredito e duvido. Escrevo a fim de que me leiam, pensem, sonhem e solucionem comigo as comédias e dramas do fazer literário, dos escritos perpetuados nos livros e, agora, nas possibilidades da internet. Disseco-me na poesia. Reinvento-me na prosa. Por companhia tenho os grandes poetas que sempre ultrapassam minhas medidas, e os prosadores que me apontam caminhos da paixão e da liberdade. O encantamento pela palavra, pelo texto, continua”.
 
Ela encerrou sua mensagem com agradecimentos: “a Deus, pelo que sou e recebo, pelo Amor com que me veste, sempre”; à Academia Goiana de Letras, ao presidente José Ubirajara Galli Vieira e à sua acolhida, que muito me comove; às confreiras e confrades, por acreditarem em mim, em meu trabalho e por me receberem com tanto afeto. Prometo-lhes ser digna de sua confiança, respeitando a história deste Sodalício e de suas tradições”; e a Lêda Selma: “você sabe do amor de irmã, de amiga que nos une, da admiração recíproca que nos fortalece. Desde que nos conhecemos, à época de seu belo projeto Poesia em Dose, sua amizade, sua força constante, a presença feita de generosidade e disponibilidade me garantem, que um anjo veio para estar comigo nas trilhas da Literatura, nos rios de minha vida. Muito obrigada, querida Lêda! Obrigada pelo seu Discurso de Recepção, o mais belo que eu poderia ouvir!”.
 
“Filhos do meu mais profundo significado de vida, filhos de minha ternura e encantamento, Marcello, Milena e Rodrigo, eu não seria eu, se não fossem vocês, meu orgulho e meu melhor, flores de minha jornada. Obrigada, Roberta, Viviane e Lau, por estarem sempre comigo. Entrego o coração para as estrelinhas que brilham nos meus dias e noites, Renata, Paula, Vívian, Rafaela, Fernanda e Laís, minhas adoráveis netas”, afirmou, para citar o “amor sem fim aos meus irmãos, Luiz Augusto e Francisca Helena, e Alan, meu primo-irmão. Vocês são âncoras de ouro em minha vida, esteio e força”. “Gratidão eterna ao tio Antônio Batista Xavier, grandeza em minha existência, gratidão a todos os meus professores, aos escritores, em cujas obras me debruço para admirar e aprender”, e, finalizando, “agradeço, profundamente, àqueles que fazem parte de minha história, nos vários rumos por onde caminho. Obrigada, Miguel Jorge, pela presença constante. Estou em festa, pura emoção dividida, porque vocês estão comigo, e, aqui, representam todas as pessoas do meu amor.”
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por Théo Mariano

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