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Nasce um Monstro

26.02.2018 - 09:00:00
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Goiânia – Um compêndio entre as artes de Jacques Tourneur, Roman Polanski, David Cronenberg, Larry Cohen, Joe Dante e John Landis imiscuído aos hábeis diretores Marco Dutra e Juliana Rojas promove um dos mais belos exercícios de cinema de gênero no cenário nacional desde Encarnação do Demônio (2008), do célebre José Mojica Marins. A profusão de referências em As Boas Maneiras (2017) não ofusca a assinatura da dupla de diretores calcada em uma maturidade artística assombrosa. A cada nova obra, ganham destaque, dirigindo juntos ou separados.
 
Ana (Marjorie Estiano) está grávida, solteira e solitária em seu suntuoso apartamento próximo à Marginal Pinheiros. A chegada de Clara (Isabél Zuaa), em busca de emprego, leva-a até Ana e a trama se desenvolve com maestria posteriormente a este encontro. A simbiose dos dois atos distintos marca uma vertente interessantíssima que abarca dois filmes em um que se auto complementam à medida que há uma ruptura a partir do momento do nascimento do bebê e da morte de sua mãe. A solidão de uma pobre garota rica e de Clara promove uma relação íntima entre elas e culmina em uma bela cena de sexo lésbico. Estiano brilha novamente após seu magistral trabalho em O Garoto (2015), do essencial Júlio Bressane. Todo o elenco está afiado.
 
Ao passo que o relacionamento se desenvolve, Clara passa a observar um comportamento estranho de Ana marcado por um sonambulismo e rompantes de violência traduzidos por uma atmosfera inquietante extremamente bem conduzida. Numa sequência deslumbrante, em um dos seus rompantes que deságua numa saída noturna em noite de lua cheia, Ana caminha pelas ruas até se deparar com um gato. Ela o pega no colo, destronca seu pescoço, e começa a devorá-lo. Clara observa tudo atentamente enquanto o sangue escorre. Logo a cena é cortada e mostra Ana em seu apartamento dançando uma música sertaneja. Impossível de esquecer esta cena que traz humor à película proporcionando o melhor uso deste gênero musical em um filme. Há outros instantes em que a verve cômica se revela. 
 
Aos poucos as duas personagens se confundem e se fundem, especialmente a partir do momento do nascimento de Joel (Miguel Lobo), numa possível alusão à figura bíblica, cujo significado remete a Deus, e que decreta a morte da mãe numa cena horripilante. Clara, ao ver aquele bebê monstruoso – nasce um monstro -, pega um revólver, mas não tem coragem o suficiente para atirar. Tenta abandoná-lo, mas logo se apega como uma verdadeira mãe à criança, instante que corrobora a fusão de Clara em Ana, numa possível alusão a Persona (1966), de Ingmar Bergman. É neste passo que a trama se subdivide e há uma quebra de expectativa. 
 
De uma primeira parte que remete à trilogia do apartamento de Polanski, para uma segunda em que os laços são estreitados entre mãe e filho, e que Joel iniciará uma jornada para autodescobrimento. Há sequências que atingem uma poesia magnífica como quando mistura elementos musicais, como Rojas já havia trabalhado em Sinfonia da Necrópole (2014), e, sobretudo, quando o filho desaparece e sua mãe entoa uma belíssima canção. Em Grandeza e Decadência de um Pequeno Negócio de Cinema, dirigido por Jean-Luc Godard em 1986, há uma frase que espelha a situação o mundo contemporâneo: “Tudo está regredindo: a moda, a política, e, portanto, o cinema também.”, mas obras contundentes como esta pérola de Dutra e Rojas robustecem a esperança.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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