Goiânia – Os estilhaços provocados pela crise econômica que esmoreceu a sociedade portuguesa reverberam pelo olhar arguto de Teresa Villaverde, uma diretora de grande valia ao cinema contemporâneo, em Colo (2017), seu novo filme. Os efeitos nefastos desta recessão provocam uma condição familiar pautada pela incomunicabilidade causando um sentimento de desespero que incomoda a cada instante. O abraço caloroso em meio a olhares que transbordam uma tristeza sem fim no início da película prenunciam os cacos pelos quais os personagens irão vivenciar ao longo de suas vidas.
Pelo microcosmo de uma família em crise financeira, pode-se traçar uma analogia à crise que assolou Portugal. A trama versa sobre uma família composta por um pai desempregado, uma mãe que trabalha em dois empregos e cumpre a função de progenitora do lar e uma filha de 17 anos que se apega ao seu pássaro de estimação para amainar sua dor e solitude. O relacionamento familiar se desmorona ao passo que uma torre de Babel se instaura naquele ambiente.
Há uma célebre frase de Heidegger que certamente casa muito bem com a película da talentosíssima diretora portuguesa: "a angústia é a disposição fundamental que nos coloca perante ao nada". É neste caminho pelo qual seus personagens transitam, entre andanças a esmo, uma angústia crescente, sem um norte a guiar e totalmente absortos em seus problemas cuja saída parece ser intangível diante da apatia que contamina os seus personagens. É possível estabelecer um elo que conecte a obra da diretora portuguesa com O Pântano (2001), de Lucrecia Martel, visto que, em dado momento, seus personagens se esmorecem e as esperanças são sepultadas.
O distanciamento da lente de Teresa Villaverde em relação aos personagens contrastam com a intensidade emocional que valoriza os espaços, os silêncios, a parcimônia pela qual trabalha com extremo vigor formal e refinamento de sua encenação. A desestruturação passa pela dificuldade em comunicar, em utilizar-se do diálogo para traçar metas e unificar os entes diante de um mundo cada vez mais atroz. Há uma cena tocante em que uma das personagens vocifera que gostaria de viver dentro de uma música e esquecer todo o resto, contudo não há como esquecer.