Lucas Almeida
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – O que oito crianças de Goiânia, com idades entre 11 e 13 anos, poderiam fazer para ajudar a preservar objetos arqueológicos ameaçados pela contaminação por fungos? A pergunta parece distante da realidade de estudantes que ainda cursam o ensino fundamental. Entretanto, foi justamente a busca por uma resposta que levou alunos do Sesi Canaã, escola do Sistema Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), a desenvolver o Pro-Bee, um composto à base de cera de abelha e extrato de cravo-da-índia, pensado para proteger peças arqueológicas.
O projeto nasceu de pesquisas que inicialmente desafiaram os estudantes. A proposta era produzir uma camada removível, utilizando cera de abelha e goma-laca, para proteger artefatos contra a umidade. No entanto, os testes mostraram que a iniciativa não apresentava a eficiência esperada. Com isso, o grupo mudou o foco da pesquisa e passou a investigar outros problemas enfrentados na conservação desses materiais.
Foi assim que os goianos chegaram à contaminação por fungos, especialmente do gênero Aspergillus. A descoberta levou a novos estudos, consultas a especialistas e experimentações.
“Encontramos informações sobre a contaminação de artefatos arqueológicos pelo fungo Aspergillus. Depois de entender melhor o problema e reunir dados, começamos a buscar uma solução que tivesse baixo custo, fosse fácil de aplicar, apresentasse baixa toxicidade e, ao mesmo tempo, tivesse uma base científica sólida”, conta Bianca de Sousa Viana, uma das integrantes da equipe.

Bianca de Sousa Viana
Com orientação de profissionais das áreas de química, biologia, arqueologia e conservação, os estudantes desenvolveram o Pro-Bee. Além da cera de abelha e do extrato de cravo-da-índia, a formulação utiliza tolueno como solvente para aplicação da solução.
O trabalho foi apresentado em Sydney, na Austrália, durante o FIRST LEGO League Asia Pacific Open Championship, competição internacional que reuniu mais de 50 equipes de diferentes países. Os goianos conquistaram dois prêmios: o Robot Performance Award, pela melhor performance técnica e estratégica no desafio do robô, e o Champion Award, principal reconhecimento do torneio.
A pesquisa envolveu conteúdos de diferentes disciplinas, além de assuntos que os próprios estudantes precisaram aprofundar para compreender o problema investigado.
“Nossa equipe é formada por alunos do 6º, 8º e 9º ano, e percebemos que vários conteúdos que aprendemos na escola, principalmente em Ciências e assuntos relacionados à micologia, poderiam ser utilizados para entender um problema real e desenvolver uma possível solução. Isso mostrou para nós que aquilo que aprendemos em sala de aula pode ter uma aplicação muito maior fora da escola”, afirma Bianca.
Quando a primeira ideia não funciona
A preparação para a competição internacional também exigiu sucessivas mudanças na construção e na programação do robô. O equipamento precisava executar 15 missões em apenas dois minutos e meio, com movimentos precisos e resultados que pudessem ser repetidos.
Maria Flor de Oliveira Fernandes Lima, integrante da equipe, conta que os alunos estabeleceram um procedimento para avaliar cada alteração feita no robô. Antes de considerar uma mudança eficiente, era necessário que ela funcionasse corretamente em dez testes consecutivos.

Maria Flor de Oliveira Fernandes Lima
“Não existe uma quantidade exata, porque estamos sempre testando e fazendo melhorias. Sempre que realizamos alguma mudança no robô, fazemos uma sequência de 10 testes. Se funcionar corretamente nas 10 tentativas, entendemos que a mudança foi eficiente. Se alguma delas falhar, analisamos o que aconteceu e continuamos ajustando até alcançar a repetibilidade que queremos”, explica a estudante.
A professora de Biologia Rafaella Soares, que acompanha o trabalho dos estudantes desde o início, explica que nem sempre uma estratégia bem planejada funciona quando colocada em prática.
Rafaella Soares
“Na robótica, errar faz parte do processo. Nosso projeto inicial nem se parece com o final. Uma estratégia que parecia excelente pode não funcionar no teste, e um mecanismo pode precisar ser reconstruído várias vezes”, afirma a professora do Sesi Canaã.
