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O medo

11.05.2012 - 18:14:33
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Zurique – Por aqui, existem muitas e generosas férias escolares – férias de Natal, férias de esporte, férias de primavera, férias de verão, férias de outono e novamente férias de Natal… Entre elas, os feriados são prolíferos e caem quase sempre na segunda-feira. Para quem tem criança, é preciso uma boa dose de flexibilidade e criatividade para ocupá-las durante esses períodos.

Recentemente, depois de passarmos uma semana esgotando nosso catálogo de receitas de bolos, filmes, trabalhos de jardinagem, Harry Potter, monotonia e brigas de adolescentes, resolvi que só a natureza poderia nos salvar do caos total. Arrumei as malas e fomos para as montanhas. Como, nos últimos tempos, hotel, recepção de hotel, piscina de hotel, café-da-manhã de hotel me dá alergia, coceira e mau-humor, fomos para um sítio na beira de um parque florestal entre a Suíça e a Itália. Uma região chamada Engadin, onde até hoje se fala uma língua derivada do latim, o romanche. Ar puro, floresta, cavalos, céu azul, neve no pico das montanhas, idílio puro.

A idéia era aproveitarmos os poucos dias que ainda tínhamos para fazer passeios a cavalo na região. O único problema era que nem todas as crianças sabiam montar, e subir e descer montanhas não é coisa para iniciantes. Reduzimos então nosso programa, inicialmente, para aulas de equitação e alguns cavalos foram trocados por pôneis. No primeiro dia, o sol foi um companheiro fiel e muito bem-vindo, garantindo o bom-humor geral. Porém, mais fiéis ainda foram os cachorros que nos acompanharam por onde íamos, para grande alegria das crianças.

No segundo dia, resolvemos ousar um pequeno passeio a cavalo na floresta. E foi aí que meu idílio acabou. No meio da floresta, com os cavalos em fila indiana, me lembrei que alguns dias antes havia lido no jornal sobre a presença de ursos exatamente nessa região. Eles fazem parte de um projeto de reintegração de animais selvagens, como ursos e lobos, em algumas regiões da Europa. E o urso em questão pesava 120 quilos, se chamava M13, havia matado algumas cabras e sobrevivido com apenas alguns arranhões a uma colisão com um trem em uma cidadezinha ao lado. Através dos jornais, me solidarizei com o urso, mas, na realidade, o medo apareceu, cresceu e foi ficando cada vez maior, quase tão grande quanto as montanhas a minha volta.

Tentei me acalmar, pensando – que nada, são tantas as florestas, a reserva é enorme, isso é sensacionalismo… Mas daí em diante, atrás de cada pedra, de cada árvore, de cada sombra, imaginava um urso faminto. E toda vez que um dos cachorros parava, com o rabo esticado, olhando atento para algum ponto indefinido entre as árvores, meu coração disparava. Maldita mídia sensacionalista!

Na minha cabeça, os detalhes ficavam cada vez mais explícitos. O urso surgiria atrás de uma árvore, o cavalo se assustaria e me jogaria no chão, o urso se aproximaria com as garras afiadas, os outros fugiriam para pedir socorro, meus filhos seriam salvos por algum anjo de plantão – essa parte da cena meu inconsciente pulava, seria realismo demais para um coração de mãe – e o filme acabava com o urso se aproximando cada vez mais de mim – corte – grito de horror!!!

Medo? Sim. Medo paralisa e emburrece. O medo não tem lógica. Ele obedece a instintos irracionais, às vezes incontroláveis. Para combater a minha fantasia, pavor chegando ao pânico, resolvi pensar em outra coisa, olhar os detalhes da natureza exuberante a minha volta. Os raios de sol passando entre as folhas, o musgo ainda cobrindo o chão no início da primavera, as pequenas flores espalhadas como fina tapeçaria entre as árvores. Tanta beleza para se perder tempo com idéias absurdas. Dessa vez consegui controlar meu medo. Concentrei-me, lutei contra as imagens produzidas dentro da minha cabeça, deixei as imagens reais me guiarem. E a realidade era tranquila, harmoniosa, boa.

No dia seguinte, apesar da chuva, saímos uma vez ainda para um passeio rápido, encapuzados e espirrando água pelo caminho. Na volta, antes de arrumarmos as malas para partir, resolvi tomar um café para me esquentar e sentei-me em uma das poucas mesas do pequeno restaurante. Enquanto isso, as crianças brincavam com alguns animais ao lado do terraço. Coloquei-me perto da porta para observar melhor a cena e despedir-me da linda vista e do sentimento de liberdade de poder estar em um lugar assim, sem ouvir nenhum barulho de carro ou qualquer outro que não fosse apenas de animais e de vento. Estava perdida nesses pensamentos, quando a pessoa que me trouxe o café disse:

– Na semana passada, um urso selvagem comeu um cabrito bem ali onde as crianças estão brincando…

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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