Zurique – Gostaria de contar-lhes uma história. Dessa vez sobre uma menininha que conheci quando tinha quatro anos e ia no mesmo jardim-de-infância que meu filho. Essa semana ela teria feito 17 anos. Nicole nasceu com um problema no coração e durante toda sua vida sempre soube que nunca chegaria a essa idade.
Me lembrei dela, durante as horas que passei hoje no jardim cuidando das plantas. Colhendo as frutas silvestres, preparando o canteiro de morangos, tão delicados, tão difíceis de cuidar. Foi um dia de sol, prenúncio de um bom verão.
Também eram em dias de verão como esses que observava Nicole brincar. Morávamos na mesma rua e nos víamos sempre no parque. Eu a olhava brincar com as amiguinhas, de teatro, vestida de bruxinha e às vezes contava histórias de pessoas que já haviam morrido. A morte era um tema sempre presente. Isso me assustava e me deixava um pouco distante. Não compreendia como uma pessoa tão pequena podia falar com tamanha naturalidade de assuntos tão difíceis.
Mas aos poucos fomos nos aproximando. Sua mãe, Sonia, havia transformado seu pequeno apartamento de dois quartos em uma espécie de creche para poder sustentar a família e ao mesmo tempo cuidar da única filha. Todo dia recebia cerca de 12 crianças para almoçar ou passar a tarde, enquanto os pais trabalhavam. O que mais me impressionava era que tanto Sonia quanto Nicole estavam sempre sorridentes, não percebia nenhum sinal aparente de tristeza ou cansaço.
Meus filhos começaram também a almoçar uma vez por semana na casa de Sonia. As crianças ficaram ainda mais amigas e quando passava para buscá-las, aproveitava para conversar um pouco. Fiquei sabendo que o pai de Nicole morava com elas, mas era uma pessoa retraída. Um dia, Nicole quis passar o fim de semana na nossa casa. Fizemos também vários passeios juntos. Aos sete anos, apaixonou-se pelo meu filho e trocaram as primeiras cartinhas de amor.
Uma vez fomos a um concerto para crianças da orquestra sinfônica da cidade. Era uma situação nova, estar no meio de uma multidão, sentada na platéia. Começou a passar mal e tivemos que sair da sala para que pudesse respirar melhor. Seu rosto estava pálido, os lábios azulados, as mãozinhas geladas, mas continuava quieta, sorrindo sem dizer uma palavra. Sem medo, apenas aceitando.
Aos dez anos, um dos sonhos de Nicole era patinar no gelo. Mas isso representava para ela um grande perigo. Ela não poderia correr o risco de cair pois tinha um aparelho implantado nas costas que permitia seu coração funcionar bem. Um dia, ao buscar as crianças para a aula de patinação, pediu para ir também. Prometi a sua mãe que tomaria muito cuidado e que não sairia do seu lado. Nunca vou esquecer sua alegria quando, segurando nas minhas mãos, pode dar algumas voltas na pista de gelo, como todas as outras crianças. Ela confiava em mim. E eu a admirava por sua infinita aceitação.
Nicole passou vários fins de semana conosco. Durante um deles, seu pai faleceu. Havia recebido o diagnóstico de uma doença incurável e aproveitou a ausência da filha para apressar o destino. O meu choque foi grande. Mas sua mãe, mesmo chorando, demonstrava calma. Também nunca reclamou da vida ou do destino. Pelo contrário, continuou nos recebendo com carinho, sorrindo e quase sempre de bom humor. Fazia questão de dizer que se eu precisasse de alguma coisa, contasse com ela. Era verdade. Nesses momentos, eu me sentia muito pequena, com vergonha dos meus pretensos problemas, vergonha das minhas reclamações, da falta de paciência e da correria diária.
Um dia, voltando das férias no Brasil, recebo um envelope com o desenho de uma borboleta. O texto era simples, a foto sorridente, o fato previsto mas inaceitável. Nicole morreu aos 14 anos. Não resistiu a mais uma operação, seria a oitava. Ela própria havia decidido correr o risco. Um novo método. Caso a operação desse certo, poderia ser como todas suas amigas adolescentes, não precisaria mais retardar seu crescimento. Ela quis arriscar uma vida normal. O risco foi maior do que sua coragem.
Desde então, imagens de borboleta povoam o pequeno apartamento de Sonia. Para surpresa de todos, ela continua sorrindo mansamente e recebendo todos os dias muitas crianças para cuidar. “Enquanto elas estiverem aqui, estou bem”, costuma dizer. Todo natal, nos dá um calendário com fotos de Nicole que penduro na cozinha. Ela continua fazendo parte da nossa casa. Sempre acredito em sonhos. Há pouco tempo sonhei que ela estava conosco, não mais uma criança, tinha se transformado em uma mocinha bonita, cabelos longos, feliz.
Me lembrei de tudo isso essa tarde, ajudando minha filha a cuidar de sua pequena horta, separando os brotos de alface, fofando a terra, colocando adubo, aguando com cuidado os pequenos brotos que se tivermos sorte produzirão alguns legumes. As estações continuam.