O incêndio que devastou o Museu Nacional neste fim de semana deixou o país boquiaberto, em silêncio e em lágrimas. Duzentos anos de História, silenciada em algumas horas. O mais importante acervo histórico do nosso país não existe mais. Vinte milhões de peças do acervo se perderam para sempre. O incêndio é metáfora da atual situação nacional.
Nas manchetes de jornais por todo o mundo a tônica é a mesma: o incêndio no Museu Nacional é retrato de um Rio de Janeiro e Brasil em depressão. E estão certos. A insegurança do nosso acervo cultural e histórico é a nossa insegurança política, jurídica, econômica e social. O museu em chamas é o retrato de um país que não queima, mas arde.
Ao completar em junho 200 anos de vida, o Museu Nacional nada tinha a comemorar. Importantes salas de exposição do museu estavam fechadas por falta de manutenção e necessitavam de reformas. Em 2015 o museu fechou as portas por falta de pagamento de salário dos funcionários. A verba anual que o Museu Nacional deveria receber para manter-se aberto era de R$ 550 mil, mas vinha recebendo cerca de 60% desse valor nos últimos três anos, fruto da crise da Universidade Federal do Rio de Janeiro, à qual era ligado e dependente.
E mais, a direção do Museu chamava a atenção para a necessidade de uma reforma geral e tentava, ainda este ano, uma verba de cerca de R$ 20 milhões junto ao BNDES. Tarde demais, tudo queimou-se!
Não é o primeiro. E se nada for feito, não será o último. Em 2013 foi o Memorial da America Latina, em 2015 o Museu da Língua Portuguesa, em 2016 a Cinemateca Brasileira e agora o Museu Nacional, em 2018. O ápice do descaso cultural, no ápice da crise das instituições.
A insegurança política é gritante. Escândalos e mais escândalos de corrupção tomaram conta do país nos últimos anos. Desconfiança generalizada com os representantes eleitos pelo povo. Crise de representatividade. A maior crise política desde a Constituição Federal de 1988, que reinstituiu o Estado Democrático de Direito em nosso país.
E o cálculo é simples: o custo médio de um deputado federal é de aproximadamente R$ 2,1 milhões por ano, e 513 deputados, que custam mais de R$ 1 bilhão por ano ao contribuinte, são incapazes de defender o Museu Nacional que custa 1/4 ao ano do que custa um único deputado no mesmo período.
E esse é apenas um dos retratos da crise institucional, um dos que pegaram fogo. Mas a lista é longa. A Capes e o Cnpq chegaram a anunciar corte de bolsas e pesquisas para o ano que vem. O que reforça a crise institucional da coisa pública em nosso país.
Múmias, o fóssil de humano mais antigo encontrado no país (de 12 mil anos), esqueleto de dinossauros e muitos, muitos outros objetos de insubstituíveis valores históricos e culturais resistiram a dezenas e centenas de milhares de anos, até milhões deles, mas não suportaram ao tamanho descaso público e à crise institucional e moral. Hoje o país está de luto. Amanhã deveremos erguer a cabeça e começar a construir um futuro que faça uma nova História.
*Hanna Mtanios é advogado especialista em Direito Empresarial