O acompanhamento dos projetos envolve identificar as causas dos problemas, avaliar alternativas e, quando necessário, recorrer a profissionais de outras áreas.
“Por que não funcionou e o que precisa ser modificado? Quais profissionais precisamos buscar para solucionar esse problema? Precisamos de ajuda de mais alguém? Essa mudança desenvolve persistência, capacidade de análise e maturidade para lidar com frustrações. Eles aprendem que um resultado excelente quase nunca nasce pronto”, explica a especialista.
Para Rafaella, a participação dos alunos na definição dos caminhos da pesquisa é tão importante quanto a execução das atividades propostas pelos professores.
“A pergunta deixa de ser ‘o que podemos inventar?’ e passa a ser ‘como aquilo que sabemos pode contribuir para resolver este problema?’. Assim, inovação se aproxima de responsabilidade social”, completa em entrevista à reportagem.
Fieg e o desafio de preparar alunos para o mercado de trabalho com as escolas Sesi

“Quando a robótica passa a integrar a formação do estudante, ela deixa de ser apenas o aprendizado sobre construir ou programar um robô” (Foto: André Costa)
No Sesi Canaã, a robótica integra o ensino fundamental desde 2010. As atividades permitem que os alunos tenham contato com programação, construção de mecanismos e investigação científica ainda durante a educação básica.
Para Rafaella, projetos como o Pro-Bee mostram como diferentes disciplinas podem contribuir para uma mesma pesquisa. No caso dos estudantes premiados na Austrália, o trabalho envolveu conhecimentos de Ciências, estudos sobre fungos e a investigação das propriedades dos materiais utilizados na formulação.
“Quando a robótica passa a integrar a formação do estudante, ela deixa de ser apenas o aprendizado sobre construir ou programar um robô. Ela se transforma em uma ferramenta de desenvolvimento integral. O aluno percebe que conhecimentos de Matemática, Ciências, Tecnologia, Linguagens e outras áreas podem ser mobilizados para resolver problemas concretos”, explica.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha, defende a inserção dessas tecnologias desde os primeiros anos escolares. Segundo ele, a inteligência artificial já integra a grade curricular da rede de educação básica do Sesi a partir do primeiro ano. A formação também contempla robótica, empreendedorismo e educação financeira.

André Rocha
“O nosso desafio é aprender e ao mesmo tempo ensinar, com as mudanças muito rápidas e com essa questão toda dinâmica que vem ocorrendo na nossa sociedade”, afirma.
Rocha cita a programação como exemplo de uma área que passa por mudanças com o avanço da inteligência artificial. Na avaliação dele, os profissionais precisarão aprender a utilizar ferramentas capazes de auxiliar no desenvolvimento de algoritmos, no processamento de dados e na otimização de atividades.
Na escola, a introdução dessas tecnologias também modifica a participação dos estudantes nas atividades. Rafaella observa que, com o tempo, os alunos passam a apresentar propostas próprias e a buscar soluções com maior autonomia.
“Para mim, um dos maiores ganhos é justamente formar crianças que não apenas recebem conhecimento, mas aprendem a utilizá-lo para criar”, destaca a professora.
O desafio de apresentar uma pesquisa do outro lado do mundo
Sob a luz do sol, estudantes do Sesi Canaã erguem os robôs e equipamentos utilizados nas atividades de robótica, em um gesto que simboliza a conquista e o reconhecimento do trabalho em equipe. (Foto: André Costa)
A viagem para Sydney trouxe preocupações que iam além do desempenho do robô. Os estudantes precisaram preparar as apresentações em inglês, adaptar os materiais para o transporte e se organizar para participar de uma competição internacional pela primeira vez.
Yasmin Costa Freitas, uma das integrantes da equipe, lembra que os preparativos também foram acompanhados pela expectativa de viajar para outro continente sem a presença dos pais.

