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Amor Possível

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11.06.2012 - 14:45:21

Quando minhas crianças saem de casa pela manhã, acompanho-as até a porta, desejo-lhes um bom dia, distribuo beijos e digo – Vai com Deus! Deixo-os partirem com o olhar comprido de todas as mães ao se despedirem. Fico na porta espiando o dia, sentindo o cheiro da manhã e pensando – que voltem assim como foram. Meu coração se encolhe, fica apertado ao vê-los saírem, desprotegidos, prontos para enfrentar lutas e alegrias.

É sempre um momento de medo e também de esperança. Esperança de revê-los intactos algum tempo depois. Mas o espaço entre esse adeus e nosso reencontro é um espaço abismal, desconhecido. Ainda a ser preenchido. Peço então a todos os meus santos, anjos, querubins e arlequins que cuidem para que esse vazio seja preenchido com calmaria, doçura, quem sabe até esplendor e aprendizado.

Pois sei que todo instante é risco. Qualquer esquina pode ser susto. Qualquer carro, choque. Sei que o mundo é feito de barrancos, precipícios, ondas e maremotos e que esse espaço entre o meu bom dia e o almoço ou o final da tarde é sagrado, pois nele há distância. Há perigo. Sei que apenas o poder crescer e nada acontecer é uma benção infinita. O milagre do nada é muito.

O milagre de se poder continuar a viver impunemente, continuar a acordar e a dormir, a fazer pouco ou muito, a comer e a ouvir música, continuar a ser e não sofrer além do limite óbvio de se existir sem saber porquê. Poder rir com os amigos, curtir, postar, ligar e desligar todos os aparelhos acessórios da solidão coletiva, celulares, smartphones, ipods, laptops, ipads. Continuar quem sabe até a ignorar a paisagem, a pessoa ao lado – na fila do banco, no supermercado, na sala de espera do dentista, no restaurante, no ônibus, na vida.

A nossa comunicação hoje nos permite ignorar. A nossa tecnologia nos permite esquecer por excesso. Assim quem sabe continuaremos a ignorar o sol e a solidão crescente ou a lua minguante. Podemos ainda ignorar a necessidade de estarmos sempre presentes na ausência, ouvindo e vendo o que está distante. Esse é o mundo moderno e meus filhos e eu e você também fazemos parte dele. Onde quase tudo o que não é visto por uma câmera ou tela líquida que limita é inexistente. Onde o que não nos traz o prazer orgiástico, ilusório de se controlar o mundo através de imagens quadradas, esféricas, banais, egomânicas demais é ignorado. O controle de tudo o que somos e que seremos. O controle do vazio. Nosso vazio.

Sim, é então que me lembro do amor. O amor como único milagre da vida. Seja ele qual for, é o único sentido possível no carrossel de desejos e medos cotidianos. O amor pelos filhos, amigos, irmãos, paixões, parceiros, parentes, passantes. O amor possível e real. Cotidiano e concreto. O amor abstrato não me convence. Sei que é mais fácil amar a humanidade inteira do que o próprio vizinho. Esse amor, místico, namasté, sideral não me interessa, é pura ilusão. Cansei de ver pessoas falarem de carmas, auras, paraísos e pastores e na primeira esquina tropeçarem, xingarem, caluniarem as pessoas mais próximas. Esse paraíso sobre a terra não me interessa, é conto de fadas. E foram felizes para sempre.

Mesmo que a definição da palavra Ágape que me vem à mente nesse momento quase por acaso me surpreenda. Mesmo que sua descrição, feita por Paulo em Corinto oferecida pelo google, me emocione – “O amor (ágape) é paciente, o amor é amável. Sem inveja, ele não tem ostentação, ele não é orgulhoso. Não é rude, ele não é interessado, ele não se irrita facilmente, ele não mantém nenhum registro dos erros. O amor não se deleita com o mal mas rejubila com a verdade. Protege sempre, confia sempre, sempre tem esperança, sempre persevera.” –  O que me interessa realmente é o amor concreto, traduzido em gestos banais.

Só me interessa o amor vivido. O amor entre amiguinhas na escola de mãos dadas na hora do recreio, cúmplices, o amor de jovens no ônibus cedendo lugar a uma senhora, o amor de quem pede desculpa, de quem recolhe um animal abandonado, de quem cuida das plantas, de quem fala baixo pra não acordar o amigo de porre, o amor dos filhos que perdoam os pais pelas impaciências, o amor no trânsito que evita acidentes, o amor na rua que amansa a violência, desarma o golpe, acalma o verbo, desmonta o orgulho, descalça a arrogância. O amor que não ignora, mas atenta para o pequeno, o sábio, o pobre, o grande, o rico e o ignorante. Pois tudo se completa, tudo se iguala.

Pois sendo assim, poderei receber meus filhos sãos e salvos no final de cada dia.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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