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Cacos de vidro

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08.01.2018 - 12:23:48
Ao longe, Talita viu um brilho diferente vindo do chão. Do mesmo chão que sustentava o engatinhar de seu primeiro filho, André. 
Olhou, novamente, e, de pronto,  levantou-se. O menino já estava se aproximando do que brilhava. 
 
"Cacos de vidro, são cacos de vidro!", disse e repetiu Talita para Vinicius, seu esposo. 
"O que foi, meu amor?", perguntou ele da cozinha. 
"Cacos de vidro. Ele podia ter se cortado. É muito perigoso!".
 
A mãe de Talita estava com o marido na cozinha. Ouviu a gritaria e veio acudir.
 
"Mãe, alguém quebrou alguma coisa aqui. Imagine o André todo machucado, todo cortado. Imagine se ele tivesse colocado na boca, se estivesse engolido".
"Calma, minha filha, não aconteceu nada! Você conseguiu protegê-lo". 
""É, mas há alguém descuidado nesta casa". 
 
A mãe de Talita pegou o neto no colo e começou a brincar com ele. 
"André, na sua vida, muitos cacos de vidro estarão no seu caminho. Nem sempre sua mãe estará por perto. Algumas vezes você poderá se cortar".
"Não diga isso, mãe, vai traumatizar o meu filho!".
 
A avó continuou a brincadeira. Teve ela quatro filhos, Também se assustou com as primeiras quedas. Também se agitou querendo estancar cada dor. Mas, aos poucos, foi compreendendo que os cacos de vidro se multiplicam com o passar dos tempos. Há algumas vacinas para dores mais agudas. Há ensinamentos que nos trazem precaução, proteção e ação. Isto porque mesmo os precavidos e protegidos se cortam. E, cortados, precisam agir. Ou isso ou o sangue jorrado ganhará gosto, e uma vida será esvaziada. Ou isso ou a entrega pálida diante da primeira dor. De qualquer dor. 
 
A mãe de Talita, avó de André, quis aproveitar a ocasião para trazer algum frescor em vidas ainda frescas. É bom ver pais se preocupando com filhos. É bom que se debrucem sobre o que faz bem e sobre o que faz mal. É esta a arte da educação, ensinar desde cedo a gostar das coisas corretas e a desgostar do que é errado. E, além disso, despertar o indispensável sentimento da bravura. Não da rabugice. Não da violência. A bravura que desenha na mente dos Andrés a necessidade de ficar em pé e de, se cortado, prosseguir, sem se entregar ao sangue ou à dor.
 
A mãe de Talita acompanhou as dores dos seus filhos. Com eles, falou muitas vezes sobre dignidade, sobre amor próprio, sobre confiança nos dias que se seguem, Cortes, tiveram eles. De amores não realizados, de trabalhos equivocados, de amizades interesseiras. Cortes, tiveram eles de dores que pessoas causam em pessoas. Mas resistiram bravamente. O pai morreu cedo. Doença apressada. Doença insensível que não respeita a harmonia de uma família. Choraram juntos. Cortaram-se nesses cacos que o destino permite. No vidro da casa, viam os dias de chuva e se lembravam do que não tinham mais. 
 
André, o primeiro neto. Nome do avô. Uma homenagem de Talita. Os filhos foram se ajeitando na vida, cumprindo cada um o chamar da vocação. De obstáculos em obstáculos, foram mesclando dias de proteção com dias de malabaristas. A mãe nem sempre pode estar por perto. Mas seus hábitos os habituaram a prosseguir. Era este o mantra: "Prossigamos. Caídos ou levantados, prossigamos. Cortados ou inteiros, prossigamos".  Cria ela no poder de cicatrização que o tempo oferecia. As dores de ontem, ela guardava em uma penteadeira ao lado do coração. Sim, porque, se ficassem todas no coração, não sobraria espaço para canções mais felizes. 
 
Vinicius pega o filho no colo, sorri de gratidão por ser pai e cantarola uma cantiga que o seu pai cantarolava. Talita olha para o filho e o marido e chora. A mãe sorridente conclui: "Como é gostoso chorar de emoção". 
 
O sol atravessa a janela. É verão. E um novo ano ainda engatinha e avista cacos de vidro pelo caminho.

*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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