Yasmin Costa Freitas
“A primeira coisa que pensamos foi que precisaríamos melhorar muito o nosso inglês. Também percebemos que teríamos que adaptar todo o nosso material de apresentação para que fosse fácil de transportar, montar e apresentar em inglês. Além disso, bateu aquela ansiedade de pensar que viajaríamos para o outro lado do mundo, e pela primeira vez sem os nossos pais”, conta.
O nível das equipes adversárias era outra preocupação. Até a chegada à Austrália, os estudantes não sabiam exatamente o que encontrariam na competição. Yasmin relata que a insegurança começou a diminuir à medida que o grupo conheceu os demais participantes e iniciou suas apresentações.
“No começo, estávamos bastante inseguros, principalmente por causa do inglês e porque não sabíamos qual seria o nível das outras equipes. Mas, quando chegamos lá, conhecemos a competição e começamos a fazer nossas apresentações, percebemos que estávamos bem preparados e começamos a acreditar que realmente poderíamos ganhar”, recorda a estudante.
A professora Rafaella Soares também acompanhou a adaptação da equipe ao ambiente internacional e destaca a postura dos alunos diante das diferenças culturais e das exigências da competição.
“Eles estavam em outro país, em contato com equipes de diferentes culturas, utilizando outro idioma e vivendo uma competição de grande dimensão. Mesmo assim, conseguiram manter a identidade da equipe e apresentar o que construíram com segurança”, observa.
Durante o torneio, o robô desenvolvido pelos goianos alcançou 545 pontos em uma das rodadas. A equipe conquistou o Robot Performance Award e, posteriormente, recebeu o Champion Award, principal reconhecimento da competição.
“Sem dúvida, o momento mais marcante foi quando anunciaram que tínhamos conquistado o primeiro lugar no Champion’s Award”, lembra Yasmin. “Mas também tivemos outros momentos inesquecíveis, como quando conseguimos fazer um round de 545 pontos e quando saímos da sala de avaliação com a sensação de que tínhamos feito uma ótima apresentação”, completa a estudante.
Muito além de construir robôs
A organização do grupo foi uma parte importante da preparação. Além das atividades de pesquisa e programação, os integrantes precisaram dividir responsabilidades, discutir estratégias e conciliar as diferentes tarefas necessárias para apresentar os projetos.
Rafaella explica que as atividades de robótica também permitem identificar habilidades que nem sempre aparecem com a mesma intensidade em outras situações escolares. Enquanto alguns alunos demonstram maior facilidade com programação e construção, outros se destacam na pesquisa, na comunicação ou na organização do trabalho.
“O conhecimento técnico é apenas uma parte. Criatividade, comunicação, liderança, colaboração, organização, responsabilidade, argumentação e resolução de problemas são trabalhadas constantemente”, afirma a professora.
André Rocha considera que essas competências já são necessárias aos profissionais da indústria. Ao ser questionado se a formação desenvolvida pelos estudantes corresponde ao perfil que o setor precisará no futuro, o presidente da Fieg responde:
“É esse o perfil de profissional que ela já precisa.”
Segundo o dirigente, a robótica reúne conhecimentos de matemática, física e programação com atividades que exigem liderança, comunicação e trabalho em equipe. Ele também destaca a importância de os estudantes aprenderem a apresentar suas ideias, inclusive em outros idiomas.
“Então essas habilidades nós começamos a construir lá no início e a robótica ajuda muito, mas não só a robótica, nós temos nossos laboratórios makers para isso”, afirma.
Rocha ressalta que a formação tecnológica precisa estar acompanhada de valores como ética, disciplina e capacidade de relacionamento interpessoal. Na prática, parte dessas competências já fazia parte da rotina da equipe do Sesi Canaã, que tomava decisões coletivamente e distribuía as responsabilidades de acordo com as habilidades de cada integrante.
“Se individualmente cada um de nós tem potencial, juntos conseguimos ir muito mais longe”, resume Maria Flor.
A indústria do futuro e a descoberta de novas vocações
Antes de participar da equipe de robótica, alguns estudantes do Sesi Canaã sequer consideravam seguir carreiras relacionadas à ciência, tecnologia ou engenharia. A participação nas pesquisas e nas atividades de programação despertou interesses que até então não faziam parte de seus planos.
