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O pastel e a memória

23.04.2012 - 17:30:30
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Zurique, Suíça – Este ano completam 20 anos que estou fora do Brasil. E, durante esse tempo todo, não houve um único dia, um único minuto em que não tivesse saudades, em que não sentisse no corpo inteiro uma melancolia fina, uma vontade sempre presente de não estar ausente, de poder voltar. Um incômodo semelhante a quando entramos na sala de cinema, sentamos e percebemos já no escuro estarmos vendo o filme errado. Não que o filme em questão fosse ruim, mas simplesmente não era o escolhido. 
 
Desejo, vontade, em alemão “verlangen”. Viver definitivamente no exterior nunca foi o meu desejo, por amar demais os cheiros, as cores, as paisagens da minha terra. Não que o país onde vivo não tenha sua beleza, sua delicadeza, sua densidade, mas simplesmente não foi o meu desejo. Sempre tive consciência exata, quase palpável, de todos os momentos que deixei de viver no meu país, consciência da distância, do vácuo e do silêncio imposto a minha língua, que amo como amiga e confidente. Por isso, sempre me senti exilada, mas não um exílio político ou financeiro, um exílio amoroso. 
 
Amei, casei, tive filhos longe. E como não somos seres únicos, mas múltiplos, quanto mais o tempo passa e meus filhos crescem, mais fortes se tornam minhas raízes no exílio. Minha alma se acostumou a ter duas casas. E a saudade se acostumou a ter essa sede, sempre insaciável. E com a alma dividida em duas, criei meus filhos e me criei. 
 
E como todas as pessoas que sofrem dessa melancolia do exílio, procurei na paisagem estrangeira, marcas da minha terra. E foi assim que descobri uma pastelaria, como quem acha água num deserto. Uma pastelaria onde se pode comer 30 tipos de pastéis diferentes, beber guaraná e suco de frutas, comer paçoquinha, sonhos de valsa e brigadeiro. Enfim, o paraíso sobre a Terra! E lá fui eu com meus três filhos, emocionada como uma noiva antes do altar. O altar da memória. 
 
Queria mostrar tudo a eles, que experimentassem pastel com carne-moída, com milho, palmito, camarão com catupiry, queijo com goiabada…  Enfim, tudo! Mas a realidade é real, as lembranças são construções, misto de fantasia e memória. Ao chegarmos, percebi a diferença, mas não quis acreditar. Faltou a simpatia imediata, o sorriso no rosto, o bom-humor cotidiano. O pastel, demorado, muita massa, pouco recheio. Mas, mesmo assim, ainda estávamos felizes. Na rua, a neve caía, o silêncio preenchia as esquinas, dentro e fora das casas. Mas mesmo assim estávamos felizes. Gosto de infância, quase como chegar em casa. Mas apenas quase.
 
Voltamos algumas vezes à pastelaria e cada vez foi ficando mais claro para mim o que eu estava buscando. Eu não estava comendo pastel, mas memória. E o gosto não era o mesmo. O que me fazia estar ali era a vontade de viver momentos do passado e não a fome ou o desejo de saborear o que estava sendo servido. Aquilo não tinha mais gosto. Aquele desejo da infância, da juventude não era possível satisfazer, ele pertencia a um outro tempo, outro espaço. Era um desejo também insaciável.  Eu estava tentando comer memória e isso não era possível. Podia até ser indigesto.
 
O meu desejo de comer pastel era o desejo de estar e viver no meu país, de sentir calor, de sorrir para qualquer um, dar risadas sem motivo, sentir cheiros, ouvir vozes gritando, barulho de trânsito, cachorro latindo, sem tudo isso, o pastel não tinha gosto. Claro que as crianças não perceberam nada disso, gostaram do pastel, compartilharam minha emoção e brindaram com o brigadeiro, velho conhecido. Mas, para mim, tudo era apenas história. 
 
História que talvez um dia possa contar aos meus netos. Principalmente porque sempre preferi comer pastéis nos mercados de madrugada, tomar cerveja nas calçadas dos botequins e comer paçoquinha na padaria da esquina. E todas essas histórias um dia ainda vão querer sair. Histórias que vivi nas vendas de beira de estrada, estradas de chão vermelho, nas fazendas escondidas entre os morros, nas praias do nordeste ainda desertas, viagens de ônibus, de carro de boi estridente, de trem saindo da Central do Brasil, Ouro Preto amanhecendo, avião sobre o pantanal, Manaus a pé, carroças e caminhões leiteiros… 
 
E talvez, nesse dia então, será possível saciar a minha sede.
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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