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Plano Diretor: Para avançar, é preciso retroceder

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13.09.2021 - 08:47:24
A Revisão do Plano Diretor de Goiânia vai deixar poucas contribuições e más
lembranças, se persistir no caminho atual. Apesar de inúmeras consultorias, das
audiências, das reuniões com vereadores e da mobilização popular – em
especial nos Setores Sul e Jaó, raras pautas foram além da obviedade. Se
pudéssemos prever alguma mudança na morfologia da cidade a partir desse PD,
certamente eu apostaria na verticalização elitizada das áreas nobres. Nada a
mais. Algum dia no futuro, olhando para trás, vamos sentir as consequências
desses desvarios. As mudanças são nitidamente especulativas. Se cada eleitor
pudesse perguntar ao seu vereador qual o ponto nobre desse Plano para que
tenhamos orgulho de Goiânia, certamente não restaria pedra sobre pedra.
 
As cidades mais significativas do mundo são reconhecidas por sua identidade,
por serem lugares agradáveis e adequados para se viver. Se as pessoas visitam
Paris, certamente é porque a cidade também desperta o interesse de seus
habitantes por preserva-la. As pessoas de Brasília lutam pela manutenção do
Plano Piloto em seu estado original e não aceitam intervenções simplesmente
porque percebem que o espaço público é uma extensão de suas próprias casas.
Em Palmas, a população compartilha de espirito semelhante, assim como os
cariocas e os curitibanos.
 
O Plano Diretor de Goiânia é como um tsunami que ressurge de 10 em 10 anos
arrastando bairros inteiros através de critérios frágeis, destruindo lugares,
histórias e interferindo na vida daqueles que ali vivem a décadas. Alguns meses
atrás um vereador propôs, em um canal de TV, o adensamento da Alameda das
Rosas, que contorna o Zoológico. Fiquei surpreso ao perceber o
desconhecimento do vereador sobre a história daquele lugar e os motivos do
baixo índice de construção daquela via. Como poderia aquele cidadão
determinar o futuro da cidade, estando tão desinformado? Naquele local, anos
atrás, durante uma construção jorrou tanta agua do subsolo que os próprios
empresários decidiram abortar a obra temendo as consequências, como
aconteceu no famoso acidente em um edifício do parque Vaca Brava. Ainda que
se possa afirmar que o Plano Diretor pretende melhorar a cidade, a história
sinaliza que o único caminho que temos, por mais absurdo que pareça, é
começar a andar para trás. No bom sentido, precisamos retroceder.
 
Não conheci o arquiteto Tadeu Baptista e nunca convivi com ele pessoal nem
profissionalmente. Tadeu foi um profissional do mercado, o mais requisitado do
mercado imobiliário por vários anos. Sua história surge em um período de 
intensa verticalização da cidade e representou um momento de transição de uma
época em que os projetos de edifícios ainda eram feitos por engenheiros.
 
Nesse cenário, Tadeu iniciou uma série de propostas inovadoras e adequações
importantes no Uso do Solo e Código de Obras. Uma das suas grandes
conquistas nesse período foi o acréscimo de 10% na área dos apartamentos
para a construção de varandas, que ainda poderiam avançar cerca de 2 metros
sobre o recuo, desde que estivessem 6 metros acima do terreno. Propôs também
que o primeiro pavimento, normalmente menos valorizado, fosse ocupado por
salões e áreas de lazer, mas que não seriam computáveis no índice total de
construção. Os apartamentos do último piso, por exemplo poderiam ter 50% de
acréscimo, criando coberturas com solários e piscinas. Os índices construtivos
ficaram restritos à “área de vassoura”, dando mais fôlego às áreas comuns. Eram
tantos os benefícios que ouvi uma pessoa de Brasília dizer que gostava de vir
passear em Goiânia nos fins de semana e se hospedar nos hotéis do Setor
Oeste, de onde admirava os apartamentos sombreados pelas varandas, o que
era incomum em outros locais da cidade. Enfim, Goiânia tinha essa identidade
positiva, com edifícios generosos e sombreados por varandas que atraíam
pessoas e investidores de outros lugares.
 
A atual legislação com os recuos progressivos e alturas ilimitadas não trouxe
nenhum ganho efetivo à cidade e aos cidadãos, no caso da verticalização, pelo
contrário. Os edifícios estão cada vez mais “encaixotados” dentro de limites
muito rígidos e previsíveis, com paredes expostas ao sol, como se o Uso do Solo
e o Código de Obras estivessem projetando pelos arquitetos, uma dessas
loucuras dos tempos midiáticos. Dentro dessas condições, não vamos chegar a
cidade do século XXI. No fundo, estamos construindo uma cidade genérica e
sem qualidade através de imposições legais, para não dizer digitais.
 
Precisamos pensar nisso. Temos vários problemas, principalmente sociais. Mas
a cidade não irá avançar se continuarmos utilizando os parâmetros atuais. Nesse
caos, para avançar, é preciso retroceder.
 
"Manoel Balbino é arquiteto e urbanista
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por Manoel Balbino

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