“Antes de entrarmos para a robótica, muitos de nós nem imaginávamos que poderíamos gostar tanto de ciência, tecnologia e engenharia. Como ainda não conhecíamos muito essas áreas, elas nem estavam entre as nossas principais possibilidades para o futuro”, conta Matheus Antunes Botelho, integrante da equipe.

Matheus Antunes Botelho
“Depois de participar da equipe, tivemos contato com novas áreas e descobrimos coisas que realmente gostamos de fazer. Isso ampliou bastante a nossa visão sobre quais profissões podemos seguir no futuro”, acrescenta.
Rafaella observa que o contato com atividades práticas ajuda os alunos a conhecer melhor áreas como programação, automação, engenharia e inteligência artificial, que podem parecer distantes quando apresentadas apenas por conceitos teóricos.
“O estudante visualiza o resultado do que aprende: programa e observa uma ação, modifica uma variável e percebe uma mudança, identifica um problema e busca uma solução. Isso desperta curiosidade, e a curiosidade pode ser uma porta muito poderosa para a formação profissional.”
No Sistema Indústria, os estudantes que desenvolvem interesse por essas áreas durante a educação básica encontram possibilidades de continuidade da formação por meio dos cursos técnicos e superiores oferecidos pelo Senai.
“O Sesi pode despertar curiosidade, proporcionar experiências e desenvolver competências; posteriormente, o Senai oferece possibilidades de aprofundamento e formação profissional em diferentes áreas tecnológicas. Aquilo que começou como experiência escolar pode se transformar em interesse acadêmico e escolha profissional”, explica Rafaella.
Para André Rocha, melhorar a formação dos profissionais que chegam à indústria exige investimentos nas etapas anteriores da educação.
“Nós temos cada vez mais certeza que para qualificar, capacitar um profissional, seja ele técnico ou seja um profissional de nível superior, que faz a sua capacitação no SENAI, seja nos cursos técnicos ou nas nossas faculdades, nós precisamos trabalhar mais a base.”
A ampliação da estrutura educacional está entre os investimentos mencionados pelo presidente da Fieg. Segundo Rocha, o Sistema Indústria está concluindo uma escola em Senador Canedo, iniciou unidades em Trindade e Goiânia e prevê a implantação de outra em Valparaíso. A escola em construção na capital, conforme o dirigente, deverá ser a maior do Sistema S no país.
Na educação superior, ele também cita a ampliação da oferta de cursos de engenharia e o processo de transformação das três faculdades do Senai em um centro universitário.
“Nós temos o desafio de aumentar a produtividade das empresas. Então, para isso, ter o profissional bem preparado é fundamental”, afirma.
O Instituto Euvaldo Lodi (IEL) também participa dessa estrutura de formação, com atuação voltada à aproximação entre instituições de ensino e empresas, conectando estudantes às oportunidades e demandas do setor produtivo.
Para Rafaella, a educação tecnológica deve considerar tanto as possibilidades profissionais quanto a formação pessoal dos alunos.
“Estamos formando pessoas. Ao mesmo tempo, preparar para a vida significa oferecer ferramentas para escolhas profissionais futuras.”
Ao acompanhar a trajetória da equipe, a professora destaca a mudança na confiança dos estudantes depois de apresentarem um projeto próprio e competirem com equipes de diferentes países.
“Existe uma diferença enorme entre alguém dizer a uma criança que ela é capaz e essa criança viver uma experiência que demonstra concretamente essa capacidade. Esses estudantes viajaram para outro continente, apresentaram um projeto desenvolvido por eles, competiram com equipes internacionais e tiveram seu trabalho reconhecido.”
Aos estudantes que ainda não tiveram contato com a robótica, Matheus e os colegas fazem um convite baseado na própria experiência.
“Diríamos para eles experimentarem. A robótica é uma experiência muito diferente e pode ajudar a desenvolver várias habilidades, não apenas relacionadas à tecnologia, mas também comunicação, criatividade, trabalho em equipe e resolução de problemas”, afirma Matheus, ao compartilhar a mensagem do grupo.
